UOL Notícias Internacional
 

20/10/2009

Por que o Paquistão passa ao ataque no Waziristão do Sul

Le Monde
Frédéric Bobin
Em Nova Déli (Índia)
A ordem finalmente foi dada. Depois de três meses de espera e de tergiversações, o exército paquistanês iniciou no sábado, 17 de outubro, uma ofensiva de envergadura contra os bastiões taleban no Waziristão do Sul, uma das sete áreas tribais do cinturão pashtun ao longo da fronteira afegã, no noroeste do país.

Exército paquistanês ergue novas bases para controlar a zona taleban

O general Athar Abbas explicou que o exército está consolidando suas posições antes de continuar avançando no território dos mehsud, a tribo que constitui a espinha dorsal dos taleban paquistaneses. A Operação Caminho da Salvação constitui um teste da determinação do governo para enfrentar uma insurgência cada vez mais ousada. No terceiro dia de operações morreram dois soldados e 18 rebeldes, o que eleva as vítimas mortais para nove e 78, respectivamente, segundo as cifras oficiais

Segundo fontes militares, 28 mil soldados paquistaneses começaram a se movimentar em direção às praças-fortes do Tehrik-e-taliban (TTP) - a federação dos grupos taleban paquistaneses -, concentradas ao redor das localidades de Makeen, Ladha e Sara Rogha, onde rebeldes islâmicos estabeleceram santuários até agora inexpugnáveis.

Batizada de "Rah-e-Nijat", ou Caminho da Salvação, a operação é a quarta no espaço de um ano contra os redutos taleban, depois das de Bajaur, Mohmand e Swat, cujos efeitos acumulados provocaram na primavera uma grave crise humanitária (cerca de 3 milhões de pessoas desalojadas).

Se o exército registrou sucessos relativos durante esses combates, sobretudo desalojando os taleban de Swat, a operação Caminho da Salvação se anuncia bem mais perigosa, pois o Waziristão do Sul é a sede do TTP. O essencial dos ataques terroristas que ensanguentaram o Paquistão nos últimos anos têm aí sua origem. O Waziristão do Sul abriga sobretudo campos de treinamento de futuros homens-bombas.

A decisão de iniciar a ofensiva foi precipitada pela série de atentados espetaculares cometidos nas últimas duas semanas pelos taleban, ou seus aliados jihadistas, contra as grandes cidades do Paquistão, deixando um total de 160 mortos. Depois do ataque a Islamabad contra a sede do Programa Alimentar Mundial da ONU, houve assaltos visando o Estado-Maior do exército paquistanês em Rawalpindi, perto da capital, três postos de polícia em Lahore e dois atentados suicidas em Peshawar.

Segundo certos observadores paquistaneses, o TTP teria lançado essa campanha de ataques para tentar dissuadir Islamabad de executar o plano de ataque ao Waziristão do Sul, anunciado como "iminente". O objetivo também seria provar que o TTP conserva toda a sua força de ataque apesar da perda de seu dirigente supremo, Baitullah Mehsud, morto em 5 de agosto por um míssil supostamente disparado por um teleguiado americano. Depois de especulações sobre uma eventual guerra fratricida que teria desestabilizado a direção do TTP, o movimento se dotou de um novo chefe, na pessoa de Hakimullah Mehsud.

A operação Caminho da Salvação vai combinar meios terrestres e aéreos. Cerca de 100 mil habitantes já fugiram da zona dos futuros combates e 60 "terroristas" e nove soldados foram mortos desde sábado, segundo informações oficiais não verificáveis de fonte independente.

"Bons e maus"
Na opinião de todos os analistas, a resistência dos taleban promete ser feroz. As tropas de Hakimullah Mehsud, que se formam principalmente no viveiro da poderosa tribo dos mehsud, são avaliadas em 10 mil guerreiros experientes, aos quais se devem acrescentar os "combatentes estrangeiros" (cerca de 1.500) que gravitam ao redor do Movimento Islâmico do Usbequistão (IMU), que encontrou reforço nas áreas tribais paquistanesas depois da queda do regime taleban no Afeganistão no final de 2001.

Conhecedores do terreno acidentado e montanhoso, esses combatentes deveriam receber o exército paquistanês, composto principalmente por soldados do Pendjab, estranhos ao ambiente pashtun, em mortíferas operações de guerrilha.

Desde 2004, quando o general Pervez Musharraf, então presidente, aceitou sob a pressão americana atacar os santuários da Al Qaeda nas áreas tribais, o exército fracassou três vezes no Waziristão do Sul. Ele foi obrigado a assinar acordos locais que terminaram, invariavelmente, com a consolidação das bases dos taleban.

Uma das grandes incertezas do próximo confronto está na capacidade das autoridades de Islamabad de isolar o TTP de Hakimullah Mehsud do resto do movimento islâmico nas zonas tribais. Os serviços secretos do exército realmente sempre fizeram uma diferença entre "bons" e "maus" taleban, em que os primeiros se contentam em atacar as tropas da Otan no Afeganistão enquanto os segundos se voltam contra o Estado paquistanês propriamente dito.

Em oposição ao TTP, o exército não deixou de poupar os grupos do mulá Nazir no Waziristão do Sul ou de Gul Bahadur no Waziristão do Norte, cujas forças acumuladas são de aproximadamente 30 mil combatentes. Se estes últimos se solidarizarem com o TTP, o Caminho da Salvação será perigosamente atormentado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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