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29/09/2009

Xangai: em um bairro descolado, o local de nascimento do Partido Comunista Chinês

Le Monde
Bruno Philip Enviado especial a Xangai (China)
Tudo começou aqui, neste prédio de tijolos cinza e vermelhos, situado na rua Huangpi, no coração da antiga concessão francesa de Xangai: aqui, em 23 de julho de 1921, 13 delegados representando os 53 membros do Partido Comunista Chinês realizaram o primeiro congresso nacional do Partido. E assim proclama o escrito do ex-presidente Jiang Zemin pendurado em uma parede do térreo: "Não haveria nova China sem o Partido Comunista Chinês!"

Dentro daquilo que hoje é um museu, o público pode refletir diante da mesa e dos bancos do pequeno cômodo onde aconteceu o congresso. Em cima, manequins de cera feitos à imagem dos participantes exaltam em sua imobilidade esse momento histórico em que o partido foi criado.
  • Liu Jin/AFP

    Mulher queima incensos durante a celebração
    da chegada do Ano Novo, em templo de Xangai



Mao só teve um papel dos mais modestos naquele dia: simples representante de sua província, Hunan, ele parecia um provinciano cujo traje, uma longa túnica tradicional de erudito do vilarejo contrastava com a autoconfiança e o comportamento de alguns outros de seus colegas, mais refinados, cujos ideais haviam sido forjados durante seus estudos na União Soviética ou no Japão. "Eles são muito bem instruídos e sabem ler japonês e inglês!", ele contaria com um misto de admiração e inveja a um amigo. "Era um jovem (ele tinha 28 anos) de rosto pálido, que parecia um sacerdote taoísta", escreveria mais tarde um outro delegado, Zhang Guotao, um dos membros fundadores do Partido e futuro inimigo do "grande timoneiro" durante a Grande Marcha.

De fato, Mao, humilhado e ciente de não ser exatamente um especialista em línguas estrangeiras, assim que voltou para Changsha, capital de sua província natal, mergulhou em seus livros de inglês. Ele nunca chegou a dominar a língua de Shakespeare, mas isso é outra história... O fato é que naquela época ninguém prestou muita atenção em Mao, a quem foi atribuída a humilde tarefa de fazer anotações.

Casa de "conspiradores"

Foi um certo Chen Duxiu, intelectual progressista saído de universidades japonesas e francesas, que foi nomeado secretário-geral. Em pauta: a ditadura do proletariado e a promessa de lutar pelo estabelecimento de um regime comunista. Mas uma semana depois, em 30 de julho, a polícia francesa, que por meio de um informante ficara sabendo da presença dessa mansão de "conspiradores", pôs um fim às reuniões. O congresso terminou em um barco, sobre um lago da província vizinha de Zhejiang.

Oitenta e oito anos depois, esse museu suvenir da criação do Partido Comunista Chinês está, por uma ironia do destino, situado naquela que se tornou uma das ilhotas mais caricaturais da China capitalista! O bairro de Xintiandi - literalmente o "novo céu e terra" - é na verdade aquilo que pode existir de mais anticomunista, ou de menos "socialista".

Diante da casa onde ocorreu o primeiro congresso de um partido ainda embrionário, um restaurante francês descolado, Le Platane, anuncia sua intenção: o luxo. Em frente, com uma decoração de delicado refinamento, um restaurante cantonês enfileira os cômodos belamente dispostos daquela que foi uma grande residência na época das concessões.

Nas ruas adjacentes, as velhas casas reformadas de estilo Shikumen - "casas de pedra" de arquitetura de Xangai - criam uma atmosfera das mais artificiais para um público de turistas que pode, entre outros prazeres, beber uma cerveja em uma cervejaria de Munique. Até um café da rede Costa acaba de ser aberto lá.

No museu, um público bastante grande procurar reviver uma página da história que talvez ele tenha esquecido. Ou que ele sempre ignorou: diante das fotos que recapitulam as diferentes etapas da inexorável progressão do Partido Comunista Chinês na direção do sucesso final, uma jovem tímida responde envergonhada quando lhe perguntam o que lhe inspiram esses longínquos acontecimentos: "Eu não conhecia nada da História de antes de 1949. E depois de 1949 também não", ela se desculpa. "Mas tenho vontade de saber". Um "veterano" do partido, "nascido em 1930 e membro do partido desde 1945", como ele anuncia, mostra sua identidade enquanto resmunga: "O espírito revolucionário se perdeu hoje... mas bem que precisávamos dele!"

Não são muitas as pessoas aqui que, sob o "novo céu" dessa "nova terra", se preocupam com o local de nascimento de um partido ideologicamente abatido, órgão central e coluna vertebral cuja única função e objetivo maior é, no país do capitalismo autoritário, durar e perseverar em seu ser.

Tradução: Lana Lim

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