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02/10/2009

No Brasil, o presidente Lula é criticado pela forma como administra a crise hondurenha

Le Monde
Jean-Pierre Langellier No Rio de Janeiro

Veja a cronologia da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, está atraindo para si críticas entre a imprensa, a classe política e até seus aliados, por seu envolvimento na crise hondurenha. Seus detratores o criticam por ele ter concedido, em 21 de setembro, abrigo na embaixada brasileira em Tegucigalpa ao presidente hondurenho, Manuel Zelaya, derrubado por um golpe de Estado em 28 de junho, e por ter permitido que este transformasse a sede diplomática em um quartel-general, de onde incita à insurreição contra o governo golpista que o tirou do poder. "As atividades políticas de Zelaya [na embaixada] são inaceitáveis. Elas mancham a imagem do Brasil", ressalta o senador Eduardo Azeredo, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado e membro do PSDB (social-democrata, oposição).

O ex-chefe do Estado e atual presidente do Senado, José Sarney, aliado de Lula, acredita que "os excessos de Zelaya são ruins para o Brasil". Em seu editorial, o jornal "O Estado de São Paulo" se revolta de ver Zelaya, "esse hóspede inconveniente" da embaixada, se comportar como "dono da casa".

O que aconteceu no dia 21 de setembro? Segundo versão não-oficial, a esposa de Zelaya, que chegou clandestinamente com seu marido em um carro diplomático, telefonou para a embaixada para pedir abrigo. O diplomata em serviço consultou Brasília, onde Lula foi encontrá-lo - a bordo do avião que o levava para Nova York -, e o presidente deu sua permissão. "Se tivéssemos recusado, Zelaya estaria hoje preso ou talvez morto", garante o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim. O Brasil foi pego de surpresa pela volta rocambolesca do ex-presidente hondurenho, e teve pouco tempo para se decidir.

Por princípio, ninguém pode culpá-lo por ter escolhido ajudar um dirigente legitimamente eleito, e que desde seu exílio forçado recebe o apoio da comunidade internacional, inclusive os Estados Unidos. Ao agir dessa forma, o Brasil lembra que, em uma América Latina que finalmente chegou à democracia, um golpe de Estado, ainda que não sangrento, se tornou inaceitável.

  • Joel Silva/Folha Imagem

    Yolanda Chavarria, de 80 anos, manifestante pró- Zelaya, é vista com fita na boca em
    frente a soldados da Polícia Nacional de Honduras, em protesto nesta segunda-feira (28)



Ativismo fora do comum
Entretanto, nessa questão o Brasil parece ter sido logrado várias vezes. Primeiro pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, aliado ativo de Zelaya, que aconselhou este último a fixar como objetivo a embaixada do Brasil, o país mais respeitado da região. Zelaya começou sua viagem de retorno em um avião colocado à sua disposição por Chávez.

Em seguida, pelo próprio presidente deposto. Pois esse último não tinha a mínima intenção, ao entrar na embaixada, de pedir asilo político ao Brasil, o que o teria obrigado em seguida a manter silêncio, em virtude das convenções diplomáticas. O presidente Lula e Amorim já pediram diversas vezes a seu "hóspede" para que deixe de fazer qualquer tipo de provocação. Em vão.

Se o imbróglio hondurenho resultar em uma solução negociada, o Brasil sairá com uma boa imagem e poderá até alegar ter acelerado o desfecho ao acolher Zelaya. Mas, mesmo sob essa hipótese feliz, o gigante sul-americano, normalmente tão apegado ao princípio da não-interferência, terá dado mais a impressão de tomar partido nos problemas de outros do que de ter agido como mediador conciliatório, papel ao qual ele aspira.

Tradução: Lana Lim

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