UOL Notícias Internacional
 

10/10/2009

"O Nobel da Paz é uma aposta mais política do que moral", diz cientista político

Le Monde
Audrey Fournier
O presidente norte-americano Barack Obama recebeu, nesta sexta-feira (9), o Prêmio Nobel da Paz. Bertrand Badie, cientista político e professor da Sciences Po Paris, acredita que "o comitê tentou (...) reforçar a autoridade moral do presidente no momento em que ela parece enfraquecer em relação às realidades internacionais". Veja a entrevista.

Le Monde: Por que conceder o Prêmio Nobel da Paz a um presidente eleito há menos de um ano?
Badie:
Barack Obama se distinguiu por um esforço de visão e de ruptura da política externa norte-americana. Atualmente, ele está em uma fase delicada. Ele dispõe de pouca assistência no espaço internacional e está pagando o preço de seu isolamento. Parece-me que o objetivo do comitê Nobel é consolidar a autoridade moral que ele está tentando constituir. O comitê tentou compensar esse efeito de isolamento para reforçar a autoridade moral do presidente no momento em que ela parece enfraquecer em relação às realidades internacionais.

  • Reuters

    Barack Obama faz pronunciamento na Casa Branca após ganhar o Prêmio Nobel da Paz



Estamos assistindo, neste momento, a uma redefinição intelectual da política externa norte-americana. Trata-se de questionamentos profundos: questionamento do unilateralismo advogado pelos neoconservadores, questionamento da crença no uso sistemática da força, questionamento da superioridade do Ocidente e da democracia ocidental sobre o resto do mundo. O que a posição de Barack Obama tem de realmente novo é uma moderação de tom e uma recusa em considerar óbvias soluções experimentadas nos anos 1990.

Ora, Obama recebe o apoio da opinião pública em seus esforços, mas ele é pouco assistido pelos atores da política internacional, especialmente por uma Europa que continua fincada sobre posições mais tradicionais, que se assemelham a uma forma de "bushismo benigno". O presidente norte-americano precisa de um forte apoio da sociedade civil internacional, e o comitê Nobel assumiu esse papel.

"Obama mania"

  • Finbarr O'Reilly/Reuters - 11.jul.2009

    Saiba mais sobre a trajetória do presidente norte-americano



Le Monde: Não é problemático para um presidente em exercício ser estabelecido como autoridade moral?
Badie:
Conceder o Nobel a Barack Obama é uma aposta. Concedê-lo a um presidente em exercício é bastante raro, e sobretudo isso muitas vezes não trouxe sorte ao laureado, que se sente obrigado pela autoridade a ele confiada. O comitê Nobel, de certa forma, pressiona Barack Obama a manter suas posições, a permanecer no eixo que ele escolheu até agora. Esse prêmio consagra sua posição de líder moral, mas também é uma forma de mantê-lo afastado de um retorno para a realpolitik, que sempre é possível. Isso acaba validando uma política externa que ainda não sabemos muito bem qual é, mas da qual será difícil se afastar.

É também uma forma de lhe dar peso dentro de seu próprio país, onde sua política é paradoxalmente aprovada e ameaçada por uma opinião pública cética e uma contra-ofensiva dos republicanos sobre assuntos de política interna, e cada vez mais sobre escolhas de política internacional.

Lula parabeniza Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi anunciado nesta sexta-feira (9) como vencedor do prêmio Nobel da Paz por seus esforços para reduzir os estoques de armas nucleares e por seu trabalho pela paz mundial. Pouco depois, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou um telegrama para parabenizar o colega americano.



Esse prêmio pode encorajar Obama a prosseguir com sua ação no Oriente Médio, onde atualmente ele se encontra em xeque, mas também diante do Irã, onde sua política de diálogo está em dificuldades, e no Afeganistão, onde é levado a exagerar o discurso. Obama, de certa forma, é reforçado em suas escolhas iniciais e incitado a adiar uma possível radicalização.

Le Monde: Essa escolha é justificada, se considerarmos os outros nomeados, cujo percurso pode parecer mais rico de realizações?
Badie:
Devemos ser prudentes em nossa interpretação dos Prêmios Nobel. O critério de justiça não é o elemento mais determinante. O comitê é composto de seres humanos, e os prêmios que ele concede têm um significado político, antes de serem éticos. É impossível determinar quem é a pessoa ou a organização que trabalha mais pela paz e pela justiça mundial no momento atual. É preciso considerar o Prêmio Nobel como um ator internacional não estatal, o representante de uma certa forma de opinião pública internacional, um pouco como as grandes ONGs - Anistia Internacional, Human Rights Watch...

Quando o prêmio Nobel da Paz é concedido a Begin e Sadat, isso traduz uma vontade de indicar que uma certa aproximação da questão do Oriente Médio merece ser apoiada. Quando o prêmio é dado a Gorbachev, é mais uma aposta política do que uma aposta moral. A escolha de Barack Obama me parece sábia, pois precisamos definir o mundo no qual estamos vivendo. Por enquanto, sabemos somente que estamos no "pós-1989", só isso. Não temos coragem de renovar nossas práticas diplomáticas, mas Obama mostra um pouco o caminho dessa redefinição. O comitê Nobel diz que essa direção é a certa. É uma escolha política com a qual podemos concordar ou não, mas que faz sentido.



Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host