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31/10/2009

O falso debate da identidade nacional

Le Monde
Caroline Fourest
Ao lançar o debate sobre "o que é ser francês?", Éric Besson certamente esperava reações exageradas. Ele não se decepcionou. Em algumas horas, algumas vozes da esquerda forneceram a caricatura que era esperada delas: "Pétainismo!", "Xenofobia!", "Você segue a Frente Nacional!"

Tudo isso por quê? A essa altura, só se fala em um contrato de integração, em fazer cantar a Marselhesa, em dar cursos de instrução cívica, em naturalizar os estrangeiros merecedores (entenda-se esportistas que possam trazer medalhas, não afegãos fugitivos da guerra), em valorizar a contribuição da imigração...

Há com que se irritar, ironizar, mas não berrar. A alguns meses das eleições regionais, os franceses - e não somente os eleitores potenciais da Frente Nacional - poderiam deduzir disso que a oposição definitivamente está cega para os desafios do momento. O debate não é legítimo? Sim, ele é... a armadilha está na escolha das palavras para conduzi-lo: identidade nacional.

A frase de Albert Camus nunca foi tão verdadeira: "Dar o nome errado às coisas é contribuir para as agruras do mundo". Ora, o Ministério da Imigração e da Identidade Nacional é um nome bem errado para conduzir um debate tão fundamental e tão complicado como esse. Colocados lado a lado, esses dois termos dão a entender que a identidade nacional se decreta, que a imigração a ameaça, e que a crise do "viver juntos" é um problema de identidade.

Nada mais enganoso. O declínio da igualdade entre sexos e dos direitos das mulheres em alguns bairros, o recuo comunitarista, a escalada do fundamentalismo e a deriva sectária de algumas francesas - às vezes convertidas - que usam a burca dizem respeito a domínios muito diferentes, muitas vezes confundidos, como a integração, a laicidade ou a cidadania. Essas questões fundamentais devem ser debatidas, mas dizem respeito acima de tudo ao projeto de sociedade, e não à identidade.

No Canadá, nos Estados Unidos, na Holanda, na Bélgica, na Grã-Bretanha, por toda a parte se debate para encontrar uma forma de "fazer sociedade" que possa "conciliar" certas demandas que emanam de minorias religiosas sem destruir o pacto comum. A linha de ruptura não separa os imigrantes dos nativos.

Trata-se de um debate entre cidadãos, para arbitrar juntos entre duas utopias: uma enfatiza o que os une, e a outra o direito à diferença. A abordagem multiculturalista, que enfatiza o direito à diferença, se desenvolveu sobretudo nos países anglo-saxões, onde existe uma forte tradição de escalões comunitários entre o Estado e o cidadão.

Por muito tempo exaltado como a maturidade da tolerância, esse multiculturalismo é hoje criticado, inclusive por progressistas, por sua tendência a favorecer o diferencialismo em detrimento da igualdade, as derrogações em nome da cultura e da religião, o comunitarismo e sua incapacidade de resistir ao fundamentalismo.

Por outro lado, muito tempo criticado por sua tentação normativa (às vezes com razão), o modelo republicano - integrador, igualitário e universalista - reergue a cabeça. Países divididos entre os excessos do multiculturalismo e da escalada de um populismo racista consideram reforçar a laicidade e a cidadania para sair desse círculo vicioso.

Fazer o diagnóstico certo supõe empregar as palavras certas. Daquelas que levam a fortificar os pilares do modelo republicano universalista - a laicidade, a igualdade de oportunidades, a escola pública - em vez de favorecer uma perspectiva nacionalista, indigna e errônea. Isso supõe uma certa dose de autocrítica.

Pois o modelo republicano francês também está em crise. Seu principal predador não é a imigração, mas sim a política de Nicolas Sarkozy, uma vez que ela abandona a República por uma visão privatizada do laço social e cultural. Se a esquerda parasse de tremer, e tivesse a coragem de se reapropriar dos valores republicanos, a armadilha pegaria aqueles que a armaram.

Tradução: Lana Lim

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