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18/09/2009

Um amor de cachorro na Rússia

Le Monde
Marie Jégo
Há alguns dias, a rua dos Inovadores, no bairro de Novye Tchiriomuchki, na parte sudoeste de Moscou, é palco de uma agitação fora do normal. No tribunal do bairro corre um processo civil que desperta paixões. O réu é Dmitri Khudoiarov, assassino em série de cães. O homem de 42 anos, educador em uma escola para meninas no subúrbio da capital, reconheceu ter matado cerca de 40 cães com uma escopeta, ao volante de seu 4 x 4.

  • Arquivo Folha Imagem

    Na Rússia, cachorros são especialmente amados

Em torno da sala de audiência, defensores de animais e proprietários das vítimas têm dificuldade para conter sua raiva. O acusado pode, no mínimo, receber uma multa, e no máximo três anos de sursis (suspensão condicional da pena). É muito pouco, em comparação com o calvário sofrido. Assia Rodionova foi à audiência com uma foto de seu cãozinho paralisado.

O animal sobreviveu à agressão, e agora se desloca com a ajuda de rodinhas, que servem de apoio às suas patas traseiras. Diante das câmeras da principal rede de televisão, que veio filmar o acontecimento, ela mostra seu sofrimento.

Elena Ben Said teve menos sorte, seu cachorro morreu. "Ele tinha mais medo das pessoas do que elas dele", ela conta. "Sair atirando pelas ruas de Moscou no século 21, isso não é normal", conclui uma jovem, revoltada. Os jornais e a televisão cobrem o assunto, e os militantes pela proteção dos animais acompanham o caso de perto.

Os assassinatos de cachorros estão sempre nos noticiários. Em abril de 2006, a opinião pública se comoveu com a morte de Ryjyk ("ruivo"), um vira-lata que se tornou mascote dos frequentadores da estação de metrô de Konkovo. Ryjyk passava dias tranquilos ali, alimentado pelos pequenos lojistas da esquina, mimado pelos passantes, até que um dia um segurança, bêbado, o espancou até a morte, sob o olhar dos passageiros.

Graças à mobilização dos amigos de Ryjyk, que foram em busca de testemunhas, o culpado, o agente de segurança Boris Surov, finalmente foi julgado e condenado a 32 meses de sursis. Cinco anos antes, outro cachorro vira-lata, Maltchik ("menino"), mascote dos comerciantes instalados em torno da estação de metrô Mendeleievskaia, foi brutalmente assassinado por uma jovem mulher, aparentemente com distúrbios mentais. Julgada dois anos após o fato, ela foi condenada a um ano de internamento em um hospital psiquiátrico.

O caso não parou por aí. O calvário de Maltchik comoveu tanto a opinião pública que um grupo de cantores e de escritores em alta tratou de organizar uma arrecadação para erguer um monumento em sua homenagem. Em 2007, uma escultura de bronze representando Maltchik foi inaugurada no saguão da estação Mendeleievskaia. "É um protesto contra qualquer forma de crueldade a todos os seres vivos", explica com orgulho Lana, que mora logo ao lado, em um apartamento de 78 metros quadrados com seu marido e... seus três cães.

Na Rússia, cachorros são especialmente amados. Para confirmar isso, basta olhar com que zelo os passageiros, na plataforma da estação de metrô Praça da Revolução, afagam a estátua do cão que decora a estação. Seu focinho foi tão acariciado que ficou cor de cobre, enquanto o resto da estátua é preto.

O cão é onipresente na literatura. Ele é uma figura central do conto "Mumu" de Ivan Turguêniev; é o enigma do poema infantil "Bagagem", de Samuil Marshak; é o herói principal de "Coração de cão", conto fantástico de Mikhail Bulkágov. "Coração de cão" relata a experiência inédita do professor Filip Filipovitch Preobrajenski, que transplanta uma hipófise humana para o cérebro do vira-lata Sharik.

O resultado é desastroso. Sharik assume forma humana, transforma-se em Sharikov, um detestável personagem, beberrão ingrato que inferniza a vida de seu criador. O professor, obrigado a reconhecer que o cachorro era melhor do que o homem, volta a transformar Sharikov em cão. Proibido em 1925, esse conto, levado às telas em 1987, teve um sucesso tão grande junto ao público que não é raro ouvir alguém dizer: "Não dê uma de Sharikov!"

Tal respeito pela raça canina é uma coisa boa. Só gostaríamos que esse cuidado popular, esse zelo da Justiça em esclarecer os assassinatos de cães, também fosse exercido no plano dos humanos. "Na Rússia, é preciso ser cão para merecer uma estátua", ironiza Andrei Mironov, da organização Memorial. Nem Anna Politkovskaia, a jornalista assassinada no saguão de seu prédio em 7 de outubro de 2006, nem Stanislav Markelov, advogado morto a tiros em pleno centro de Moscou em 19 de janeiro de 2009, tiveram direito a tal honra.

A prefeitura proibiu, sob pretexto fútil, a colocação de uma placa na fachada do prédio de Anna Politkvoskaia. O local onde Stanislav Markelov foi assassinado - ao mesmo tempo que a jornalista Anastasia Baburova, que caminhava ao seu lado -, a rua Pretchistenka, é regularmente coberta por flores e fotos.

Essas homenagens anônimas são agilmente retiradas pelos varredores de rua, e depois reaparecem para serem varridas novamente. Para Andrei Minorov, "prestar homenagens ao cachorro é fácil e sem riscos. O cachorro não denuncia nada, não entra em conflito com as autoridades. Manifestar compaixão por esse animal é algo permitido, encorajado, ao passo que não é admissível fazer o mesmo por aqueles de quem o governo não gosta".

Tradução: Lana Lim

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