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03/10/2009

Barack Obama fala com os inimigos dos EUA

Le Monde
Corine Lesnes Em Washington (EUA)
O republicano Michael Gerson, ex-redator de discursos do presidente George Bush, não é um adepto da "recompensa" na diplomacia. Após seis meses de presidência Obama, ele anunciava que a política de diálogo da administração democrata estava "em seu leito de morte".

O encontro de 45 minutos entre o negociador americano para assuntos nucleares, William Burns, e seu colega iraniano, Said Jalili, na quinta-feira (1) em Genebra, após anos de anátema, mostra uma realidade bem diferente. Apesar dos tiros de mísseis e da brutalidade do regime iraniano, Barack Obama segue a linha que defendeu durante a campanha eleitoral: falar com os inimigos dos Estados Unidos.

Para os conservadores como Gerson, a semana foi difícil. A Casa Branca iniciou o diálogo incondicional com os iranianos e, no espaço de alguns dias, estendeu a mão a Cuba, à Síria, a Mianmar [ex-Birmânia] e ao Sudão.

Até agora, nenhum progresso significativo foi constatado. "É cedo demais para julgar", diz Joseph Nye, professor de Harvard que "inventou" o soft power (habilidade de sedução, persuasão). Mas um movimento foi iniciado. Para o acadêmico, entrevistado nesta quinta-feira, o encontro de Genebra foi "totalmente importante": "Se trará frutos? Veremos".

Antigos "Estados bandidos"

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18 de janeiro de 2005A secretária de Estado Condoleezza Rice fala dos seis "postos avançados da tirania": Cuba, Mianmar, Coreia do Norte, Irã, Belarus e Zimbábue
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Um ano atrás, o espetáculo teria sido inconcebível: nesta quarta-feira, enquanto o comboio do ministro iraniano das Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki, atravessava Washington, onde havia obtido um visto sem dificuldades, o vice-ministro sírio das Relações Exteriores, Fayçal al-Mekdad, foi recebido no Departamento de Estado - a primeira visita desse nível em cinco anos. Na ordem do dia por parte dos sírios: a retirada das sanções. Do lado americano: as infiltrações na direção do Iraque, e a esperança de ver a Síria se distanciar do Hezbollah e do Irã.

A administração Obama aproveitou o grande balé diplomático que todos os anos acompanha a Assembleia Geral das Nações Unidas para passar um traço sobre uma década focada nas sanções. Hillary Clinton, a secretária de Estado, resumiu a nova abordagem: "Diálogo ou sanções: é um falso debate". As sanções são um instrumento necessário, mas não suficiente. "É preciso uma dupla abordagem", ela ressaltou. O método é menos contraditório do que parece. "As sanções estão em segundo plano. A preliminar é o diálogo", diz Nye.

O senador democrata Jim Webb (Virgínia), que preside a subcomissão para Assuntos Asiáticos, falou em "redirecionamento" da diplomacia norte-americana: os Estados Unidos não querem mais se encontrar à frente de todos os combates, sozinhos na tentativa de "isolar um regime do resto do mundo, enquanto o resto do mundo não acompanha".

Mianmar é um exemplo típico. Em 23 de setembro, o ministro das Relações Exteriores birmanês, Nyan Win, foi autorizado a fazer turismo em Washington. Membro de um governo que reprimiu de forma sangrenta manifestações de monges budistas dois anos atrás, ele foi tranquilamente visitar um museu e até a Casa Branca.

Nesta terça-feira, o secretário de Estado adjunto para a Ásia, Kurt Campbell, manteve esse bom humor em um encontro em Nova York com um ministro birmanês, U Thang. Era a primeira reunião bilateral em "muitos anos", ressaltou o porta-voz do departamento de Estado, Philip Crowley. Os dois países não mantêm mais relações desde o golpe de Estado militar de 1988. "O regime birmanês mostrou interesse pelo diálogo com os Estados Unidos. Temos a intenção de dar prosseguimento", explicou Campbell.

Segundo Hillary Clinton, os Estados Unidos pretendem fazer da libertação da Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, um pré-requisito para qualquer retirada de sanções. Os opositores estão céticos. "O diálogo não é ruim em si", diz Jeremy Woorum, da Coalizão Americana para Mianmar. "Mas muitos analistas acham que é um gesto de pura realpolitik, que busca conter a influência da China". A parte norte-americana também está preocupada em impedir o transporte de materiais proibidos de Pyongyang para Yangun.

Em 2007, durante a campanha, Barack Obama havia afirmado que estaria disposto a encontrar os líderes de Cuba ou do Irã a partir do seu primeiro ano na Casa Branca. Ele obviamente pensou melhor. "Para Cuba, por exemplo, ele não mudou tudo, somente alguns elementos (as restrições sobre as viagens e as transferências de dinheiro para a ilha)", ressalta Nye.

O degelo sobre Cuba se deu em torno de uma questão concreta: a circulação do correio, interrompida desde 1963. O convite, desta vez, veio de Havana. A diplomata Bisa Williams deveria ficar um dia, em 17 de setembro. Ela passou seis dias em Havana, onde encontrou opositores.

Até onde estender a mão? Para Joseph Nye, a administração Obama se posiciona sobretudo "na reação à política de Bush". O perigo é "conferir certo grau de legitimidade" aos interlocutores.

No caso do Sudão, as organizações de defesa dos direitos humanos tiveram uma surpresa quando o enviado especial do presidente, o general Scott Gration, pediu por uma regularização das relações com o único país do mundo dirigido por um presidente acusado de crimes de guerra, Omar al-Bachir. Elas acreditam que é "ingênuo" confiar em Cartum, um governo que recrutou lobistas para obter a retirada das sanções que atingem o Sudão há mais de dez anos.

Tradução: Lana Lim

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