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20/09/2009

Marina Silva, uma alternativa para os decepcionados com o "lulopetismo"

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Ela costuma se comparar a uma jaguatirica, esse gato selvagem que "se isola para lamber suas feridas", antes de voltar ao ataque. Bem observado. Marina Silva tem a paciência de um felino que espera pela hora de atacar. Gentil, frágil e totalmente determinada. Em maio de 2008, ela era a ministra brasileira do Meio Ambiente há cinco anos e meio quando pediu demissão. Ela explica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu veterano e amigo - político e pessoal - que a nomeara para esse cargo, não a apoiava o suficiente em sua cruzada por um desenvolvimento sustentável.

Marina Silva assina filiação ao PV (31.08.09)

Em agosto, ela deixou o Partido dos Trabalhadores (PT), fundado por Lula, onde militou durante 24 anos, e entrou para o pequeno Partido Verde (PV). Ninguém duvida que agora ela irá até o fim de sua ambição, disputando a Presidência da República daqui a um ano. Ela tem diante de si outra mulher, Dilma Rousseff, a candidata do PT escolhida por Lula.

A história de Marina Silva lembra a de Lula. Originária de uma família muito pobre, ela forjou seu destino com coragem, inteligência e obstinação. E talvez com mais mérito, por ser mulher e negra. Ela nasceu em 1958 no seringal Bagaço, uma pequena comunidade de seringueiros no Estado do Acre, perto da fronteira boliviana. O sangue português e de seus ancestrais escravos se misturam em suas veias.

Seu pai fugiu da grande seca que atingia o Nordeste. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se tornou um dos "soldados da borracha" a serviço da indústria aliada. Teve onze filhos, dos quais oito sobreviveram à miséria e à malária.

Aos 11 anos, Marina e suas irmãs começaram a trabalhar com ele para ajudar a pagar uma dívida. Levantavam-se de madrugada e voltavam para casa doze horas mais tarde. O vizinho mais próximo morava a uma hora de caminhada. Na estação chuvosa, a capital do Estado, Rio Branco, a 70 km de distância, muitas vezes ficava fora de alcance.

Quero algo parecido com o que o PT fez há 20 anos

Não posso falar ainda como candidata, mas creio que o debate deve ser sobre ideias e que a ética deve prevalecer. Eu nunca mentiria a respeito da honra de alguém para ganhar eleições. E de um ponto de vista político creio que, se me apresentar, será com a aspiração de chegar a esse segundo turno. Eu gostaria de fazer algo parecido com o que o PT fez há 20 anos, quando rompeu com os partidos tradicionais

Para proteger Marina dos vigaristas, seu pai lhe ensinou a contar. Ela tinha 14 anos quando sua mãe morreu. Sofrendo de uma hepatite, foi à cidade para se cuidar, trabalhou como doméstica, pensou em se tornar freira e fez um curso de alfabetização acelerada. Ela descobriu a vergonha da ignorância, e depois o orgulho de ser boa aluna.

Frequentou as comunidades eclesiais de base, com tendência à esquerda, desistiu do convento, entrou na Universidade de Rio Branco, descobriu o marxismo, decidiu aprender e ensinar História, aderiu ao Partido Revolucionário Comunista e se tornou militante clandestina contra a ditadura militar.

Em seguida ela se iniciou na ação sindical ao lado de Chico Mendes, o célebre líder seringueiro, assassinado em 1988 diante de sua família por matadores de aluguel, a mando de um pecuarista. Juntos, eles organizavam espetaculares manifestações pacíficas contra o desmatamento. Vereadora sob a bandeira do PT, e depois membro da Assembleia Legislativa local, aos 35 ela se tornou a mais jovem senadora na história da República.

Ela descobriu então que suas constantes doenças resultavam de uma contaminação por mercúrio, o que a obriga até hoje a tomar muito cuidado com sua saúde.

Em 2002, ela se tornou o primeiro membro do governo escolhido por Lula, que acabava de ser eleito presidente. Como ministra ela adotou a resistência, contra o agronegócio, a soja transgênica, a rápida expansão dos biocombustíveis, a construção de usinas hidroelétricas, e se mobilizou pela proteção da Amazônia. Antes de se distanciar de Lula e aceitar o convite feito pelos Verdes para levantar ainda mais alto sua bandeira.

Marina Silva, a companheira que desafiou Lula

Os cuidadosos planos do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para organizar sua sucessão em outubro de 2010, fazendo que sua escolhida, Dilma Rousseff, tivesse uma vitória arrasadora no primeiro turno, saltaram pelos ares. Toda a estratégia deverá ser revista por causa de outra mulher: a ecologista e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que passou para o Partido Verde e quase com certeza será candidata

Marina Silva, "a imaculada", tem como principal trunfo sua integridade, reconhecida por todos. Por sua retidão moral e sua coerência política, ela pode seduzir os jovens que buscam utopia e os decepcionados com o "lulopetismo", que criticam seu partido pelas inúmeras maquinações parlamentares. Em um Brasil onde ainda reinam o nepotismo e a corrupção, ela encarna uma abordagem política com enfoque no desejo de convencer, onde "a autoridade dos argumentos" substituiria "os argumentos da autoridade".

Mãe de quatro filhos originados de dois casamentos, Marina Silva é uma personalidade complexa, politicamente progressista e socialmente conservadora. Cristã fervorosa desde sempre, ela entrou para uma Igreja evangélica, a Assembleia de Deus, sem romper com o catolicismo. Hostil ao aborto, que continua sendo proibido - salvo exceções - no Brasil, ela é uma adepta do criacionismo, que gostaria que fosse ensinado nas escolas, como matéria facultativa.

Sua candidatura tornará mais dinâmica uma campanha eleitoral que logo se resumiria a um duelo entre Dilma Rousseff e José Serra, o governador centrista do Estado de São Paulo. Lula, que a trata com consideração, gostaria que ela agisse com reciprocidade. Por enquanto, Marina poupa o partido do presidente: "Mudei de casa [política]", ela explica, "mas continuo morando na mesma rua".

"Chegou a hora de uma mulher governar o Brasil", repetia Lula, nos últimos meses, certamente pensando em Dilma. É um discurso presidencial que convém a Marina.

Tradução: Lana Lim

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