UOL Notícias Internacional
 

05/11/2009

O presidente afegão enfrenta a recusa do diálogo dos chefes talebans

Le Monde
Frédéric Bobin
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)
O roteiro agora é ritual. Hamid Karzai estende o ramo de oliveira e os talebans o recusam. No dia seguinte à proclamação de sua vitória nas eleições presidenciais, Karzai reiterou nesta terça-feira seu apelo pelo diálogo com os chefes da insurreição. "Nós apelamos a nossos irmãos talebans para que eles voltem ao Afeganistão." Antes da campanha eleitoral, o chefe do Estado havia exibido a política de "reconciliação nacional" como prioridade de seu futuro mandato em caso de reeleição. Depois que as fraudes em massa mancharam o primeiro turno das eleições, em 20 de agosto, uma outra prioridade deverá ser acrescentada, imposta pelos ocidentais: a luta anti-corrupção. Os norte-americanos tentam selar uma espécie de pacto com Karzai. Para Washington, corrupção e insurreição estão ligadas.

Sobre essas questões, a tarefa de Karzai promete ser árdua. Com a corrupção no centro de seu sistema, uma política voluntarista de erradicação corre o risco de se perder no emaranhado de redes clientelistas que ele apadrinha. Quanto à reconciliação nacional, ela se defronta com a recusa arrogante dos chefes insurgentes. Logo após o apelo ao diálogo, Youssouf Ahmadi, porta-voz dos talebans, emitiu uma recusa categórica: "(Karzai) é uma marionete e seu governo é um governo de marionetes."

Vitória fraudulenta de Karzai atormentará Obama

Com a desistência do seu único adversário, Hamid Karzai obteve um segundo mandato como presidente do Afeganistão. Mas, para o Ocidente, trabalhar em conjunto com o governo do Afeganistão só ficará mais difícil. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, terá que explicar por que deseja apoiar um líder eleito de forma não democrática quando enviar mais tropas ao território afegão, e o debate na Alemanha em torno da missão de guerra também deverá esquentar.



A hostilidade recorrente dos talebans não condena, entretanto, toda perspectiva de solução política. Uma parte da opinião pública - sobretudo no Sul, pashtun - é favorável a ela, e os dirigentes ocidentais a evocam cada vez mais abertamente. O mandato de Karzai deverá ser marcado por várias iniciativas. Em Cabul, os observadores ressaltam a dupla dimensão que assumirá essa política conciliatória.

Insurreição multipolar
A primeira ação da "reintegração" dos combatentes tem uma motivação que é menos a ideologia jihadista do que as frustrações locais, alimentadas em geral pelos abusos de poder dos chefes de distrito. A ideia é reintegrá-los à vida civil em troca de incitações econômicas ou financeiras. Foram iniciados esforços nesse sentido. Desde 2005, o "Programa Takhm-e Sohl" (PTS) - "Programa de Reforço da Paz" - conduzido por um aliado de Karzai, Sibghatullah Mojaddedi, suscitou adesões. Oficialmente, 8 mil insurgentes teriam deposto as armas. Mas a operação é considerada infrutífera, marcada por derivas de clãs e limitada por meios frágeis. Segundo a comitiva presidencial, ela deverá ser revigorada, e seu "status político", elevado.

A outra frente é a do "diálogo político" com os chefes insurgentes. No centro do governo afegão, assim como nas chancelarias ocidentais em Cabul, ressalta-se a heterogeneidade e a multipolaridade da insurreição. A ideia de discutir com os elementos ligados à Al-Qaeda e às redes da jihad internacional está excluída. Em compensação, a identificação de interlocutores "pragmáticos" e "afegãos" - ao contrário dos "internacionais" - é concebível, especialmente entre o estado-maior da rebelião com base em Quetta (Paquistão). Qualquer discussão com eles envolverá a mediação dos serviços secretos paquistaneses e a cobertura diplomática dos sauditas. Mas um obstáculo jurídico importante deverá ser retirado: a "lista negra" de dirigentes talebans inscrita na Resolução 1269 adotada em 1999 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Essa lista deverá ser revisada. Eis por que Karzai apelou à "cooperação internacional" durante seu chamado ao diálogo.

Tradução: Lana Lim

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