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06/11/2009

Eles escolheram Sarkozy

Le Monde
Pierre Jaxel-Truer
Nas eleições presidenciais de 2007, Schiltigheim, majoritariamente de centro, votou quase como a França. Nicolas Sarkozy obteve ali, no segundo turno, 53,2% dos votos, contra 46,8% para Ségolène Royal. É aqui que encontramos eleitores, engajados na vida da cidade - alguns estavam nas listas das eleições municipais -, que deram seu votos ao presidente da República ou votaram em branco. Eles avaliam, segundo suas próprias experiências, sua primeira metade de mandato. Sem complacência.

Schiltigheim é uma cidade de subúrbio como muitas outras. Uma vila que cresceu à sombra de Estrasburgo, que graças à Revolução Industrial se tornou, no fim do século 19, uma cidade operária próspera. Uma cidade que, durante os "Trinta anos gloriosos", construiu às pressas conjuntos habitacionais para alojar sua mão-de-obra imigrante. Um vilarejo que, agora, termina sua desindustrialização.

O orgulho de Schiltigheim eram suas cervejarias. Cinco, quatro, três, duas, uma... Somente a Heineken ainda resiste. Até quando? Caddie, outro orgulho de Schiltigheim, também poderá fechar sua unidade de produção de carrinhos. A vergonha da cidade eram seus conjuntos habitacionais. Nos anos 1990, aqui a noite de Ano Novo atraía a mídia internacional, que vinha contar os carros queimados nas tradicionais manifestações. Depois, a situação se acalmou. Schiltigheim, com seus 32 mil habitantes, é uma cidade em transição. A oeste, sinal de renascimento, surge um bairro empresarial novo em folha.

O neo-convertido indeciso
Aos 70 anos, François Wilhelm conhece Schiltigheim como a palma de sua mão. Esse ex-diretor de escola foi vice do prefeito Alfred Muller, considerado de centro-esquerda, que dirigiu a cidade entre 1977 e 2008.

Wilhelm se recorda dos anos em que, sindicalizado, e "de esquerda com tendência socialista", ele refazia o mundo com seus camaradas. Ele comemorou a eleição de François Mitterrand, apoiou Lionel Jospin. Depois, os anos passaram, e ele "fez sua síntese interna". Em 2007, votou em Sarkozy porque ele "o detestava muito", por "seu lado vigoroso". E depois? Ele "gostou de sua dinâmica durante a crise financeira". Habituado com os meandros administrativos, ele também provou de sua vontade de reformar as coletividades territoriais.

Mas o episódio do "príncipe Jean" o chocou. O fato de o filho do presidente da República poder reivindicar, aos 23 anos, a presidência da EPAD, órgão que administra o bairro empresarial de La Défense (Hauts-de-Seine), lhe parece "um insulto à meritocracia". "As elites dividem o bolo entre si. Os outros podem lutar, mas no máximo um passa pelos furos da peneira, de vez em quando". "Sou um eleitor livre", ele diz.

A pária
Denise Lallemand viu evoluir o Quartier des Ecrivains [bairro dos escritores], o mais problemático da cidade. Estavam sendo erguidos os conjuntos habitacionais quando ela lá se instalou, em 1966. Ela viveu as manifestações dos anos 1990. Ela também fez parte, na condição de porta-voz do conselho do bairro, daqueles que lutaram contra os incendiários. "Organizava as festas no Ano Novo, enquanto os pais faziam rondas, a noite inteira, para evitar que a garotada fizesse besteira", ela conta. Lallemand não é do tipo que fica de braços cruzados. Os aposentados do bairro lhe pedem conselhos. Mas ela se absterá das eleições presidenciais de 2012. Pela primeira vez. Porque Sarkozy, em quem ela votou, a "decepcionou muito".

"Ele prometeu reconstruir os bairros. Não vimos nada. As únicas mudanças que houve foram ruins. Como esses medicamentos que não são mais reembolsados. Com a crise, é cada vez mais difícil. Em 1935, não havia mais trabalho. Vimos no que deu..." Hoje com 70 anos, Lallemand trabalhou com papelão, foi faxineira, funcionária da prefeitura. Ela não entende por que "deixam todas as empresas partirem para o exterior". Ela votou na Frente Nacional duas vezes, em 1988 e 1995, por estar "de saco cheio". E também porque "os problemas começaram quando os outros chegaram. Com os pés-negros [franceses repatriados da Argélia], tudo bem".

Lallande recebe de aposentadoria "1.033 euros, para um aluguel de 355 euros". Mas, divorciada, por muito tempo ela se contentou com 638 euros, antes que ela tivesse direito à pensão de viuvez de seu ex-marido. Então, ela diz, "quando vejo os custos das festas do presidente, quando eles não dão nem os restos aos pobres, isso me irrita". "Não gosto dele", ela suspira. "Acreditamos demais em suas promessas".

O ambicioso pragmático
Ahmed Fares, 34, é outra figura do bairro dos Escritores, cujo centro sócio-cultural ele dirigiu. "No início, eu era pró-Sarkozy", ele conta. "Quando ele dizia que era preciso acabar com a desordem nos subúrbios, eu concordava". Mas o episódio [da limpeza dos subúrbios com jato d'água] Kärcher o desanimou. Então ele votou em branco.

Isso não o impediu, em 2008, de se registrar na lista da UMP (União por um Movimento Popular) nas eleições municipais. Os imigrantes do bairro, em geral, votam na esquerda ou não votam. "Meu pai ficou louco quando descobriu que eu estava com a UMP!", ele conta. Mas um cargo de vice lhe havia sido prometido, em caso de vitória. "Meu objetivo é fazer política. Vou para onde me dão responsabilidades, seja à direita ou à esquerda". Nicolas Sarkozy o convenceu, em dois anos e meio? Ahmed Fares gostou do fato de que, "pela primeira vez, há pessoas vindas da imigração no governo". Ele observa que "no subúrbio, o lado 'não estou nem aí, faço o que quero' agrada". Ele comemora porque Sarkozy "fala francês como todo mundo, não como na ENA [Escola Nacional de Administração]". Mas ele pede mais: "Continua não havendo discriminação positiva". Então Fares não sabe em quem votaria hoje: "Sarko não é grande coisa, mas a Ségolène, a gente não entende nada do que ela diz".

Os fisgados pela abertura
Patricia e Pascal Huck, 41 e 46 anos, admitem que, em 2007, eles votaram acima de tudo "contra Ségolène". "A UMP persiste, não somos nós", garante Pascal. Ambos se dizem "de centro", e por muito tempo votaram na UDF [União para a Democracia Francesa]. Então eles apreciam a política de abertura de Sarkozy. Além disso, eles acabam de se juntar à Esquerda Moderna de Jean-Marie Bockel.

Sobre o mandato do presidente, Pascal considera que Nicolas Sarkozy "reformou mais do que nos últimos trinta anos". Patricia comemora a abertura do mapa escolar [sistema que determina a escola onde cada aluno deve estudar, de acordo com seu local de residência], que poderá permitir a seus filhos que frequentem "um colégio menos difícil". Ela também gosta "do serviço mínimo, ainda que não nos afete muito". Para Pascal, a União para o Mediterrâneo é "uma ideia genial, que poderá permitir que as migrações diminuam o ritmo, que as pessoas possam ficar em suas terras, trabalhando em suas terras, felizes".

Mas o "caso Jean Sarkozy", também para eles, foi "um erro". "Todo mundo dá uma mãozinha para seus filhos, mas nessa escala, é insolente", acredita Pascal. Patricia sente falta do tempo em que "o presidente era o presidente de todos os franceses. Agora, alguns o adoram, outros o detestam, não é bom". E eles votariam novamente nele? "Tudo depende de quem estiver concorrendo".

A preocupada, mas fiel
Para Michèle Queva, 48, "eleitora de direita desde sempre", Sarkozy está indo rápido demais. Segundo essa diretora de recursos humanos de uma empresa de produtos médicos, "ele tenta fazer coisas, mas as estruturas não acompanham". "Em direito social, as reformas são inaplicáveis".

A época, para ela, é incerta. "Hoje, os resultados de uma empresa não têm muito a ver com o trabalho das pessoas. Basta um mau investimento..." O projeto de lei de financiamento da Segurança Social a preocupa: "Eles falam em cortar o reembolso das compressas de gaze. A empresa para a qual trabalho é a única que as produz na França. Duzentos empregos estão sendo ameaçados. E não é arriscado depender totalmente do exterior quando se trata de produtos de saúde?"

Queva lamenta a "falta de grandeza" do presidente. Ela preferia Jacques Chirac, por seu "verbo" e sua "elegância". Hoje, ela ainda votaria em Nicolas Sarkozy, "por falta de coisa melhor".

As anti-"bling-bling"
Céline Antioui, 39, é empregada doméstica. Assim como sua amiga Nita Anania, 62. Elas têm o riso fácil, e a língua solta. Em 2007, Antioui escolheu Sarkozy no primeiro turno, antes de mudar de ideia no segundo, quando votou em branco. Anania escolheu o presidente sem restrições.

Cansadas, elas estão realmente decepcionadas. "Trabalhar mais para ganhar mais, eu pensei", conta Antioui, que abandonou a presidência de uma associação, em seu bairro, para fazer mais horas. "Mas fomos pagos em cheques de trabalho casual, e me disseram que eu precisava trabalhar 40 horas com o mesmo empregador - nem preciso dizer que isso é impossível - para receber horas extras", ela reclama. "Eu havia entrado em um clube de amigos de Sarkozy na internet", conta Anania. "Mas enviei uma mensagem para dizer o que eu pensava do 'bling-bling' [apelido do presidente em função de sua ostentação]. Eles me expulsaram!" Para as duas mulheres, "ele não fez nada de bom". "Como você pode respeitar um presidente que se deixa fotografar de calção de banho na praia?", pergunta Antioui. O que Sarkozy pode fazer para compensar? "Que ele cuide de seu país", aconselha Antioui. E Anania acrescenta: "É isso: que ele cuide de nós".

Tradução: Lana Lim

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