UOL Notícias Internacional
 

30/10/2009

No Afeganistão, a abominável reputação do clã Karzai

Le Monde
Frédéric Bobin
Em Nova Déli (Índia)
Hamid Karzai e seus irmãos... se existe um desvio que tenha manchado a imagem do atual presidente afegão, é o ativismo político-marqueteiro dessa irmandade intrusiva, fonte de rumores dos mais abomináveis. Será que Karzai, que poderá ser reeleito no segundo turno das eleições presidenciais do dia 7 de novembro, se resignará em conter a influência deles para restaurar sua imagem? Por trás de Hamid, há Ahmed Wali, Mahmoud, Qayum. Esses irmãos, que imigraram para os Estados Unidos após a invasão soviética no fim de 1979 - ao passo que Hamid optou pela Índia, antes de se juntar à resistência em Peshawar, no Paquistão - voltaram ao país a partir de 2002 e ali prosperaram.

Presidente do Afeganistão

  • Emilio Morenati/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

Teria Karzai se apropriado de Cabul? Deve-se evitar a caricatura, mas Karzai dirigiu o Afeganistão mais como chefe de tribo do que como chefe de família, obcecado por um jogo de alianças que ultrapassam em muito o perímetro de seus parentes mais próximos. Mas o poder destes últimos aumentou incontestavelmente à sombra de sua presidência. No meio empresarial ou no aparelho do Estado, os irmãos Karzai agora ocupam posições estratégicas.

O mais polêmico dentre eles é Ahmed Wali. Presidente do conselho provincial de Candahar - no coração do Sul pasthun devastado pela insurreição - , ele se tornou o chefe político do local, operando no cruzamento das redes governamentais, talebans e criminosas em uma perigosa mistura de gêneros.

O sonho de uma Hong Kong
Em outubro de 2008, o "New York Times" publicou uma incrível reportagem que revelava o envolvimento de Ahmed Wali no tráfico de heroína. Ele sempre negou, desafiando seus acusadores a fornecer provas formais. A conexão, entretanto, foi considerada verossímil por vários observadores do cenário afegão, que se expressaram sob anonimato.

Em sua edição de 28 de outubro, o "New York Times" lançou nova luz sobre o personagem de Ahmed Wali Karzai, revelando que ele receberia pagamento da CIA há oito anos. A central de espionagem americana o remuneraria em troca de serviços prestados nas operações de serviços especiais na província de Candahar. Segundo o jornal nova-iorquino, Ahmed Wali Karzai teria ajudado a constituir uma força paramilitar, a Kandahar Strike Force, dedicada a combater os insurgentes talebans.

O "New York Times" explica que o caso Ahmed Wali Karzai divide a administração Obama. A aparente impunidade da qual ele usufrui em razão de suas ligações com a CIA exaspera aqueles que pedem por soluções radicais. A corrupção de caráter mafioso dos setores do Estado afegão é considerada responsável pela escalada da insurreição.

Em seguida vem Mahmoud. Ele limitou suas atividades à economia "oficial". Refugiado nos Estados Unidos, ele já era proprietário (com outros irmãos) de uma cadeia de restaurantes em San Francisco, Boston e Baltimore. Após seu retorno ao Afeganistão, o empresário se transformou em um magnata nacional. Vice-presidente da câmara de comércio afegã, ele fez várias aquisições em uma indústria de cimento - a única do país - e quatro minas de carvão, ao mesmo tempo em que se apropriava da distribuição da marca Toyota no Afeganistão e financiava um extravagante projeto imobiliário em Candahar sobre um terreno tomado do exército. Apóstolo do mercado livre, ele sonha em transformar o Afeganistão em uma nova Hong Kong.

Quanto a Qayum, o terceiro irmão - e o mais velho da irmandade - , ele trabalha sobretudo no cenário político. Eleito deputado em 2005 - ele em seguida deixou o cargo, por uma polêmica sobre seu absentismo - , é o homem-chave das negociações secretas com os talebans. Por conta disso, ele viaja muito para a Arábia Saudita, onde tenta convencer os dignitários da família real a exercer um papel de mediador. Em Riad, ele encontra o embaixador afegão, Mohammad Aziz Karzai. Um tio do presidente.

Tradução: Lana Lim

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