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24/09/2009

No vilarejo de Khla Khnom, ex-Khmers Vermelhos e vítimas aprenderam a conviver

Le Monde
Jacques Follorou Enviado especial a Khla Khnom (região de Phnom Kulen)
Na estrada sulcada pelas águas, cartazes ainda assinalam a presença de minas. Ela só pode ser percorrida a pé ou de moto. E ao seu término finalmente aparece Khla Khnom, literalmente o "vilarejo dos ursos": casas modestas de madeira em palafita, espalhadas no coração da montanha mais sagrada do Camboja, Phnom Kulen, a três horas de estrada ao norte dos templos de Angkor.

  • Reprodução

    A região de Phnom Kulen, no Camboja, na Ásia

Objetos de uma disputa incessante, de 1979 a 1998, entre Khmers Vermelhos refugiados no norte e soldados do governo de Phnom Penh, os vilarejos desse agrupamento de montanhas são um reflexo do país: as vítimas vivem ao lado de seus antigos torturadores. O Camboja, envolvido desde 1998 em um processo de reconciliação e, desde março de 2009, no julgamento dos antigos dirigentes do Khmer Vermelho responsáveis pela morte de no mínimo 1,7 milhão de pessoas entre 1975 e 1979, nunca teve uma fase de expurgo.

Então a vida continua apesar de tudo, em Khla Khnom e em outros lugares. Os camponeses se levantam cedo para trabalhar nos arrozais, e só voltam para casa à noite. Aqueles que ficam perto do barraco de madeira que serve de mercearia cheiram a álcool de arroz. Nesta segunda-feira de 21 de setembro, último dia da Festa dos Mortos, Pov Chum se permitiu um pouco de repouso em família em sua casa de tábuas soltas, preenchidas com palha. Esse ex-Khmer Vermelho que voltou a ser camponês, de pele escura e jeans gasto, tem 53 anos.

Seu passado? Ele foi soldado, é o que afirma. Participou dos massacres? Ele não responde, preferindo insistir: "Por um tempo fui cozinheiro de Ta Mok", um dos dirigentes mais sanguinários do regime comunista. Ele também teria trabalhado como emissário entre os comandantes do Khmer Vermelho.

Após a perda de Phnom Penh em 1979 por Pol Pot sob a pressão vietnamita, Pov Chum entrou para o exército do novo governo. "Eu estava no vilarejo, os soldados do governo pró-vietnamita davam dinheiro, comida e combustível. Como eu não tinha nada, eu fui. Eu lutava contra meus antigos camaradas, precisava comer bem". Ferido, ele voltou para casa e reencontrou os Khmers Vermelhos, com os quais só rompeu em 1998, com o processo de reconciliação que reintegra os Khmers Vermelhos à sociedade cambojana em troca de sua rendição.

Com a paz restabelecida, Pov Chum permaneceu nessa zona onde moram tanto Khmers Vermelhos quanto vítimas de seu terror. Em seu vilarejo eles chegam a ser várias dezenas. "Nem meus camaradas nem eu fomos alvo de ameaças ou insultos, entretanto eles sabem quem nós somos", ele garante. "Queremos viver tranquilamente. Quero reatar laços com minha família; parte dela não estava do mesmo lado que eu. Ainda há resistências até hoje". No mercado, nos arrozais, nos templos, ele cruza com famílias de vítimas. "Não dizemos nada, só nos olhamos... Quando eles me veem, ainda não têm muita coragem de se expressar. Depois de 1998, eles ainda tinham medo, mas agora isso começa a se dissipar".

O julgamento de seus antigos chefes não lhe interessa, ele diz. "A guerra acabou, queremos a vida. Por que falar de vingança? O governo quer que nos reconciliemos, fomos doutrinados, a maioria de nós não sabe ler ou escrever".

Perto dali, à beira da estrada, fica a mercearia mantida por Kong Phally. Todos os camponeses da região passam na frente, para ir até o vale. Aos 46 anos, Kong Phally é mãe de cinco filhos. Essa mulher de firmeza foi submetida como tantas outras a trabalho forçado, na época dos Khmers Vermelhos. "Eles destruíram nossa casa sem motivo; meus pais, meus cinco irmãos e duas irmãs foram todos separados", ela conta.

"Eles nos fazem comer a mesma coisa que os porcos", ela se revolta, antes de dizer: "Eles mataram meu tio. Meu irmão roubou mandioca. Eles queriam matá-lo, mas minha mãe implorou por sua vida. Só a ouviram porque tínhamos origem camponesa; se tivéssemos vindo da cidade, ele estaria morto". Ela diz que desde a queda dos Khmers Vermelhos, trinta anos atrás, a família "tem ódio, mas não fala em vingança".

Vizinha de seus antigos torturadores, todo dia ela os vê circulando por sua mercearia. "Quando abri minha loja em 2001, eles gritavam que eu não deveria ter construído aqui. Reclamei ao chefe do vilarejo", ela diz com uma voz um pouco alterada. "No fundo, eles têm inveja, acham que sou mais rica que eles". Em seguida, ela se recompõe: "Hoje, são eles que deviam ter medo, não nós".

No campo, a ausência da televisão impediu parte da população de acompanhar as audiências do julgamento de "Douch", chefe da prisão S21, em Phnom Penh. A S21 era o símbolo do terror do Khmer Vermelho: 12.380 pessoas morreram nela. Somente o rádio foi capaz de fornecer informações às regiões mais afastadas. Mas esses fragmentos de notícias são preciosos para os camponeses: "O julgamento dos líderes do Khmer Vermelho é a verdadeira vingança", comemora Kong Phally. Perto dela, duas senhoras escutam em silêncio o relato da comerciante. Uma delas, Tom Roeurn, de boca vermelha e dentes pretos por mascar folhas de bétele [espécie de palmeira], conta: "Um dia, levaram meu marido para reeducá-lo, e ele nunca mais voltou".

Ao seu lado, com uma criancinha sobre os joelhos e o rosto gracioso emoldurado por belos cabelos negros, Théng Kun não segura suas palavras. "Se eu fosse homem, teria me vingado pelo que eles fizeram, não suporto vê-los aqui, tenho raiva". Um dia, sob o regime Khmer Vermelho, durante uma reunião pública no vilarejo, seu marido e dois de seus filhos foram declarados "traidores". Levados à floresta, eles foram mortos sem mais explicações. Restam-lhe duas filhas e um filho. "Trinta anos depois, ainda não consigo ficar sozinha à noite. Durmo sempre na casa dos meus filhos".

Tradução: Lana Lim

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