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02/10/2009

Soviéticos contra o Antissoviético

Le Monde
Marie Jégo
O Antissoviético é um restaurante bem aconchegante, como tantos outros que existem hoje em Moscou. Na época da URSS, em seu lugar havia uma lanchonete qualquer, "antissoviética", cochichavam então os moscovitas. A referência era geográfica - o café era situado na frente do hotel Soviético - e política -, uma alusão ao movimento dissidente.

A lanchonete fechou pouco após a queda da URSS. Há alguns meses, o jovem empresário Alexander Vanin a comprou junto com alguns amigos para transformá-la em um lugar descolado, com comida caseira e noites literárias. Para os novos proprietários, o restaurante só poderia ser antissoviético. Foi com esse nome que ele foi aberto em julho de 2009. Um mês mais tarde, começaram os problemas.

Exibido em grandes letras na fachada, o nome do restaurante chocou Vladimir Dolguikh, 85, um ex-membro (de 1982 a 1988) do Politburo da URSS, que mora no bairro. Em nome da Associação dos Veteranos da Grande Guerra Patriótica dirigida por ele, o ex-apparatchik conseguiu com as autoridades municipais que o nome do restaurante fosse mudado.

Ameaçado pelo prefeito do distrito, Oleg Mitvol, com uma inspeção fiscal e uma visita dos bombeiros - prelúdio de grandes problemas, segundo o código de costumes locais -, o proprietário obedeceu. Em 18 de setembro, o letreiro foi retirado. "Não queremos uma Terceira Guerra Mundial com o governo", ele explicou. Na verdade somente cinco letras foram retiradas. O restaurante agora se chama Soviético.

A mudança de nome suscitou comentários inflamados nos blogs e fóruns de discussão. "Existe um restaurante Napoleão na Avenida Lênin. O primeiro incendiou Moscou, o segundo destruiu a Rússia, no entanto ninguém se ofende com isso", observa um blogueiro.

Um outro se espanta: "Os ouvidos dos velhos bolcheviques deviam se chocar com um monte de outros nomes, como A Caça do Czar, Imperador, O Conde Orlov e muitos outros". Desse ponto de vista, as tavernas Monarquia e Capitalismo, situadas também no bairro do Hipódromo, "certamente serão as próximas da lista".

A história poderia ter ficado por aí, se o jornalista Alexander Podrabinek não tivesse se indignado, acusando as autoridades russas de tentarem recuperar o prestígio da União Soviética. Em um artigo publicado no site www.ej.ru, ele critica os autores da queixa: "Vocês ficaram chocados com o nome 'antissoviético' porque certamente foram carcereiros nos campos e nas prisões (...), carrascos em um pelotão de execução".

Ele continua: "A União Soviética não era essa descrita em seus livros de história e em sua imprensa mentirosa. Ela era aquela das revoltas camponesas, da coletivização e da fome, da psiquiatria punitiva e das valas comuns, onde foram enterrados meus amigos prisioneiros políticos que não tiveram a sorte de sobreviver até nossa liberdade".

Ex-dissidente, condenado em 1978 a cinco anos de exílio na Sibéria, e depois a três anos e meio de gulag em 1980, Alexander Podrabinek não é vítima da nostalgia. Ele achou que deveria deixar isso bem claro, mas não foi uma boa ideia. Publicado em 21 de setembro, seu artigo provocou a fúria dos "nashis", movimento da juventude putiniana.

Em nome da defesa dos veteranos, os "nashis" vestiram suas jaquetas vermelhas e foram à caça do jornalista, que ainda era correspondente em Moscou do serviço russo da Radio France Internationale (RFI). Eles tentaram intimidar seus vizinhos e seu outro empregador, o jornal "Novaia Gazeta". Logo o número de telefone e o endereço do jornalista apareceram nos sites da internet afiliados às juventudes putinianas. A partir daí começaram as ameaças.

Não contentes de assediar, ameaçar, interrogar os vizinhos, os "jaquetas vermelhas" permanecem diante da casa do jornalista. Ao contrário das manifestações da oposição, sistematicamente proibidas, as dos "nashis" sempre recebem sinal verde da prefeitura.

Verdadeiros batalhões ideológicos a serviço do Kremlin, os "nashistas" não poupam seu apoio à política oficial. A mobilização contra os inimigos internos e externos da Rússia é uma das grandes linhas de sua ação. Muito rapidamente, a campanha de ódio lançada contra Alexander Podrabinek se tornou tão violenta que ele teve de se esconder. Ele e sua família correm perigo.

Entretanto, o artigo marcou um ponto de virada. Desde sua publicação, acontece uma guerra ideológica entre os pró e os antissoviéticos. Nem os assassinatos racistas perpetrados pelos grupos neonazistas, nem as condições miseráveis de vida dos veteranos jamais provocaram reações como essa.

Se Alexander Podrabinek escreveu "é porque ele tinha a impressão de estar de volta à União Soviética. As intrigas dos nashis, o assédio ao jornalista e à sua família mostram que ele tem razão", observa Vladimir Soloviev, ex-apresentador da rede de televisão NTV.

A questão põe em evidência a esquizofrenia do poder russo. Ainda que o presidente Dmitri Medvedev fale em "diálogo" e em "novas políticas", os "guardas vermelhos" do Kremlin seguem outra agenda. Eles são mais adeptos do "matar até no banheiro", proferido por Vladimir Putin a respeito dos terroristas tchetchenos em 1999.

Desde então, o círculo de pessoas visadas aumentou. Depois dos terroristas, chegou a vez dos jornalistas. Desde 2000, 17 deles foram assassinados na Rússia.

Tradução: Lana Lim

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