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23/10/2009

Imigrantes africanos transferem US$ 40 bilhões por ano para seus países

Le Monde
Grégoire Allix
A África recebe somas consideráveis dos imigrantes que partiram para trabalhar em outros continentes, mas a falta de informação, de concorrência e de regulamentação impede que esse dinheiro atue plenamente para o desenvolvimento. É o que revela um relatório do Fundo Internacional para Desenvolvimento da Agricultura (Ifad, na sigla em inglês) publicado nesta quinta-feira por ocasião de um fórum sobre as transferências de fundos organizado em Túnis por essa agência da ONU, para mobilizar bancos centrais e governos sobre a questão.

A primeira surpresa desse relatório está em um número: segundo o Ifad, US$ 40 bilhões (R$ 68 bilhões) são enviados todo ano por imigrantes africanos para seus parentes. Essa quantia era até então desconhecida, mas era estimada entre três e quatro vezes menos.

"A África sempre foi um enigma no que se refere às transferências de fundos", explica Pedro de Vasconcelos, economista no Ifad e coautor desse primeiro estudo. "Geralmente os avaliávamos entre US$ 10 e US$ 17 bilhões (R$ 17 e R$ 30 bilhões). Nem os bancos centrais africanos tinham um número."

Essa falta de informação tem consequências em cascata: "O impacto das transferências é colossal, mas subutilizado. O dinheiro está lá; o problema é a falta de opções. Não tendo consciência dos valores em jogo, os governos não se preocupam em regulamentar o mercado ou tornar essas somas produtivas, assim como o setor privado", explica Vasconcelos.

Resultado, 64% do mercado de transferências é detido por apenas dois atores, Western Union e MoneyGram. À falta de concorrência, o índice de comissões é de cerca de 10%,, em média na África - ou pode chegar a 25% -, contra 5,6% em média no mundo.

"Se reduzirmos esse índice pela metade, US$ 2 bilhões (R$ 3,5 bilhões) a mais chegarão ao bolso das famílias todo ano", resume o economista do Ifad. "Na América Latina a abertura do mercado fez os índices caírem de 15% para menos de 5%."

A concorrência teria outra vantagem: a multiplicação dos pontos de saque, dos quais as áreas rurais africanas são amplamente desprovidas. Mas um terço das transferências é destinado a famílias rurais. "O México dispõe de tantos pontos de saque quanto toda a África, com uma população dez vezes menor", compara Vasconcelos. "Para muitos africanos, buscar esse dinheiro representa um ou dois dias de trabalho perdidos."

A agência da ONU propõe transformar os escritórios de correio em pontos de saque, enquanto hoje a maioria não tem nem o direito nem meios para tanto. O Ifad acaba de assinar um acordo com a Universal Postal Union para trabalhar nesse sentido.

Existem outras soluções. No Quênia, o telefone celular torna-se um dos meios mais econômicos de efetuar transferências de dinheiro. O Quênia também é um dos raros países a autorizar as instituições de microfinanças a operar essas remessas de fundos. Em toda a África, esses organismos constituem apenas 3% dos pontos de saque. Abrir o mercado de transferências bastaria para duplicar o número de guichês, segundo o Ifad.

Sobretudo, em vez de um simples mecanismo de consumo, "isso criaria uma dinâmica local de poupança e de microcrédito, que daria toda uma outra dimensão à economia", estima Vasconcelos.

Pois se o essencial do dinheiro das transferências serve para enfrentar despesas de primeira necessidade - alimentação, habitação, saúde e educação -, "US$ 5 a US$ 10 bilhões (R$ 8,5 e R$ 17 bilhões) estão disponíveis para a poupança e o investimento", diz o relatório. Somas capitais em plena crise econômica, enquanto a ajuda pública ao desenvolvimento se esvai e os investimentos diretos estrangeiros despencam.

As transferências dos emigrantes também sofrem: caíram 12,7% desde o início do ano, segundo o Ifad. Um choque ainda mais cruel porque essas remessas tiveram crescimento médio de 17% no mundo em dez anos, e porque "em relação a outras regiões, a África depende realmente das transferências de fundos", explica Vasconcelos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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