UOL Notícias Internacional
 

06/10/2009

Em Indre, "um bom meio de informar a população"

Le Monde
Yan Gauchard
A cena se passou no sábado (3), diante da prefeitura de Indre (Loire-Atlantique, na França). Um habitante interpelou alegremente o prefeito: "Ei, você não deveria estar na prisão?" "O tribunal me libertou!", respondeu Jean-Luc Le Drenn. Na véspera, o prefeito de esquerda desse município de 3.700 habitantes, situado perto de Nantes, se viu intimado ao tribunal administrativo. Motivo: em uma moção votada por unanimidade, em 24 de setembro, o conselho municipal se "comprometeu" a organizar a votação sobre o futuro do serviço público postal.
  • Eric Gaillard/Reuters

    Na cidade de Indre, um referendo quer a opinião da população sobre um tema bastante controverso na França. A pergunta é clara: "O governo quer mudar o estatuto do Correio para privatizá-lo, você está de acordo com esse projeto?" Até agora, 40,4 mil pessoas disseram "não"

"Nenhum texto permite que um município organize tal votação", rugiu a administração, algumas horas antes da votação. O tribunal administrativo de Nantes suspendeu a execução da deliberação. Decisão que não abalou a motivação das tropas. "Oficialmente, não estamos organizando mais nada", explica Le Drenn. "Estamos nos mobilizando como cidadãos, e não como parlamentares". "Para evitar qualquer problema com o Estado", Le Drenn tomou o cuidado de pedir emprestado de um colecionador uma urna metálica, "antiga e pesada", em vez de utilizar as da cidade. O magistrado decidiu instalar a urna de votação diante da prefeitura. "É menos convencional, mas está ótimo", ele saboreia. "Atrai mais gente. O empenho da administração fez uma grande publicidade para a votação dos cidadãos".

"Falsas promessas"
Mal foi montado, o posto de votação fez sucesso. "Imagino que todos estão assinalando a mesma coisa...", arrisca René Oyer, conselheiro municipal, enquanto recebe um eleitor. Não há necessidade de cabine: o não à privatização se mostra de forma bem ostentatória. "Parece-me evidente que os que estão vindo, o fazem para defender La Poste [o Correio francês]", presume sem rodeios Oyer. A cédula do Comitê Nacional contra a privatização do Correio, responsável pelo referendo, tem o mérito de ser clara: "O governo quer mudar o estatuto do Correio para privatizá-lo, você está de acordo com esse projeto?"

A formulação é um "pouco maniqueísta", mas é a pergunta certa, segundo Nathalie e Thierry, professores que votam em Nantes. "É preciso abrir o debate antes de levar um tapa na cara". "É exatamente a questão que devia ser levantada", diz Patrick, funcionário do setor privado. "A descrição devia ser clara, bruta. É preciso enviar uma mensagem clara ao governo".
  • Lucas Dolega/EFE - 22.set.2009

    Empregados do Correio francês participam de
    uma manifestação em Paris contra a privatização



Os participantes dessa votação não dão muito crédito às declarações de Christian Estrosi, ministro da Indústria, que garantem que a evolução do estatuto dos Correios para sociedade anônima, em 1º de janeiro de 2010, não abrirá o caminho para uma privatização. "Já conhecemos as falsas promessas", ataca Philippe, funcionário de 55 anos. "O governo havia prometido não encostar na France Telecom e na GDF, e aí está o resultado". "O Correio é um grande símbolo do serviço público", ressaltam Claire, desempregada de 23 anos, e sua irmã Laura, estudante de Sociologia de 19 anos. "Essa votação é um bom meio de informar a população. Sempre poderão dizer que a pergunta feita está truncada, mas está claro. O objetivo é dizer não à privatização".

As formalidades de votação? Não é necessário ter título de eleitor, nem nenhum documento que prove sua identidade ou idade. O eleitor fornece somente seu nome e sobrenome, sua cidade de residência e assinatura. No rodapé da folha de presença, uma nota estipula que cada um se comprometa a votar somente uma vez. "É claro que sempre poderão nos atacar a respeito da legitimidade dessa votação, ou insinuar que ela foi arranjada", observa Joël Aere, representante sindical (Sud-PTT). "Não temos a pretensão de ter o mesmo resultado que um referendo. Nós estamos justamente fazendo um desafio: mais do que contestando essa votação, que o próprio Estado organiza. Há milhões de pessoas na França que têm vontade de dar sua opinião".

Nenhum organizador é ingênuo: "O que vai ser medida é o tamanho da participação, não a porcentagem de 'nãos' ao projeto do governo". No domingo, o comitê contra a privatização do Correio registrou 41.178 votos em Loire-Atlantique. Sem surpresa, 40.448 pessoas se manifestaram contra a privatização.

Tradução: Lana Lim

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