UOL Notícias Internacional
 

05/11/2009

Três meses na prisão sem advogado: relato da repressão no Irã

Le Monde
Serge Michel
Todas as segundas-feiras, dezenas de famílias se encontram diante do bloco 209 da prisão de Evin, em Teerã. É o bloco dos prisioneiros políticos, que parece não ter esvaziado desde a repressão que se abateu sobre os jornalistas e defensores dos direitos humanos após a eleição presidencial de 12 de junho, cujo resultado a oposição sustenta que foi manipulado.

As mães e os pais aglomerados diante do guichê metálico carregam consigo seus documentos de identidade e até mesmo, em alguns casos, seus títulos de propriedade para o caso milagroso em que seu filho será libertado sob fiança. Em um país onde a renda mensal não ultrapassa o equivalente a 300 euros (cerca de R$ 770), o único meio de pagar as centenas de milhares de euros de fiança é sacrificar uma casa ou um apartamento.

Ao lado do guichê, uma nota anuncia que ele abre às 9h. Mas é muitas vezes com uma hora de atraso que um guarda aparece em um ranger de dobradiças enferrujadas. As famílias submetem então seus nomes e o do prisioneiro que vieram ver. "É ali que a espera é mais insuportável", diz uma mãe em um e-mail enviado aos amigos de sua filha. "Não temos como saber o que nos espera." Os mais sortudos verão seu prisioneiro frente a frente em um pequeno cômodo. Os outros deverão se contentar com a sala de visitas, separados por um vidro. As famílias de prisioneiros famosos como Bahman Amadi Amoui, Said Leylaz, Massoud Mastani ou Mohammad Gouchani só têm direito à sala de visitas. Os menos sortudos não conseguem nenhuma visita. Ou seu prisioneiro foi colocado em isolamento, ou eles sofrem a arbitrariedade da prisão: aqui, a visita não é um direito.

Nas onze semanas em que ela foi todas as segundas-feiras a Evin, Farideh, a mãe da jornalista Fariba Pajoo, só pôde ver sua filha três vezes. "Ela estava pálida, tinha emagrecido muito", diz. "Fariba se queixou da atitude desdenhosa dos guardas e dos contínuos interrogatórios dos investigadores, que às vezes se prolongavam até tarde da noite. Ela estava marcada pelas pressões sofridas." Três meses após sua prisão, em 22 de agosto, Fariba ainda não teve direito de ver seu advogado, nem de saber exatamente por que está sendo processada pela justiça da República Islâmica.

Alguns prisioneiros tiveram rapidamente constituídos para si um comitê de apoio internacional, como Maziar Bahari, correspondente da "Newsweek" no Irã, que foi beneficiado por sua dupla nacionalidade iraniana e canadense. Libertado sob fiança em 17 de outubro, ele reencontrou sua esposa em Londres. Após quatro meses de prisão e uma aparição no julgamento gigante encenado pelo regime no começo de agosto, Bahari ainda não sabe se está sofrendo outro processo. No dia de sua libertação, o sociólogo e urbanista Kian Tajkbach se viu condenado a doze anos de prisão sem condicional. Um julgamento que surpreendeu os observadores por sua severidade. Pouco depois, Hossein Rassam, analista político para a embaixada da Grã-Bretanha em Teerã, foi condenado a quatro anos de detenção por "fomentação da desordem".

Sem o apoio de nenhum comitê ou governo apesar de sua colaboração para o serviço persa da Radio France internacional, bem como para a revista italiana "Limes", Fariba Pajoo primeiramente passou mais de um mês em isolamento. No fim de setembro, ela passou a dividir uma cela com Hengameh Shahidi, célebre militante dos direitos humanos e assessora do candidato à Presidência Mehdi Karoubi. Em 26 de outubro, elas iniciaram uma greve de fome para protestar contra sua detenção abusiva. A direção de Evin as ameaçou com sanções disciplinares. "É inaceitável", declarou Hengameh Shahidi por telefone à sua família. "Será que os indivíduos que bateram em mim nos porões da prisão também receberam sanções disciplinares?"

Então, as jovens foram separadas. Hengameh Shahidi foi colocada junto com os prisioneiros de direito comum, e ninguém sabe ainda o que aconteceu com Fariba Pajoo. Seu pai, ex-coronel do exército iraniano, cuja saúde foi arruinada pelos gases de combate utilizados no front pelas tropas de Saddam Hussein, não pode ir até Evin. Ele manifesta sua angústia por telefone: "Fariba era frágil. Ela estava sob tratamento médico antes de ser presa. Como ela pode suportar a prisão de Evin? Que perigo ela pode representar para ser presa há quase cem dias?" Jornalista desde 1999 para diferentes agências de notícias e jornais reformistas, a maioria fechada hoje por ordem da Justiça, Fariba colaborava antes das eleições para o "Qalam-e Sabz", jornal do candidato reformista Mir Hossein Mousavi. Em outubro de 2008, ela fazia parte de um grupo de jornalistas e blogueiros que havia recebido um visto norte-americano para cobrir as eleições presidenciais nos Estados Unidos. As autoridades iranianas a princípio autorizaram essa viagem, mas detiveram o grupo no momento em que subia no avião, e confiscaram seus passaportes.

Em 2007, Fariba esteve na Itália, na França e na Bélgica para escrever um livro sobre a visão que a mídia ocidental tem do Irã desde 1979. Seu projeto, que tinha o apoio do ex-presidente reformista Mohammad Khatami, nunca recebeu a permissão para ser publicado.

Tradução: Lana Lim

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