UOL Notícias Internacional
 

31/10/2009

Os chineses têm maus "caracteres"

Le Monde
Bruno Philip
Os chineses têm personalidade e adoram seus caracteres, ou seja, seu sistema de escrita. A proposta de uma reforma que simplifica um número limitado de ideogramas acaba de provocar uma polêmica que ilustra até que ponto os chineses parecem apegados à complexidade de sua língua escrita.

Entretanto, no papel, o impacto desse projeto governamental será insignificante: dos 47.037 caracteres listados - somente 3.500 são utilizados normalmente -, a proposta é simplificar somente 44 deles! E as mudanças serão mínimas: os caracteres em questão, que exprimem palavras ou adjetivos correntes, se verão simplesmente amputados de pequenos traços. Mas uma parte da opinião pública rejeita essa reforma. E como os chineses foram convidados a dar sua opinião na internet ou escrevendo para a Comissão da Língua Chinesa do Ministério da Educação, eles não estão se privando disso.

Uma pesquisa organizada pelo site Sohu.com mostra que 90,3% das 247.195 pessoas consultadas se declararam hostis a essa reforma. "Os burocratas do Ministério não têm nada a ver com isso. Há outras formas de contribuir para o progresso da educação na China!", critica um internauta no site do "Diário do Povo", o órgão central do Partido Comunista. "Então, aos 31 anos, vou ter de voltar à escola?", ironiza um outro...

Um professor de linguística da Universidade Normal de Nanquim, Ma Jinglun, se diz contrário a essa perspectiva de simplificação, pois os caracteres chineses exercem "um papel social e psicológico" importante na História da cultura do Império do Meio, uma vez que a escrita milenar dos caracteres serviu de poderoso fator de unificação política. Segundo Sun Xiaoyun, renomado calígrafo, "essa reforma não é necessária: o que é essencial é que o ideograma transmita corretamente a mensagem. Sua forma em si pouco importa".

A questão da simplificação dos caracteres está longe de ser nova. A reforma já se deu sob o maoísmo, uma vez que, entre 1956 e 1975, milhares de ideogramas se viram amputados de pequenos traços. Somente em Taiwan, Hong Kong, Macau e na diáspora chinesa, sobretudo no Sudeste Asiático, é que os caracteres tradicionais ainda são utilizados.

E essa vontade simplificadora era ainda mais antiga: tinha origens em uma vontade reformista de intelectuais do fim do século 19, que queriam promover um maior acesso à educação, tornando menos complexo uma escrita de letrados. Em 1909, o redator-chefe do "Jornal da educação", Lu Feikui, propôs a passagem "para caracteres de formas populares".

Alguns ousavam propor a ideia sacrílega, como fez no Japão em 1866 o alto oficial Hisoka Maejima, sugerindo "uma proposta para a eliminação dos caracteres (chineses)". Anos depois na China, um certo Lu Zuangzhang se lançou em uma revista a uma diatribe contra esse "império dos sinais" que restringia a expressão gráfica do país: "Vocês dizem que os caracteres chineses têm uma beleza sem igual. Bem, em nome de sua beleza, eles nos irritam com sua dificuldade sem igual!"

Hoje, o professor de linguística da Universidade Fudan de Xangai, Chu Ziao Quan, explica que "nos momentos históricos cruciais em que o destino da China e da cultura chinesa realmente foram contestados, o desafio se traduzia frequentemente em um problema de língua que provocava reações emocionais no imaginário linguístico dos chineses.

Mas nunca estes, em sua longa história, enfrentaram um questionamento sobre sua própria língua tão agudo e tão radical quanto nos tempos modernos". ("La Pensée en Chine aujourd'hui", organizado por Anne Cheng, ed. Gallimard, coleção "Folio-essais", 2007).

Para o professor Chu, no início do século 20 havia intelectuais para afirmar que a escrita tradicional podia "ser a causa dos fracassos históricos sofridos pela China". Alguns acreditavam que "havia urgência para se livrar da escrita chinesa, para tirar a China do abismo do fim do século (19)". Passar de uma representação escrita simbólica para o alfabeto latino: para eles, esse era o futuro.

Os radicais dessa "revolução cultural" certamente não a conseguiram, mas mais tarde, os comunistas optaram por uma simplificação dos caracteres, e paralelamente adotaram o "pinyin", uma romanização do mandarim, que facilita a pronúncia para o locutor não sinófono.

E ainda que os chineses pareçam não querer mais prolongar a experiência, talvez seja preciso ver outros motivos na irritação causada por esse último projeto de reforma.

É o que sugere Dong Qiang, professor de francês e de literatura comparada na Universidade de Pequim e distinto calígrafo: "Vejo na atual polêmica um conflito entre a 'tecnocracia progressista' - que justifica a reforma como uma tentativa de padronizar melhor a escrita e uma adaptação à necessidade da era da internet - e uma necessidade de se enraizar no plano cultural através da escrita".

Na verdade, ele acrescenta, "essa hostilidade à reforma reflete um estado de espírito dos chineses de hoje que estão fartos de todas as decisões que vêm de cima, de supostos 'especialistas'".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host