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01/10/2009

A longa jornada dos cariocas

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Sandra ainda está furiosa. Essa empregada doméstica de 41 anos mora em Nova Iguaçu, cidade-dormitório ao norte do Rio de Janeiro. Ela trabalha em Ipanema, famoso bairro chique no sul da cidade. Volta para sua casa duas vezes por semana para passar um pouco mais de tempo com sua mãe, de saúde frágil, e sua filha, uma adolescente de 13 anos.

  • Rafael Andrade/Folha Imagem - 23.jun.2009

    Ato de motoristas de van em frente ao Palácio da Guanabara, no Rio de Janeiro (RJ), contra mudanças que vão reduzir o número de veículos
    em operação; a PM foi chamada e houve confusão

  • Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem - 9.jan.2006

    Problema antigo: em foto de 2006, motoristas de vans ocupam pista da avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, manifestando pela anulação do edital de licitação das linhas intermunicipais

Nos dias de sorte, quando os engarrafamentos não paralisam o Rio, o trajeto leva - ou melhor, levava - boas duas horas. Agora é pior. Some a isso mais meia hora, no mínimo. Sandra é uma das centenas de milhares de vítimas indiretas do "choque de ordem". Essa política, conduzida pelo governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e pelo prefeito Eduardo Paes, tem por nobre objetivo impor o respeito das leis àqueles que as infringem.

E é por isso que, desde 10 de setembro, Sandra não pode mais subir até a esquina de sua rua em uma van e descer dela na estação Central do Brasil, antes de tomar um ônibus público na direção de Ipanema. Nesse dia, as 6.000 vans que circulavam no Rio, ou entre a cidade e os subúrbios, foram declaradas ilegais.

Em uma noite, um importante elemento da paisagem urbana desapareceu. Ou quase: somente 462 delas foram, por enquanto, autorizadas a circular em 50 linhas, após passar por um rígido procedimento de homologação. Agora não é fácil encontrar uma em Nova Iguaçu, o que obriga Sandra a se levantar mais cedo.

Acima de tudo, as vans sobreviventes do decreto municipal agora têm um ponto final obrigatório: em Leopoldina, um bairro periférico, todos descem, esperando encontrar um ônibus público para chegar ao centro. Perda de tempo e de dinheiro. Vale mais a pena pegar um trem de subúrbio, que é lotado mas vai direto, antes de prosseguir viagem.

As vans se multiplicaram no Rio ao longo dos anos para compensar as deficiências dos transportes públicos. Elas são mais numerosas do que os ônibus, mais confortáveis, mais rápidas, mais amigáveis e muito mais cômodas. Pode-se chamá-las com um gesto, e descer onde quiser. Seus itinerários são flexíveis e suas tarifas, razoáveis.

Mas elas proliferaram tanto que acabaram contribuindo em muito para a asfixia do centro da cidade e dos bairros ricos da "zona sul". Pior: as autoridades desconfiam, certamente com razão, que elas são uma das principais fontes de renda das milícias, grupos armados normalmente compostos por ex-policiais, que disputam com os traficantes de drogas o controle das favelas. Duas boas razões para iniciar essa reconquista das avenidas do Rio.

Até agora, essa operação de impacto castiga sobretudo os usuários mais pobres, que vivem longe do centro e da zonal sul, onde estão os empregos, e não podem chegar lá de carro. João Carlos, 44, auxiliar administrativo, se levanta às 5h30 para chegar ao trabalho pouco antes das 9h. Luiz Carlos, 36, pedreiro, levou quase cinco horas na sexta-feira passada para chegar em casa. "Isso é vida?", ele pergunta.

Todos se queixam dos riscos maiores que correm antes do amanhecer para chegar a um ponto de ônibus ou para esperar um veículo, da ausência de sanitários, ou da falta de bancos no novo terminal. "Só nos resta ir parar no necrotério", ironiza Jorge, mostrando o prédio vizinho que abriga o Instituto Médico Legal.

Milhares de motoristas de vans perderam, pelo menos provisoriamente, seu ganha-pão. Como José Carlos, 46, irmão de Sandra. Ele trabalha há quinze anos, seis dias por semana, doze horas por dia, para uma cooperativa de transporte alternativo. Ele espera ter seu emprego de volta depois de tirar seu atestado de antecedentes criminais.

Se for o caso, deverá usar um uniforme, camisa branca e calça azul, ao volante de uma van recém-pintada de amarelo - a cor de sua linha -, equipada com ar condicionado e GPS. Ele será proibido de parar em qualquer lugar.

Enquanto espera, ele protestou junto com seus colegas contra o governo, criticando-o por querer "acabar com o transporte alternativo". A proibição das vans suscitou mais de mil ações na Justiça e diversas petições. Seus motoristas, manipulados ou não, acusam as autoridades de terem cedido às pressões dos proprietários - privados - das companhias de ônibus municipais, furiosos com a concorrência das vans.

Os motoristas sobreviventes também estão descontentes. Boa parte de seus clientes os abandonaram, agora que não prestam os mesmos serviços. A queda na frequência os obriga a esperar por mais tempo seus quinze passageiros, e reduz o ritmo de suas rotações. O pagamento que toda semana eles enviam ao proprietário não variou. Sem esquecer os novos limites de velocidade. "Daqui a pouco as bicicletas vão me ultrapassar", brinca um motorista.

A corporação conduz algumas ações de retaguarda, por exemplo, transportando clandestinamente alunos de escolas ou turistas. E à noite, com a ajuda da escuridão, veículos piratas caçam clientes nos bairros proibidos. Para o governador, a guerra das vans ainda não está ganha.

Tradução: Lana Lim

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