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05/11/2009

A relação "infantil e fetichista" dos europeus com os Estados Unidos

Le Monde
Cécile Chambraud
À sombra da visita de Angela Merkel, solenemente recebida pelo Congresso norte-americano nesta terça-feira, uma delegação da União Europeia (UE) foi até Washington para participar da cúpula que reuniu membros do bloco e dos Estados Unidos. A pompa concedida a uma e a discrição reservada aos outros ilustravam oportunamente algumas das teses, pouco lisonjeiras para a UE, desenvolvidas para um novo estudo sobre as relações transatlânticas publicado pelo European Council on Foreign Relations, um centro de pesquisa europeu ligado à fundação Soros.

Seus dois autores, o norte-americano Jeremy Shapiro, pesquisador da Brookings Institution, e o britânico Nick Witney, ex-diretor da Agência Europeia de Defesa, avaliam que os europeus, por suas divisões e por sua avidez em promover junto a Washington seus interesses particulares, são hoje incapazes de construir uma relação equilibrada com Washington. A redistribuição de poderes em benefício de países emergentes acentuaria ainda mais sua defasagem.
  • Gerald Herbert/AP

    Aliviadas de verem-no suceder Bush, nações europeias não viram "pragmatismo" de Obama



Eles escolheram palavras cáusticas para descrever a relação que as nações europeias mantêm com os Estados Unidos; uma relação, segundo eles, "infantil e fetichista", alimentada por "ilusões". Entre as mais danosas, há aquela segundo a qual os interesses dos norte-americanos e dos europeus são fundamentalmente os mesmos; ou ainda, que a segurança da Europa ainda depende da proteção dos EUA. Enfim, igualmente danosa, figura a convicção de vários Estados europeus de que eles têm uma "relação especial" com os Estados Unidos. "Relação especial" que tornaria contra-produtiva a ideia de se unir, frente aos Estados Unidos, com as outras nações europeias. "Visto de Washington", eles escrevem, "há algo quase infantil na maneira como os governos europeus se comportam em relação a eles - uma mistura de busca de atenção com evasão de responsabilidades".

"Deferência europeia"
Essa aproximação não se manifesta de maneira evidente sobre o terreno econômico e comercial, onde a Europa aprendeu, através de instituições comunitárias, a abordar de maneira mais pragmática suas relações com Washington. Mas, em compensação, é o que acontece com as questões de segurança. Por exemplo, nem sobre o Afeganistão, nem sobre a Rússia, nem sobre o conflito entre israelenses e palestinos os europeus até agora tiveram a capacidade de definir interesses e uma estratégia em comum frente àqueles de Washington, observam os autores do estudo.

Ora, "o problema da deferência europeia em relação aos Estados Unidos é que ela simplesmente não funciona", garantem Jeremy Shapiro e Nick Witney. E ela funcionará cada vez menos em um mundo "pós-americano", onde os poderes se redistribuem em favor de países emergentes do Sul. Os Estados Unidos, pragmaticamente, adaptaram sua diplomacia para a emergência dessas novas potências. Os europeus não. Presos em reflexos antigos, os governos europeus se apegam, segundo eles, às supostas virtudes de uma relação transatlântica sem nem mesmo questionar os benefícios que podem esperar dela na nova divisão de poderes.

A eleição de Barack Obama agravaria ainda mais a diferença entre os dois parceiros. Aliviados de verem-no sucedendo George Bush, e certos de reconhecerem nele um "pró-europeu", os governos do Velho Continente não teriam se dado conta das implicações do "pragmatismo" fundamental do novo presidente norte-americano, que o leva a "trabalhar com quem lhe permite atingir com mais eficácia os objetivos que fixou para si". No momento, a UE, como ator político, está frágil e dividida demais para exercer plenamente esse papel.

Tradução: Lana Lim

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