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10/10/2009

A rivalidade entre Índia e Paquistão transparece através de um novo atentado em Cabul

Le Monde
Frédéric Bobin Em Nova Déli (Índia)
Depois dos prédios e dos comboios da Isaf (Força Internacional de Assistência à Segurança) - o braço da Otan no Afeganistão - , a Índia constitui um dos alvos privilegiados dos núcleos rebeldes infiltrados em Cabul. Dois impressionantes atentados suicidas em quinze meses enviam uma mensagem bem clara. O Taleban - ou as redes ligadas a ele - agora está determinado a torpedear a influência crescente de Nova Déli sobre o solo afegão.

Nesta quinta-feira, 8 de outubro, 17 pessoas foram mortas - e 80 feridas - na explosão de um carro-bomba nas proximidades da embaixada indiana em Cabul. Segundo fontes indianas, a carga explosiva era muito mais potente do que aquela que visou a mesma embaixada em 7 de julho de 2008, matando 60 pessoas, entre elas dois diplomatas indianos. Desta vez, as muralhas de concreto dispostas em torno da fortaleza protegeram a missão situada no centro da capital, perto da Ansari Road, reduto comercial. O Taleban reivindicou o ataque.
  • Altaf Qadri/AP

    Pelo menos 17 pessoas morreram nesta quinta-feira após um atentado suicida com carro-bomba em Cabul, capital do Afeganistão, nas proximidades da embaixada indiana



Em Nova Déli, essa reivindicação apressada foi recebida com desconfiança. Oficiais citados na imprensa indiana a consideraram uma "cortina de fumaça" que buscava ocultar o envolvimento dos serviços secretos militares paquistaneses do Inter-Services Intelligence (ISI). A acusação do ISI é tradicional na Índia, onde cada incidente é entendido por esse prisma do complô paquistanês.

No caso específico do atentado de Cabul de 7 de julho de 2008, a teoria de um envolvimento dos serviços de Islamabad foi confirmada por especialistas do serviço de inteligência norte-americano, citados em uma reportagem do "The New York Times". Os norte-americanos teriam interceptado, segundo o jornal, comunicações diretas feitas entre os oficiais do ISI e os futuros executores do atentado, "provavelmente" ligados à rede Haqqani (de Jalaluddin Haqqani, veterano da jihad antissoviética) estabelecida na zona tribal paquistanesa do Waziristão do Norte.

A rede Haqqani é considerada próxima do ISI, que lhe é grato por nunca ter atacado o Estado paquistanês, ao contrário dos talebans do Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), envolvidos em uma verdadeira guerra civil contra Islamabad nas zonas tribais e nos distritos adjacentes (Swat).

O segundo atentado anti-indiano de Cabul confirma que o Afeganistão é palco de uma outra guerra, além daquela - bem conhecida - que opõe a Otan ao Taleban. Essa "guerra dentro da guerra" consagra uma espécie de deslocamento da rivalidade indo-paquistanesa sobre o solo afegão.

Eixo indo-afegão
Nos últimos anos, os paquistaneses não esconderam sua preocupação frente à excelência das relações diplomáticas que se forjavam entre Cabul e Nova Déli. A formação desse eixo indo-afegão alimentou entre os estrategistas de Islamabad uma verdadeira paranóia do cerco, pelo leste (Índia) e pelo oeste (Afeganistão).

Aos olhos dos paquistaneses, a abertura de quatro consulados indianos no interior afegão (Djalalabad, Candahar, Herat e Mazar-e-Sharif) é certamente suspeita. Eles consideram essas missões como ninhos de espiões dedicados a molestar o Paquistão em sua fronteira ocidental. Segundo eles, a revolta separatista do Baluchistão também seria atiçada por agentes indianos que operam no Afeganistão.

Em seu famoso relatório entregue ao Departamento de Estado em 30 de agosto, o general Stanley Mac Chrystal, comandante-chefe da Otan no Afeganistão, apontava essa obsessão paquistanesa com o jogo indiano sobre o palco afegão. "A influência crescente da Índia no Afeganistão", ele escreveu, "provavelmente exacerbará as tensões regionais, e encorajará o Paquistão a adotar contra-medidas no Afeganistão e na Índia".

Essa leitura da presença indiana no Afeganistão - vista como um fator de instabilidade - irritou profundamente Nova Déli, onde os ocidentais são acusados de responder pela propaganda paquistanesa. O consenso na capital indiana é de que é preciso continuar no mesmo caminho. "Deve-se lembrar que o Afeganistão é uma fronteira no combate contra o terrorismo que visa a Índia", dizia na sexta-feira um editorial do jornal "Indian Express".

A Índia está investindo no Afeganistão US$ 1,2 bilhão (R$ 2 bilhões), na construção de estradas e na distribuição elétrica. Entre seus projetos figura o eixo que voltará a ligar a província afegã de Nimruz (sudoeste) ao porto iraniano de Chahabar, promessa de um frutífero comércio indo-afegão que passa pelo Irã.

Tradução: Lana Lim

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