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21/10/2009

Argentina tem imigração repentina de africanos

Le Monde
Christine Legrand Em Buenos Aires
Na principal avenida de Buenos Aires, a 9 de Julio, Gaola usa a camisa branca dos "Leões da Teranga", a seleção nacional de futebol do Senegal. Com 22 anos, ele está há um na Argentina e vende bijuterias e óculos nas ruas. Gosta de falar de futebol, o que mais aprecia na Argentina. Mas fica silencioso quando lhe perguntamos por que e como chegou ao país. E se tem os documentos em ordem.

Como ele, cada vez mais africanos clandestinos encontram asilo na Argentina, fugindo da miséria mais que da perseguição política. As portas dos países europeus estão cada vez mais difíceis de ultrapassar. Há dois anos, o número de estatutos de refugiados na Argentina aumentou 142%, e a maioria dos requerentes vem do Senegal. Não há estatísticas oficiais sobre o número exato.

Segundo a Agência para Refugiados em Buenos Aires, os africanos que pedem asilo obtêm um visto para o Brasil e depois passam para a Argentina. Os que não têm meios para pegar um avião sobem clandestinamente em barcos para 20 dias de travessia. A comissão católica argentina para imigração pede um controle melhor dos recém-chegados. Ela indica que aos africanos se recusa uma permissão de residência, mas eles não são expulsos e continuam sem estatuto legal, alvos ideais para as redes de tráfico humano.

País de imigração, antigo símbolo do Eldorado, a Argentina, duramente afetada pelo desemprego, hoje está despreparada para receber esse fluxo de imigrantes ilegais. Os africanos, como mais de 42% dos argentinos, trabalham no mercado negro e não têm previdência social nem aposentadoria.

"Pequena Dacar"
Há muitos senegaleses no bairro popular de Once, batizado de "pequena Dacar". Esse feudo tradicional da comunidade judia foi invadido nos últimos anos por pequenos supermercados chineses e coreanos, por paraguaios que vendem roupas nas ruas e indígenas vindos das províncias pobres do norte argentino, que oferecem especiarias e legumes nas calçadas. Nessa torre de Babel, Cirilo, um senegalês que chegou há dois anos, também vendedor ambulante de jóias e óculos, sente-se discriminado: "Muitas pessoas nos maltratam".

Nas pensões muitas vezes lhes negam um quarto. "Muitos de meus colegas se recusam a atendê-los", confirma um motorista de táxi. "Eles têm medo." Os argentinos não têm o hábito de conviver com negros, exceto os que vêm do Brasil. Para Cirilo, "os moradores de Buenos Aires acreditam no mito de uma Argentina branca e europeia". Ele os considera racistas "por ignorância". "Eles ignoram até que existe uma população argentina de origem africana, por causa do tráfico de escravos no século 18", continua. Cirilo prefere percorrer as feiras do interior do país, "pois as pessoas são mais calorosas e também têm a pele mais escura, por causa de suas origens indígenas". "Eu sobrevivo", confessa. Ele ignora se voltará um dia a seu país, mas sonha em viajar.

Todos os senegaleses conhecem seu compatriota, o músico Abdul. Ele faz às vezes de patriarca, pois está instalado no velho bairro de San Telmo desde 2001. Convidado a dar uma série de concertos, foi surpreendido pouco depois de sua chegada pelo colapso financeiro da Argentina. Perdeu todas as suas economias e não tinha mais como voltar ao Senegal ou prosseguir em sua turnê pela América do Sul. É famoso entre os jovens argentinos. Seus cursos de dança e de tambores africanos ficam lotados. Seus espetáculos são uma nova atração no bairro mais badalado da capital. Abdul obteve a residência na Argentina. Ele não fala muito quando lhe perguntamos sobre os senegaleses recém-chegados.

No fundo de uma galeria no centro de Buenos Aires, espécie de caverna de Ali Babá, abriu-se o estande "Africa Mia". São sobrinhos de Abdul. Eles vendem estatuetas, jóias, tecidos africanos. Também desconfiam quando os entrevistamos.

Todos os domingos, uma grande parte da comunidade senegalesa se encontra para comer pratos de seu país. Os argentinos, tradicionais comedores de churrasco, se abrem para os sabores exóticos. Depois das culinárias chinesa, vietnamita e indiana, já aparecem nas revistas receitas de pratos africanos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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