UOL Notícias Internacional
 

23/10/2009

China, o eldorado do conhaque

Le Monde
Bruno Philip Em Pequim
"Crise? Que crise? Os ricos não param de enriquecer." Em 14 de outubro o jornal oficial em língua inglesa "China Daily" propôs na primeira página esse título atraente e provocador. Já se sabia que em 2009, em um contexto de crise financeira planetária, a China não somente suportou o choque como seu plano de recuperação rendeu frutos. Seu índice de crescimento deverá atingir 8% neste ano, acaba de confirmar na quinta-feira (22) o Departamento de Estatísticas. No terceiro trimestre ele teria crescido 8,9% em relação ao ano anterior.

A progressão do número de bilionários também é espetacular: segundo a "Huchun rich list", que há cerca de dez anos registra as grandes fortunas da república "popular", o número de bilionários passou de 101 em 2008 para 130 em 2009! Um avanço incrível, que ilustra ao mesmo tempo o enriquecimento global do país e o fosso que não para de crescer entre ricos e pobres.

Cobertura completa da crise

  • UOL


Nesse sentido, o famoso "coeficiente Gini", que mede as desigualdades de renda em uma determinada população, situou a China em segundo lugar entre os países onde as disparidades eram maiores em 2008, entre 13 países industrializados e emergentes, com um índice de 0,469, logo atrás do Brasil.

O primeiro bilionário chinês realizou uma ascensão impressionante, pois em 2009 ocupava um dos últimos lugares: Wang Chuanfu tem 43 anos, é o chefe da empresa Bi Ya Di (BYD, ou "Build your dreams" - construa seus sonhos), que fabrica baterias e um carro elétrico. Ele conseguiu se impulsionar até o cume graças aos investimentos maciços feitos em sua empresa pelo homem de negócios norte-americano Warren Buffet, o que fez disparar sua cotação na Bolsa. De repente, a fortuna de Wang é avaliada em mais de US$ 5 bilhões.

No segundo degrau do pódio está "a Rainha do Papel", Zhang Yin, cuja empresa familiar, Os Nove Dragões, lhe permitiu o acesso ao lugar de princesa herdeira. Essa senhora "pesa" US$ 4,9 bilhões. Outra mulher teve de recuar neste ano de seu lugar de líder: Yang Huiyan, 28 anos, filha de um magnata dos imóveis, havia chegado ao primeiro lugar no ano passado mas neste ficou em quarto, com somente US$ 4,6 bilhões em sua conta bancária.

Mas por que eles são tão ricos? Segundo Rupert Hoogewerf, um antigo consultor britânico baseado em Xangai que elabora essa famosa lista dos chineses ricos, a urbanização acelerada da China nos últimos dez anos explica em grande parte o sucesso espetacular desses homens de negócios, muitos dos quais fizeram fortuna nos imóveis. É o caso de dez dos novos chineses mais ricos. Hoje a China abriga a segunda população mundial de bilionários, depois dos EUA (que tem 359). O "clube" dessas 130 pessoas acumula um tesouro de US$ 571 bilhões (cerca de um sexto do PIB chinês).

Nesse contexto, portanto, não é de surpreender que a China tenha se tornado hoje um dos alvos preferidos da indústria do luxo. Há cerca de duas semanas a Rémy Martin tinha decidido lançar um novo conhaque muito refinado perto de Guilin, região da província meridional de Guangxi, conhecida por suas paisagens de rochedos envoltos em neblina. Em um grande parque dedicado à arte contemporânea organizado por um taiwanês, também bilionário, sob as explosões de fogos de artifício que celebravam a primeira degustação do novo "Louis XIII Rare Cask" ("tonel raro"), apresentado em um frasco de cristal Baccarat preto, a enóloga Pierrette Trichet explicou, diante de cerca de cem convidados muito seletos - entre os quais chineses apaixonados por conhaque -, as virtudes dessa bebida de elite.
  • Derrick Ceyracv/AFP

    A Rémy Martin decidiu lançar um novo conhaque muito refinado perto de Guilin, região da província meridional de Guangxi, conhecida por suas paisagens de rochedos envoltos em neblina. Em um grande parque dedicado à arte contemporânea organizado por um taiwanês, também bilionário, sob as explosões de fogos de artifício que celebravam a primeira degustação do novo "Louis XIII Rare Cask" ("tonel raro"), apresentado em um frasco de cristal Baccarat, semelhante ao da foto



A estratégia da Rémy Martin consiste aqui em aplicar plenamente os valores da exclusividade, do luxo total, explicando que o novo Louis XIII foi descoberto em um "tierçon" (barril que contém cerca de 560 litros de bebida alcoólica) da "Grande Champagne", no qual, há uma centena de anos, cerca de 1.200 aguardentes amadureciam seus aromas em segredo...

O resultado é esse novo conhaque cujo preço está à altura de sua raridade: 786 garrafas com 43,8 graus de álcool, pela soma de cerca de 10 mil euros cada (R$ 25 mil)! A versão anterior do Louis XIII, cuja primeira garrafa, vendida sob uma denominação ("appellation") diferente, chegou pela primeira vez a Xangai em 1883, é vendida em grandes restaurantes e mercearias de luxo do mundo inteiro por 1.500 (R$ 3.750) a 2 mil euros (R$ 5 mil).

O fato de fazer "engolir", ousamos dizer, esse duplo salto qualitativo e quantitativo por uma elite chinesa, de longa data conquistada pelas virtudes do conhaque, se justifica pelo lugar da China no mercado de bebidas de luxo: um dos vice-presidentes da Rémy Cointreau, Damien Lafaurie, explica que para os produtos conhaque da filial Rémy Martin do grupo, a China representa 20% do mercado, logo atrás dos EUA (40%). E poderá se tornar o mercado número 1 daqui a cinco anos.

"No que se refere sobretudo às vendas do Louis XIII, a China é o país de crescimento mais forte", explica Lafaurie. "Nossos alvos são as pessoas que, depois de ter adquirido certo nível de riqueza, desejam descobrir uma arte de viver à francesa. Como nossos produtos estão no centro de uma tradição de hedonismo e de convivência, eles são valorizados na China, onde se privilegia o convívio e o culto dos presentes."

A república popular é um universo complexo e plural onde ainda há novas terras a conquistar pelos comerciantes de conhaque, entre outros. Entre todas as marcas, eles despejaram na China, de setembro de 2008 a 2009, 31.063 hectolitros de álcool puro, o que faz do país o terceiro mais sedento depois dos EUA e do pequeno Estado de Cingapura.

"Hong Kong é hoje um mercado saturado", explica Mabel Wong, do escritório da Rémy Cointreau em Xangai. "Pequim continua mais apreciadora de uísque ou de aguardentes locais. Por outro lado, cidades como Cantão, Macau e as da província de Fujian, no sul, estão crescendo em termos de venda de conhaque."

Depois de bebericar um copo de Louis XIII Rare Cask, em uma noite dessas, um bilionário chinês justificou os motivos de sua paixão: Frank Lin fez fortuna criando uma marina para iates na ilha de Hainan e estima que "quando se atinge um certo nível de vida temos vontade de aproveitar. Para nós, uma garrafa desse preço é um símbolo de status social". Mais tarde, outro chinês rico nos murmura em confidência: "Você sabe, uma garrafa de conhaque como essa também é moeda de troca. Na China é preciso recompensar os funcionários públicos ou as pessoas do partido que nos ajudam, entende o que quero dizer?"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host