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26/09/2009

Periferia: o modelo comunitário americano seduz os sociólogos franceses

Le Monde
Le Monde Luc Bronner
É preciso se inspirar no modelo americano de "política urbana"? Deve-se reinventar o sistema francês de gestão de bairros problemáticos, inspirando-se no exemplo "comunitário" implantado nos Estados Unidos?

Enquanto a academia francesa por muito tempo permaneceu dominada pelo fantasma das "americanizações", um colóquio, organizado na sexta-feira (25) na Escola Normal Superior (ENS) em Lyon mostra que parte dos sociólogos observa agora com interesse a capacidade das cidades americanas de mobilizar seus habitantes e encorajar sua participação nos bairros problemáticos. E destacam, contrariamente, "a grande fragilidade" da política da cidade francesa.

A eleição de Barack Obama à Casa Branca, no fim de 2008, evidentemente contribuiu para reposicionar o modelo americano no centro de todas as atenções. O presidente dos Estados Unidos de fato foi, em meados dos anos 1980, um "organizador de comunidade" nos bairros no sul de Chicago, uma função intermediária entre assistente social, educador político e agitador profissional. Teorizada nos anos 1960 pelo sociólogo americano Saul Alinsky, sua missão era levar os moradores a se organizarem, para defender seus interesses frente aos patrocinadores sociais, aos bancos, às prefeituras... Uma iniciativa que contribuiu para o surgimento de líderes e de poderes locais.

Essa abordagem é diametralmente oposta à política urbana francesa, tradicionalmente resistente ao reconhecimento das comunidades, como ressaltam os participantes do colóquio. "O modelo republicano francês é um modelo descendente: o Estado sempre sabe o que é preciso fazer. E além disso, como se tem historicamente um grande medo das comunidades, a França ignorou essa dimensão coletiva", aponta Claude Jacquier, diretor de pesquisa no CNRS. "Enquanto em outros países as iniciativas nos bairros problemáticos vêm dos moradores, uma cultura de desconfiança em relação à sociedade civil continua a caracterizar nossas administrações, negando a legitimidade das exigências dos moradores, que além disso são mal representados politicamente", explica Sophie Body-Gendrot, professora de Ciências Políticas, que enfatiza a ausência de "voz" e de "porta-vozes" entre os jovens dos bairros.

As atuais políticas, em especial as operações de renovação urbana, iniciadas em 2003 por Jean-Louis Borloo, não vão contra essa abordagem apesar da demonstração de uma lógica "participativa".

Dos cerca de 40 bilhões que serão investidos até 2013 para renovar os bairros, quase tudo visa operações de construção, e muito pouco sobre a parte humana. "A reforma urbana é uma caricatura da abordagem francesa, onde se reconstrói a cidade no mesmo local. Demolem, reconstroem e pensam que resolveram tudo. Em nenhum momento, a não ser de forma puramente retórica, procuram dar força ou poder aos próprios moradores", constata Jacques Donzelot, especialista em sociologia política, pioneiro da observação do modelo americano.

Na França, ressalta o sociólogo Laurent Mucchielli, "os objetivos são decididos pelos representantes locais do Estado e por profissionais da política urbana. Não pelas associações locais, que só cuidam da implementação". Além disso, ele lembra que a maioria dessas associações são "instaladas pelo poder político e controladas em sua gestão pelo Estado": "A própria palavra comunidade (comunidade de interesses, comunidade de vizinhança) é rebaixada para "comunitarismo" para designar uma forma regressiva de cidadania". Laurent Muchielli vê ali "o paradoxo de uma política que passa seu tempo lamentando que as pessoas são passivas e sustentadas pelo Estado, mas que não entende que sua atitude "paternalista" só pode produzir isso".

Essa abordagem se traduz de maneira bem concreta. Quando a secretária de Estado para a Política Urbana, Fadela Amara, decidiu aproximar os bairros dos serviços públicos, ela instalou representantes dos administradores na periferia. Assim que apareceram candidatos autônomos vindos das comunidades, como nas últimas eleições municipais, eles imediatamente foram classificados de "comunitários" por seus concorrentes e pelas autoridades locais. E as últimas eleições municipais não modificaram a ordem das coisas: segundo o Alto Conselho para a Integração (HCI), a proporção de vereadores saídos da diversidade passou de 3,2% para 6,7% nas cidades com mais de 9 mil habitantes entre 2001 e 2008. Ou seja, somente quatro prefeitos, 495 suplentes e 1.844 vereadores originários da imigração extraeuropeia.

Os pesquisadores não se tornaram subitamente defensores do modelo americano como um todo. Especialmente porque eles enfatizam o grau ainda elevado de guetificação nos Estados Unidos. E porque eles consideram que a política urbana francesa provavelmente atenuou a "crise da periferia". Mas eles querem ver uma nova etapa na questão da participação. "A abordagem americana se explica obviamente pela história dos Estados Unidos, o lugar reduzido do Estado federal, a importância da imigração. Mas o fato de que o Reino Unido, a Europa do Norte, a Alemanha e a Holanda, por exemplo, se inspiram nesse tipo de abordagem deveria nos fazer pensar", ressalta Donzelot.

Tradução: Lana Lim

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