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18/09/2009

Bairros do Reino Unido lançam moedas de circulação local

Le Monde
Virginie Malingre
Em Londres (Inglaterra)
Os ingleses não querem ouvir falar em euro. Nem cogitam abandonar a libra esterlina que eles tanto amam, e que eles consideram fundamental à sua identidade. Mas pode-se dizer que ela não lhes basta mais totalmente. Em menos de uma semana, duas novas divisas apareceram na Inglaterra. A "Libra Brixton" (B£) será lançada oficialmente na quinta-feira (17) à noite. A "Libra Stroud" nasceu em 12 de setembro.
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Nos dois casos, trata-se de uma moeda puramente local, que os consumidores só podem utilizar em um perímetro reduzido: a primeira, no bairro de Brixton ao sul de Londres, e a segunda na cidade de Stroud, em Gloucestershire. Em 2007, Totnes, em Devon, abriu o caminho, seguida por Lewes (leste de Essex) em setembro de 2008.

O Banco da Inglaterra certamente olha com certo desdém essas experiências que aparecem aqui e acolá. Pois essas "divisas locais", como são chamadas pelos economistas, só coabitam com a indestronável libra esterlina. Elas não têm nada de moeda, no sentido tradicional do termo. Podem ter sua aparência - elas se apresentam sob forma de notas - mas a comparação para por aí. Elas não têm nenhum valor no mercado de câmbio, e não existem fora das fronteiras dentro das quais surgiram. São um simples instrumento de troca no seio de uma comunidade, que permite uma espécie de escambo, em versão papel. E ninguém é obrigado a adotá-las.

"Nós só imprimimos 40 mil notas, de B£ 1, 5, 10 e 20", o que representa mais de 100 mil libras (cerca de R$ 297 mil), explica Tim Nichols, que implantou o projeto em Brixton por conta da organização ambiental Transition Town, responsável pela empreitada.

Haverá duas casas de câmbio no bairro, onde os voluntários poderão trocar uma libra esterlina por uma libra Brixton. E fazer compras nas lojas que aceitarem participar da experiência. A libra esterlina que eles derem em troca será cuidadosamente guardada em um cofre, cuja localização é mantida em segredo (assim como o montante exato de libras Brixton emitidas) para não dar ideias aos ladrões. De tal forma que ela possa a qualquer momento voltar para a carteira daquele que queira se livrar de suas notas falsas verdadeiras.

Mas então para que pode servir esse Banco Imobiliário em tamanho natural? "Primeiramente, para apoiar o comércio local", responde Nichols. Nesses tempos de recessão econômica, a iniciativa faz todo sentido. Os hipermercados e outras redes que pululam nas ruas de Londres dificultam a vida do café ou da mercearia da esquina. Ainda mais hoje, que um Tesco ou um Sainsbury's (grandes redes de supermercados britânicos) vende todos os produtos exóticos que por muito tempo caracterizaram o bairro de Brixton, e seu famoso comércio jamaicano ou indiano.

Segundo o estudo de um grupo de pesquisadores, a New Economics Foundation, o dinheiro que é investido na economia de proximidade circula até três vezes mais do que quando é gasto em uma empresa nacional. Ele é reutilizado no bairro com bem mais frequência do que se terminasse nos caixas de um Starbucks ou de uma Marks & Spencer. E a partir daí, ele gera um crescimento suplementar.

Ao escolher a libra Brixton, o consumidor se obriga a comprar localmente. O comerciante que a escolheu, por sua vez, gastará em libras Brixton. Além disso, é inevitável: ninguém poderá "trabalhar" esse dinheiro tão peculiar em uma caderneta de poupança... "Afinal", acredita Nichols, "isso também terá repercussões sobre a pegada de carbono de Brixton, uma vez que cada vez mais os produtos ali consumidos também terão sido produzidos ali".

Também é preciso que haja atores o suficiente envolvidos. Por enquanto, 800 pessoas físicas, reunidas em um clube de apoio ao projeto, se comprometeram a comprar pelo menos B£ 10. É pouco, se pensarmos que mais de 70 mil pessoas vivem em Brixton. Mas será preciso esperar algumas semanas para medir a dinâmica da operação. Tanto em Lewes como em Totnes, os organizadores já estão em sua segunda ou até terceira emissão de divisas locais.

Por parte das empresas, o início da libra Brixton também deixa uma margem de progressão. Por enquanto são 70 as que decidiram entrar no jogo, de um total de mais de 600. "Isso representa um terço dos atores locais", explica Nichols.

Ainda são muitos os ausentes. O cinema Ritzy, símbolo do bairro desde 1911, teria tentado a experiência. Mas o grupo Picture House, que o comprou nos anos 1990, recusou. O mundo caribenho se mostrou particularmente reticente. Note-se que os cabeleireiros, presentes a cada cem metros, não aderiram. Talvez a famosa loja de discos jamaicana Black Dread Records, que se arriscou, os faça pensar no assunto. Assim como o Café Negril, outro local altamente simbólico de Brixton.

No mercado, as pessoas estão mais do que céticas atrás de suas barracas coloridas. "É confuso", diz um açougueiro. "Já é difícil ganhar dinheiro de verdade hoje, imagine com esse dinheiro de mentirinha...", acrescenta um peixeiro. "Como vou pagar meus fornecedores, se aceitar libras Brixton?", pergunta em tom jocoso um vendedor de frutas e legumes.

Em Totnes, Lewes e Stroud, talvez ele pudesse aderir. Essas três cidades com menos de 10 mil habitantes estão situadas em zonas rurais, cujas populações, ávidas por conservar sua identidade, receberam com entusiasmo as novas divisas.

Lewes está cercada por agricultores que alimentam seu famoso "farmer's market". Em Totnes, também no interior, os boêmios londrinos imprimiram sua marca. E o orgânico está cada vez mais na moda. Stroud, escondida entre colinas, virou uma especialista na cultura dos cafés. Afinal, Brixton possui outros trunfos: ali começam a aparecer hortas nos jardins, e tomates nas varandas.

Tradução: Lana Lim

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