UOL Notícias Internacional
 

25/10/2009

A saída em falso de Barack Obama no Oriente Médio

Le Monde
Laurent Zecchini
Parece que muitos anos se passaram desde que o presidente Barack Obama estendeu as mãos ao mundo muçulmano num discurso em Cairo. O presidente dos Estados Unidos falou justamente da "dor da falta de território" dos palestinos. Menos de cinco meses depois, seus esforços para reativar o processo de paz palestino-israelense não conseguiram nenhum avanço. Esta falta de resultados não teria nada de excepcional, à luz de tantos e tantos "acordos" e "processos" de paz estéreis, a não ser pelo fato de o movimento palestino ter sofrido um golpe triplo.

Mal aconselhado ou demasiado confiante em seu carisma pessoal, Obama empreendeu a retomada das negociações exigindo aos israelenses que aceitassem como condição a suspensão total da colonização judaica da Cisjordânia e de Jerusalém oriental. Animado com esse apadrinhamento, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, transformou o argumento em condição sine qua non para retomar os diálogos com o governo israelense.

Essa estratégia deixou de lado uma realidade dupla: embora inúmeros israelenses não sejam a favor da colonização descontrolada dos territórios palestinos, a legitimidade da colonização, fundamento histórico do Estado de Israel, impregna fortemente todas as mentalidades. O governo extremista do primeiro-ministro israelense é partidário de continuar com os assentamentos. Benjamin Netanyahu não repetirá o erro de privar-se do apoio dos partidos que constituem a sua maioria, coisa que lhe custou o poder em 1999.

Ele se manteve firme em sua postura e Washington, compreendendo que o objetivo de suspender a colonização é inalcançável, conformou-se com a ideia de que é preciso "limitá-la". Para Abbas, entretanto, essa mudança representou uma afronta. E esta não foi a única. Submetido a fortes pressões por parte dos Estados Unidos, o presidente da Autoridade Palestina teve que aceitar viajar a Nova York para apertar a mão de Benjamin Netanyahu. A foto, muito desejada por Obama, entretanto, não significa nenhuma aproximação das respectivas posições.

Houve uma terceira humilhação com o relatório do juiz Richard Goldstone, que estigmatiza os "crimes de guerra" cometidos durante a guerra de Gaza, especialmente por Israel. No início de outubro, os norte-americanos conseguiram que Abbas retirasse seu apoio a esse relatório, o que fez com que ele fosse chamado de "traidor" pelo Hamas. Compreendendo que estava jogando com seu futuro político, Abbas conseguiu que o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovasse o relatório Goldstone.

Tudo isso deixou marcas: um memorando da Fatah, o partido que controla a Autoridade Palestina, mostra que "se evaporaram" as esperanças dos palestinos em relação ao governo de Obama. Em Israel, a popularidade de "Bibi" Netanyahu nunca foi tão alta, enquanto que a de Abbas na Palestina caiu para 12% de opiniões favoráveis. Tanto na suspensão da colonização quanto em relação ao relatório Goldstone, Netanyahu praticou uma chantagem hábil: insistir nessas questões é correr o risco de matar o embrião da retomada do processo de paz, assegura.

E durante todo este período, os tratores dos colonos não deixaram de trabalhar, tanto na Cisjordânia como em Jerusalém Oriental. O erro do governo norte-americano foi dar como certo o apoio de Jerusalém. Depois da "cúpula" de Nova York, alguns aliados de Benjamin Netanyahu inclusive se vangloriaram de ter dobrado o governo de Obama. Isso foi mais que uma imprudência; foi um erro. A relação de forças jamais pode estar a favor de Israel, pois não existe nenhum outro país que possa dar o apoio que os Estados Unidos sempre ofereceram.

Além da ajuda norte-americana para Israel exceder os 3 bilhões de dólares por ano, Washington dispõe pelo menos em teoria de meios de pressão sobre Israel, especialmente no plano estratégico. Na prática, não é necessário demonstrar o poder do grupo de pressão pró-israelense em Washington, e a adoção de sanções no Congresso - que talvez seja o único meio de obter concessões de Israel - é muito aleatória. Tudo isso deixa o processo de paz no mesmo estado que Obama o encontrou em 20 de janeiro de 2009.

Os norte-americanos sabem que não podem querer a paz mais do que os dois protagonistas. Mas no momento, nem palestinos nem israelenses parecem ter um verdadeiro interesse em negociar. Debilitado, Abbas não pode correr o risco de ser acusado pelo Hamas de "colaborar com o inimigo sionista", sobretudo com a perspectiva das eleições legislativas e presidenciais palestinas. Em Washington e em Tel Aviv, o caso é apelidado de "resgatar o soldado Abbas".

A intenção é paradoxal por parte do governo de Israel, que parece desfrutar de um prazer malévolo ao humilhar quem é seu único aliado para a paz. Tudo ocorre como se os israelenses estivessem satisfeitos com o status quo: a situação econômica da Cisjordânia melhora lentamente e esta "paz econômica" evita toda concessão política. A guerra de Gaza certamente foi um fracasso, mas Israel atribui a ela a crescente interdependência da economia de Gaza e do Egito para nutrir seu sonho de que Cairo chegue a absorver o "Hamastão". E em Jerusalém confia que seu amigo norte-americano ajude a derrubar o relatório Goldstone no poço sem fundo dos votos de censura da ONU.

Tradução: Eloise De Vylder

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