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29/09/2009

Na China, as montanhas de Jinggangshan, berço do Exército Revolucionário

Le Monde
Bruno Philip Enviado especial a Jinggangshan (China)
Mao escolheu bem sua fortaleza para criar o Exército Vermelho: em 1927, juntamente com mil homens, ele encontrou refúgio em uma paisagem de montanhas de relevo suave, a oeste da província meridional de Jiangxi. Mil homens, era tudo o que restava de suas tropas após a derrota retumbante sofrida ali perto, no outono do mesmo ano, em Hunan, sua província natal.

Jinggangshan oferecia na época tudo aquilo com o que podia sonhar um chefe de guerrilha: suas montanhas de pouca altitude, cujo ponto culminante não passava de 2 mil metros, eram cobertas de espessas florestas de coníferas, as estradas eram inexistentes e os caminhos de acesso eram discretos e difíceis de serem encontrados por possíveis invasores.
  • Elizabeth Dalziel/AP - 04.mar.2007

    O atual Exército chinês surgiu em 1927, com cerca de mil revolucionários, que encontraram refúgio em uma paisagem de montanhas de relevo suave, a oeste da província de Jiangxi


Acima de tudo, Jinggangshan era uma terra de bandidos, e isso convinha a Mao: os chefes de um grupo de bandidos locais, Wang Zuo e Yuan Wencai, se tornaram seus aliados. Com seu apoio, enquanto o inverno se aproximava, foi formado o "primeiro regimento da primeira divisão do primeiro exército dos camponeses e dos trabalhadores".

Mao e seus companheiros, entre os quais Zhu De, futuro marechal e chefe militar da resistência comunista, se instalaram no pequeno vilarejo de Maoping (a primeira sílaba é só uma coincidência). Na primavera de 1928, os rebeldes conseguiram controlar sete distritos povoados com meio milhão de habitantes, constantemente importunados e extorquidos pelos revolucionários e seus aliados bandidos.

Décadas mais tarde, a antiga fortaleza dos guerrilheiros de Jinggangshan agora faz parte desses lugares de destaque da nostalgia maoísta, itinerários obrigatórios para os milhares de "peregrinos" ávidos por beber nas fontes da República Popular. O Estado-partido chinês estimula o "turismo vermelho", expressão oficial e consagrada, com o evidente objetivo de reforçar sua legitimidade histórica junto às massas contemporâneas.

Hoje, o distrito é atravessado por estradas asfaltadas, a região inteira é ligada ao resto da província por uma autoestrada moderna e vazia, exceto pelos ônibus de turismo. Hotéis e restaurantes, alguns luxuosos e muitas vezes caros para o serviço oferecido, abundam. Os vendedores ambulantes seguem os turistas para lhes oferecer os costumeiros suvenires da maolatria: pesos de papel com a efígie do "grande timoneiro", exemplares do Livro Vermelho, cartões postais. Uma Lourdes chinesa, onde os paralíticos foram substituídos por ávidos visitantes de short e tênis, munidos de câmeras digitais.

Reações diferentes
Em Maoping, o vilarejo sofreu tantas reformas que é difícil conseguir imaginar seu aspecto em 1928: na entrada, belas casas de chapisco amarelo parecem ter sido construídas na semana passada - na verdade, elas são do início dos anos 2000. Mais adiante, descobrimos que essa bela moradia de telhados pontudos é de época, mas restaurada. Ela pertencia a um médico que ofereceu abrigo e comida a Mao e seu séquito. Do lado de dentro, visita-se o antigo quartel-general de Mao: lá estão sua cama, sua escrivaninha, sua cadeira de bambu, seus cigarros, sua tigela, seu banco. Um raio de Sol bate no chão, vindo de uma bela claraboia octogonal no teto. Sobre a mesa, duas obras de Mao Tsé-Tung: "A luta por Jinggangshan" e "Por que o regime vermelho pode existir na China".

Um certo sr. Qin, 63, operário aposentado e ainda membro do partido, nos faz o seguinte comentário: "Para alguém de minha geração, é importante visitar esses monumentos e ali sentir soprar o espírito revolucionário. É ainda mais importante se lembrar de tudo isso quando se vê o mundo de corrupção no qual vivemos hoje em dia". É isso. O sr. Qin correu como um raio, chamado por seus camaradas, mas o partido tem preocupações a respeito de sua legitimidade.

Os turistas da nova geração reagem de forma diferente: "E daí? Todo mundo tem direito de errar, não?", se revolta Feng Xiejun, 19, quando lhe perguntam o que ele pensa das derivas de Mao. Mas a reação um pouco agressiva ao jornalista estrangeiro deve ser entendida dentro do contexto atual: ainda que Mao tenha sido avaliado pelo ex-dirigente Deng Xiaoping como "70% positivo e 30% negativo", o regime de hoje apagou os aspectos mais tenebrosos do tirano vermelho. Em 2003, para o 110º aniversário do nascimento de Mao, o presidente Hu Jintao simplesmente parou de mencionar, em seu discurso comemorativo, os trágicos erros do timoneiro-chefe. "É impressionante", constata admirado Feng, um estudante de Contabilidade. "O fundador da República Popular conseguiu colocar a China sob a liderança de um único partido!"

Tradução: Lana Lim

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