UOL Notícias Internacional
 

07/10/2009

O incômodo Polanski

Le Monde
Agathe Duparc, Pierre Jaxel-Truer e Claudine Mulard
Faz dez dias que Roman Polanski está preso em um lugar secreto em Zurique, na Suíça. E provavelmente terá de esperar vários meses para saber se será extraditado ou não para os Estados Unidos, que fez o pedido. O cineasta, de 76 anos, foi capturado pela Justiça da Califórnia, que o acusa de ter mantido relações sexuais com uma menor de idade de 13 anos, em 1977, na mansão de Jack Nicholson, situada na mítica Mulholland Drive em Los Angeles.
  • Francois Mori, File/AP - 27.set.2009

    O cineasta Roman Polanski no 62º Festival Internacional de Cannes, na França

Desde a prisão do cineasta franco-polonês, no aeroporto de Zurique, em 26 de setembro, o sentimento geral em relação a Polanski, na França e no mundo, não é mais o mesmo, o que não favorece o cineasta. Os profissionais do cinema que o apoiam desde o início do caso, sobretudo franceses, estão isolados. Na Suíça, por exemplo, que deverá cuidar por muito tempo de um prisioneiro incômodo, o sentimento geral é: "Mandem Polanski de volta para os Estados Unidos". No mundo inteiro, os fóruns na internet denunciam "a elite cultural, o bling-bling político-artístico-midiático que vai a socorro de uma celebridade pedófila".

Bernard Kouchner, que pedia a sua colega americana Hillary Clinton para intervir na libertação do cineasta, acabou respondendo que esse caso é da alçada da Justiça de Los Angeles. A reação imediata e exaltada de Frédéric Mitterrand, em 27 de setembro, parece muito distante agora. O ministro da Cultura - o fato é raríssimo - havia apontado um culpado: "Existe um EUA generoso que nós amamos, e também existe um EUA que dá medo, e é esse EUA que acaba de nos mostrar a cara". O governo francês, que permanece muito discreto no caso Polanski, viu essa declaração de formas muito diversas, ainda mais que o ministro se apresentou como porta-voz do presidente.

A petição em favor de Roman Polanski, lançada na França, até recebeu algumas assinaturas vindas de Hollywood, mas poucas: Martin Scorsese, Woody Allen, John Landis, David Lynch, Alexander Payne, Wes Anderson, Darren Aronofsky, Julian Schnabel... as estrelas de Hollywood não estão muito dispostas a arriscar sua popularidade.

Os signatários apresentam diversos argumentos: esse caso data de trinta anos, e o debate sobre a prescrição deve ser reaberto; Polanski já cumpriu 42 dias na prisão, a vítima retirou sua queixa e não pede por vingança, e não se prende uma pessoa que aceita o convite de um festival de cinema, no caso, o de Zurique. Tudo isso é verdade. Mas tudo isso tem pouco peso em relação aos argumentos apresentados pela imprensa americana ou pela internet: a recapitulação dos fatos em toda sua brutalidade, a fuga de Polanski antes de seu julgamento, a igualdade diante da Justiça independente da fama ou do talento.

A evolução de Whoopi Goldberg é exemplar. Na quarta-feira, 30 de setembro, a popular comediante americana defendeu Polanski com este comentário em seu talk-show "The View", na rede ABC: "Não foi um estupro-estupro". Mas no dia seguinte, após receber críticas, ela suavizou suas declarações e descreveu detalhadamente, no ar, as acusações que pesavam sobre Polanski: "Fornecimento de substância controlada a uma menor de idade, atos obscenos com uma criança menor de 14 anos, relações sexuais ilegais, estupro com uso de drogas, perversão e sodomia".

O depoimento da vítima, Samantha Geimer, colhido na época por um júri de acusação, circula por toda a internet e confirma uma opinião americana cada vez menos tolerante diante de relações sexuais entre adultos e menores de idade; como na Suíça. A imprensa americana, assim como a britânica, não hesita em lembrar os fatos. O sério "Independent"de Londres, por exemplo, resumiu os fatos em algumas palavras violentas na primeira página de sua edição de 29 de setembro.

O mesmo vale para o cronista do "Los Angeles Times", Steve Lopez, que na primeira página de 30 de setembro exprimiu seu choque quando leu o relato da relação sexual à qual a menina foi submetida. O título de seu texto resume um sentimento geral dos Estados Unidos: "Os defensores de Polanski se esqueceram de quem é a verdadeira vítima". E de lembrar, com muitos detalhes, minuto a minuto, o que aconteceu no dia 10 de março de 1977. A imprensa americana se pergunta, por fim: "Por que a França ama Polanski?"

Em sua autobiografia, "Roman por Polanski" (1984), o cineasta dá a sua versão dos fatos. Ele conta que, tendo "voltado a se interessar por fotografia", ele havia proposto a Gérald Azaria, redator-chefe da revista francesa "Vogue Hommes", uma reportagem fotográfica mostrando "as garotas como elas eram agora: sexy, ousadas e bem humanas". A sessão com Samantha Geimer terminou na jacuzzi.

Polanski, que tinha 43 anos quando publicou esse livro, reconheceu ter mantido relações sexuais e bebido champanhe com a menina, mas seu relato desvia dos detalhes mais prejudiciais a ele. Por diversas vezes a garota tentou recusar, dizer não. Ela também disse que Polanski lhe havia dado um pouco de Quaalude (um sedativo), que ela engoliu com uma dose de champanhe. A mãe logo prestou queixa e o diretor foi preso no dia seguinte.

Segundo a lei californiana, toda relação sexual com um menor, mesmo que "consentida", é um crime imprescritível. Os depoimentos da vítima e de outras testemunhas (entre as quais a atriz Anjelica Huston), colhidos a portas fechadas pelo júri, levaram a seis acusações.

Foi a partir desses fatos que quase toda a imprensa americana, encabeçada pelo "New York Times", mas também boa parte da blogosfera, acreditou que Polanski deveria ser extraditado e julgado. Ainda foi a questão dos fatos que, na França, conquistou a convicção da maioria dos deputados da UMP [União por um Movimento Popular], mas também de personalidades de esquerda. Daí o descontentamento contra o discurso considerado rápido demais e imprudente de Frédéric Mitterrand, lançado há alguns dias pelo deputado da UMP de Maine-et-Loire, Marc Laffineur. "Lembrei que não é preciso fazer a mediação entre a Suíça e os Estados Unidos. Além disso, ter relações sexuais com uma menina de 13 anos não é algo banal. Devemos ser prudentes, ainda que o caso tenha trinta anos".

Daniel Cohn-Bendit, líder ecologista e ardente defensor das liberdades, surpreendeu com sua declaração: "Polanski está sendo defendido com três argumentos que eu não aceito. Dizer 'foi há trinta anos' é simples demais, isso exige um debate verdadeiro sobre o conceito de prescrição, que varia de país para país. Dizer 'é um grande artista', é verdade, mas se ele está doente deve se tratar. Dizer 'era outra época' é subentender que depois de 1968 tudo era permitido. Isso é uma completa falácia: em 1968, ninguém tinha o direito de estuprar menininhas depois de drogá-las". Cohn-Bendit admite que esse assunto é delicado para ele: seus escritos "provocantes" sobre a sexualidade das crianças, em 1975, muitas vezes lhe renderam críticas.

Existem os fatos, e existe também a questão controversa do processo, que os defensores de Polanski querem explorar. Em 8 de agosto de 1977, para evitar um julgamento que teria traumatizado a vítima por obrigá-la a testemunhar em público, o juiz Laurence Rittenband, os advogados de Polanski e o promotor entraram em um acordo a respeito de um "plea bargain", uma prática comum: Polanski se declara culpado somente da acusação de "relações sexuais ilegais" e o Ministério Público abandona as outras acusações.
  • Ennio Leanza/EFE - 27.set.2009

    Cartazes pedem a libertação de Polanski no Festival de Cinema de Zurique (Suíça). O cineasta foi preso ao chegar ao aeroporto de Zurique, devido a uma ordem de prisão emitida pelos Estados Unidos há mais de 30 anos, acusado de fazer sexo com uma garota menor de idade

O juiz (hoje falecido) teria se comprometido a não encarcerar o cineasta além de seu internamento para avaliação psiquiátrica na prisão de Chino. Após 42 dias de detenção e um relatório confirmando que ele não tinha desvios sexuais, Polanski foi liberado. Enquanto aguardava julgamento. Na véspera da audiência de 1º de fevereiro de 1978, Polanski fugiu, temendo que o juiz não cumprisse sua palavra. Então nunca houve julgamento nem determinação de pena.

Além disso, o atual mandado de prisão para Polanski se limita somente à acusação de "relações sexuais ilegais". Mas, desde a interpelação, a procuradoria de Los Angeles sugeriu que a fuga de Polanski poderia invalidar esse acordo, e portanto colocar o cineasta novamente sob as seis acusações iniciais. Entra aqui a personalidade de Steve Cooley, procurador do condado de Los Angeles. O destino de Roman Polanski depende muito dele. Ele conseguiu sua prisão na Suíça, e pretende extraditá-lo e convocá-lo. Certamente Cooley ficou furioso quando os advogados de Polanski declararam durante uma audiência para pedido de arquivamento do caso, em dezembro de 2008, que o procurador não tinha realmente se esforçado, por anos, para conseguir a extradição do cineasta...

"A justiça enfim será feita", ele declarou, indicando que buscava uma pena mais severa que a de 1977. "Sua pena muito, muito, muito leve não é mais possível com as leis atuais". Há muito em jogo para esse republicano de 62 anos, filho de um agente do FBI, em seu posto desde 2000, para o qual, deve-se lembrar, ele foi eleito. O caso Polanski surge após a absolvição de diversas personalidades: em 2004, o astro do futebol americano O. J. Simpson, acusado pelo duplo assassinato de sua ex-mulher e de um amigo. Com Roman Polanski, Steve Cooley, reeleito em 2004 e 2008, está determinado a provar a seus eleitores que Los Angeles, sede da indústria cinematográfica, não pratica uma justiça indulgente para com as estrelas.

Polanski deve "ser tratado como todo mundo", confirma o governador da Califórnia e ex-ator Arnold Schwarznegger. Assim também pensa Jill Stewart, redatora-chefe da publicação "L.A. Weekly" e especialista em política local: "A população do condado de Los Angeles, predominantemente operária, se ofende quando privilegiados podem fazer acordos amigáveis e escapam da justiça, enquanto as pessoas ao seu redor não têm essa chance".

Cooley também deverá prestar contas do custo - financeiro e pessoal - de um caso de 32 anos. Ainda mais que a justiça na Califórnia está sobrecarregada, obrigada a operar com cortes orçamentários e fechar seus tribunais em determinados dias. E o Estado da Califórnia deve, por decreto federal, reduzir sua população carcerária de 40 mil prisioneiros.

Os advogados de Polanski, que recentemente declararam que seu cliente estava "digno mas tenso" na prisão suíça, não deixarão de lembrar um episódio do filme documentário "Roman Polanski, Wanted and Desired", de Marina Zenovich, no qual David Wells, substituto do promotor em 1977, diz ter conversado com o juiz Rittenband no decorrer da instrução. É proibido. Wells tentou consertar, há pouco tempo, na rede CNN. "Disse isso para animar um pouco meus comentários", ele disse, pouco convincente. Ele foi incapaz de responder à pergunta: "O senhor estava mentindo na época ou está mentindo agora?"

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h20

    -0,47
    3,264
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host