UOL Notícias Internacional
 

26/10/2009

Sem autonomia e sem dinheiro, televisão pública italiana atravessa mal momento

Le Monde
Daniel Psenny
A "Mamma Rai", como os italianos a chamam, vai mal. Criticada por sua parcialidade, vilipendiada por sua obsolescência, colocada sob pressão política e estrangulada financeiramente por Silvio Berlusconi depois de sua volta ao poder em 2008, a rede de televisão pública tenta, mal ou bem, resistir. "Atravessamos o pior momento de nossa história", explica Alessandra Mancuso, jornalista do TG1 (jornal televisivo da RAI Uno) e membro do comitê de redação eleito pelos jornalistas. "Depois do retorno de Berlusconi, temos cada vez menos autonomia e independência", afirma a jornalista discorrendo sobre a longa lista de todas as infrações jornalísticas e opiniões pré-concebidas da rede de TV a favor do primeiro-ministro.

Berlusconi ataca "mídia e oposição sem escrúpulos" em entrevista na RAI

"Na RAI, é o antiberlusconismo sete dias na semana", defendem-se os partidários do Cavaliere que, desde sempre, vê a televisão de pública como um "ninho de comunistas". Da mesma forma que a imprensa escrita, "85% controlada pela esquerda", segundo Berlusconi, que exige na Justiça 1 milhão de euros aos jornais "La Repubblica" e "L'Unita" por causa da publicação de matérias sobre sua vida política e privada. "Os meios de comunicação, e particularmente a televisão, são sua obsessão", observa Alessandra Mancuso. "O problema é que ele controla diretamente a RAI, onde colocou à frente seus homens de confiança enquanto é proprietário, por meio de sua família, de três redes privadas."

A televisão pública ou a televisão do Estado? O problema existe na Itália há anos. Quer o poder pertencesse à direita ou à esquerda, as relações entre os políticos e a RAI sempre foram muito estreitas. Até os anos 90, a democracia cristã no poder sem interrupção desde 1945 atribuiu a si mesma a RAI Uno, o partido socialista comandava a RAI Due; a RAI Tre, criada em 1979, foi deixada ao partido comunista italiano, e logo mudou de nome para "Télé Kaboul". Este pequeno arranjo entre amigos políticos foi votado no parlamento sob o princípio da "lotizazzione" para garantir o pluralismo do serviço público. O desaparecimento desses partidos políticos, em meio a problemas de corrupção, durante os anos 80, não colocou fim à "lotizazzione".

Os partidos políticos ainda controlam as três redes públicas. Mas a aparição de Silvio Berlusconi na cena política mudou a distribuição das cartas. Em sua primeira eleição em 1994, algumas vozes da esquerda se ergueram para denunciar o conflito de interesses, mas, desde então, nenhum governo conseguiu regular a situação. "É um grave erro político pelo qual pagamos caro agora", reconhece Nino Rizzo Nervo, membro (de centro-direita) do conselho administrativo da RAI. "Entre 1997 e 1999, nós tínhamos uma maioria legislativa para por fim a esse conflito de interesses, mas deixamos o tempo passar", continuou, sem ser muito convincente.

Desinibido por sua forte popularidade, Silvio Berlusconi só precisa fazer críticas violentas contra o domínio sobre a televisão pública. A RAI se tornou seu brinquedo. Ele nomeia seus aliados, intervém à sua vontade e estrangula financeiramente a estação ao decidir, por exemplo, não aumentar a taxa de adesão, portanto uma das mais baixas da Europa (107 euros). Por último, ele mesmo impôs uma aliança entre a RAI e seu grupo Mediaset para impedir a expansão audiovisual de Rupert Murdoch na Itália. Como ele está numa situação delicada em sua vida pública e privada - e não faltaram episódios nesses últimos meses -, o primeiro-ministro se convidou à televisão "para se explicar". Não em um de seus três canais privados (Canale 5, Italia 1 e Rete 4) que mesclam informação com propaganda, mas na RAI, que representa a metade do mercado da televisão. Segundo vários estudos, 70% dos italianos formam suas opiniões através da televisão. O TG1 reúne todos os dias 7 milhões de telespectadores e continua sendo uma das principais fontes de informações dos italianos.

"Feliz aniversário! Você está em casa", disse a ele, sem ironia, o apresentador do jornal da manhã da RAI Uno, no dia dos 73 anos de Berlusconi. Na quarta-feira, 7 de outubro, poucas horas depois que o tribunal constitucional suspendeu sua imunidade judiciária, ele foi convidado por telefone no programa "Porta a porta" da RAI Uno, onde o jornalista Bruno Vespa o acolhe sempre de braços abertos. Denunciando "as togas vermelhas", "a justiça da esquerda" e a "perseguição" da qual ele se diz vítima, Silvio Berlusconi permitiu-se até mesmo insultar Rosy Bindi, vice-presidente da Câmara de Deputados e eleita do partido democrata (centro-esquerda), que o levou à contradição. "Você é mais bela que inteligente", lançou ele sem que ninguém no estúdio reagisse. "Evidentemente, eu sou uma mulher que não está à sua disposição", replicou ela fazendo referência ao escândalo das "call-girls" no qual o primeiro-ministro está envolvido. No dia seguinte, uma petição lançada na internet pelos movimentos feministas recolheu milhares de assinaturas apoiando Bindi.

Essa derrapagem foi apenas uma entre tantas. O comitê de redação (CDR) da RAI Uno fez então um dossiê. Em 3 de outubro, uma manifestação pela liberdade de imprensa reuniu mais de 100 mil pessoas em Roma, gritando "Nós somos todos canalhas", termo pelo qual Silvio Berlusconi designou alguns jornalistas da RAI. Augusto Minzolini, diretor do TG1, colocado na função pelo Cavaliere, ficou então dividido num editorial afirmando diretamente que essa reunião "era uma manifestação incompreensível dirigida contra Berlusconi". Algumas horas mais cedo, o chefe do governo havia qualificado o evento de "farsa absoluta". Emoção no seio da redação, onde os jornalistas, tanto de direita quanto de esquerda, conseguiram com que o CDR faça valer um ponto de vista oposto dentro de um direito de resposta.

Convocado pelo comitê de vigilância da RAI, o diretor do TG1 s'est juste fait rappeler à l'ordre. "Vocês são para o jornalismo o que a cadeira elétrica é para a verdade", ironizou o juiz ancião Antonio di Pietro, fundador da "Itália dos valores", junto com Bruno Vespa e Augusto Minzolini. Depois, foi dada uma ordem nas redações da RAI Uno de não mais difundir imagens de Di Pietro e das atividades de seu partido.

"Há uma vontade real de reduzir a visibilidade dos sujeitos sociais, como com a homofobia, a imigração ou o racismo", critica Alessandra Mancuso. "A RAI não se comporta mais como um serviço público, mas como uma concessão privada a serviço de um homem". O primeiro-ministro se defende com uma pirueta: "Se eu vou falar na televisão, é um escândalo, se eu vou a outra rede, eu me torno ditador, se eu vou a uma terceira, estamos num regime autoritário, e numa quarta, é um ato de delinquência", repete ele toda vez que a pergunta é feita.

"Não caímos numa ditadura ao estilo sul-americano", modera o jornalista Enrico Mentana, antigo apresentador do Canale 5 (rede do grupo Mediaset), de onde se demitiu depois de 18 anos de serviço após um desacordo editorial. Hoje desempregado, ele trabalhou longos anos na RAI e conhece bem a casa. "A RAI sempre foi um campo de conquista política, mas a liberdade é mantida se assim decidimos. Mais que a censura, trata-se da autocensura", afirma. "Na Itália, os jornalistas podem todos falar sobre Berlusconi, mas com frequência é uma visão maniqueísta. Eles são o reflexo da nossa vida política. Com o quase desaparecimento da esquerda, são os jornalistas que com frequência assumiram o papel de oposição".

É o caso de Michele Santoro, jornalista político e animador de inúmeros programas na RAI, que foi reintegrado à RAI Due em 2005 por uma decisão da Justiça. Em 2002, o jornalista havia sido colocado em licença depois que Silvio Berlusconi, de volta ao poder, o acusou de "fazer um uso criminoso da televisão pública". Depois de sua reintegração, o diretor da RAI Due enfatizou que o jornalista está só provisoriamente na emissora. Longe de abdicar, Michele Santoro retomou sua cruzada contra Berlusconi. Seu programa semanal "Anno Zero" tem recordes de audiência, apesar das advertências da direção, que suspendeu os contratos dos jornalistas que colaboram com ele.

No final de setembro, mais de 7 milhões de telespectadores acompanharam o relato de garotas que frequentaram as noitadas do primeiro-ministro. E, pela primeira vez, Patrizia D'Addario, a call-girl que passou uma noite com o Cavaliere antes de ser candidata numa lista berlusconiana ao conselho municipal de Bari, declarou que Silvio Berlusconi "conhecia seu trabalho", aquele que o Cavaliere sempre negou. Protesto no dia seguinte na imprensa pró-Berlusconi, que pediu para que não pagassem mais o imposto rebatizado de "taxa Santoro".

"Nós vivemos numa atmosfera nauseante", disse Roberto Natale, presidente da Federação Nacional da Imprensa Italiana, lembrando que o Instituto Internacional da Imprensa exortou a Itália a "implantar rapidamente mecanismos que garantam a independência editorial da rádio e televisão públicas". Durante o protesto pela liberdade de imprensa, Roberto Saviano, autor de "Gomorra" (Gallimard, 2007), ameaçado de morte pela Máfia napolitana, fez uma aparição para lembrar que "a verdade e o poder não coincidem jamais".

Tradução: Eloise De Vylder

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