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04/11/2009

"Lévi-Strauss soube transformar suas experiências em sistemas de pensamento", diz o geógrafo Roland Pourtier

Le Monde
Audrey Fournier
"Os assuntos tratados por Lévi-Strauss são transversais e podem atingir um grande público", explica Roland Pourtier, geógrafo e professor da Universidade Paris I Panthéon-Sorbonne, após o anúncio, na terça-feira (3), da morte do etnólogo, aos 100 anos de idade.

Imagens da vida do antropólogo (AFP)

Le Monde: Como a leitura de Lévi-Strauss o marcou?
Pourtier:
Não sou etnólogo de formação, e sim geógrafo. Dito isso, fiz a maior parte de minhas pesquisas sob os trópicos, na Ásia e na África negra. Então a leitura de "Tristes Trópicos" se impôs muito cedo em minha trajetória de estudante. É uma obra muito importante, essencial por sua abordagem filosófica da antropologia. Em "Tristes Trópicos" há um relativismo que sempre me surpreendeu. Lévi-Strauss questiona práticas que nós reprovamos totalmente em nosso sistema de valores. Pegue o exemplo da antropofagia. Ele tem uma maneira muito interessante de apresentá-la: em nossas sociedades ocidentais, nós afastamos os indesejáveis, ao passo que em outras sociedades, eles são ingeridos! Lévi-Strauss vai muito longe no relativismo cultural. Mas essa abertura de espírito permitiu que questionássemos nosso próprio sistema de valores que aspira à universalidade. Ora, não se pode ser etnólogo sem se levantar a questão da universalidade.

Le Monde: Por que a obra de Lévi-Strauss continua moderna?
Pourtier:
"Tristes Trópicos" é um clássico porque é de relativo fácil acesso, contanto que se tenha um mínimo de bagagem cultural. É um livro menos técnico que suas outras obras, como "O pensamento selvagem" ou "As estruturas elementares do parentesco". É claro que existem efeitos de moda, e alguns aspectos do pensamento de Lévi-Strauss são hoje considerados como antiquados. Dito isso, sempre acabamos voltando aos clássicos. Voltamos a Tocqueville ou a Durkheim, voltaremos necessariamente a Lévi-Strauss, e não necessariamente por "Tristes Trópicos", cujo estilo, assim como a visão de mundo, são um pouco líricas.

Especialistas lamentam

Sociólogo e ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso divulgou uma nota sobre o falecimento do antropólogo. "Lévi-Strauss foi um dos maiores antropólogos de todos os tempos. Suas contribuições, especialmente depois que publicou 'As Formas Elementares do Parentesco', revolucionaram a antropologia contemporânea. A partir de então, a corrente chamada 'estruturalista' passou a exercer enorme influência em todas as universidades", diz FHC



Le Monde: Como o senhor descreveria a contribuição de Lévi-Strauss para as ciências humanas?
Pourtier:
A leitura de Lévi-Strauss foi importante para minha formação pois permitiu que minha "geografia" humana e política se abrisse muito cedo a todas essas questões da antropologia. Além disso, "Tristes Trópicos" foi publicado na coleção "Terre humaine" da Plon, uma coleção criada por um geógrafo, Jean Malaurie. Os assuntos tratados por Lévi-Strauss são transversais e podem atingir um grande público. Era um homem de dupla função: primeiramente um homem de campo, depois um estudioso que soube transformar suas inúmeras experiências em verdadeiros sistemas de pensamento. Além disso, suas imensas capacidades de leitura e de síntese - assim como sua longevidade! - lhe permitiram teorizar um grande número de coisas.

Tradução: Lana Lim

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