UOL Notícias Internacional
 

06/10/2009

O ainda improvável George Washington europeu

Le Monde
Arnaud Leparmentier
A cena se desenrola no G20 de Pittsburgh: o britânico Gordon Brown louva o modelo keynesiano e a chanceler Angela Merkel briga com ele por exigir da Alemanha menos excedentes comerciais e mais consumo interno. Nicolas Sarkozy reitera suas opiniões sobre os banqueiros, enquanto o italiano Silvio Berlusconi repete seu monólogo contra a especulação petroleira. Por fim, o holandês Jan-Peter Balkenende que, como a Espanha, tem somente um papel menor, fala sobre todos os assuntos. Cada louco com sua mania: os europeus que ocupavam, com a Comissão e a Presidência sueca da União Europeia (UE), oito cadeiras no G20, tocaram uma sinfonia cacofônica. Tanto faz, para Washington ou Pequim: se nada mudar, o G20 logo se resumirá a um G2, onde os presidentes norte-americano e chinês resolverão as questões do planeta.

É possível imaginar, após o "sim" irlandês ao Tratado de Lisboa, que os europeus falarão um dia com uma única voz para ter peso sobre o andamento do mundo? Era o sonho de Valéry Giscard d'Estaing, que introduziu no tratado a Presidência estável do Conselho Europeu: um homem eleito para dois anos e meio deve representar a União no cenário internacional. "A Europa deve buscar e inventar seu George Washington", incita Giscard d'Estaing.

Ao contrário de uma persistente lenda, a reorganização prevista pelo Tratado de Lisboa não vai simplificar o funcionamento da União: ela dará à luz um monstro de três cabeças, tornando a Europa ainda mais ingovernável. "George Washington" deverá coabitar com o presidente da Comissão, preocupado com suas prerrogativas comerciais e orçamentárias, e o ministro das Relações Exteriores, que terá a palavra final sobre os serviços diplomáticos. E nenhum grande país da Europa imagina ceder seu lugar - no G20, no moribundo G8, no FMI, no Conselho de Segurança da ONU - em favor de uma representação unificada.

Somente uma personalidade carismática poderia unir essa Europa digna das cidades gregas da Antiguidade ou italianas da Renascença, condenadas à marginalização por serem incapazes de se unir diante de um mundo em mutação. Mas poucos acreditam no homem providencial, uma vez que os vinte e sete membros estão ansiosos para reconduzir à Comissão o excessivamente cauteloso José Manuel Barroso.

O papel delegado ao presidente estável do Conselho Europeu também se anuncia incômodo. Sarkozy pretende impor uma personalidade forte, mas apoia um homem de ontem e controverso, o ex-premiê britânico Tony Blair, arquiteto da guerra do Iraque e inventor de um modelo financeiro em falência. Ele parece ter desistido disso: Merkel quer um homem de bastidores, que não seria o rosto da Europa, mas o secretário dos chefes de Estado e de governo. O nome do pouco euro-entusiasta Balkenende circula, mas uma candidatura finlandesa, mais euro-entusiasta, é possível.

Por falta de reação, Sarkozy pretende superar essas fraquezas promovendo suas boas relações com Merkel: não são eles os líderes carismáticos da Europa, agora que Londres está fora da corrida? Brown perdeu o fôlego, enquanto seu provável sucessor, o conservador David Cameron, é incompatível por seu euro-ceticismo. Então Paris e Berlim imaginaram trocas de ministros, um protocolo para o Tratado de Amizade do Eliseu, uma cerimônia com grande pompa para os vinte anos da queda do Muro. Nada de mais natural, uma vez que os dois dirigentes andaram de mãos dadas no G20 e se preparam para fazer o mesmo para a questão da mudança climática.

Na realidade, franceses e alemães romperão uma vez que a explosão da dívida pública começar a ameaçar o euro. Apesar da recessão, a Alemanha registra um déficit no máximo 3% maior que seu produto interno bruto (PIB), nível atingido com esforço pela França em período de boom. Os dois países estão cada vez mais estranhos um ao outro: a Alemanha, que agora dedica uma parte menor de seu orçamento às despesas sociais do que o Reino Unido, pretende seguir sua corrida para a produtividade. Sarkozy, o homem que recusa a austeridade, é o campeão mundial dos gastos públicos, à frente da Suécia.

Na indústria, os alemães pretendem seguir sozinhos e recusam qualquer estrutura à moda francesa. "Nenhuma cooperação séria em matéria de pesquisa consegue se formar", acrescenta um ministro francês, ao passo que virão à tona as velhas querelas sobre a política agrícola comum e o orçamento europeu. "Um esclarecimento dos dois lados do Reno é indispensável", se preocupa esse ministro.

Aos poucos, cada um busca fora da União sua nova fronteira. A Alemanha negocia com a Rússia e seus clientes chineses, enquanto os juízes constitucionais e a opinião pública rejeitam qualquer integração suplementar. Sarkozy "deseuropeiza" aos poucos sua política, fazendo alianças em cada continente, com o Brasil, o Egito, os Emirados Árabes e até a Índia.

Assim, a única certeza resultante do "sim" ao Tratado de Lisboa tem a ver com a retomada do processo de ampliação. A Croácia comemorou. A questão turca, deixada de lado há três anos, voltará a ser discutida. Trata-se certamente, contra a vontade de Sarkozy, do único projeto político em andamento na Europa.

Tradução: Lana Lim

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