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06/11/2009

Para Washington, "a Europa deve colocar sua casa em ordem"

Le Monde
Corine Lesnes Em Washington
De George Kennan, em 1947, a Paul Wolfowitz, Richard Haass e Dennis Ross, uma longa linhagem de diplomatas de alto escalão dirigiu o planejamento de políticas do Departamento de Estado, o "think tank" do ministério americano das Relações Exteriores. Anne-Marie Slaughter é a primeira mulher a ocupar esse posto estratégico. Ex-professora de Direito Internacional em Harvard, reitora da Woodrow Wilson School of International Affairs em Princeton, ela é encarregada da elaboração a longo prazo da diplomacia da administração Obama.

Le Monde: Um ano após a eleição de Barack Obama, o que mudou?
Slaughter
: A administração realmente acredita na diplomacia. No trabalho da diplomacia. Nós obtivemos resultados concretos. O acordo que os turcos e os armênios acabam de assinar, por exemplo. Foram necessários meses e meses de trabalho muito intensivo. Não somente de nossa parte, mas da parte dos suíços, dos turcos e dos armênios. Não é o resultado de uma grande iniciativa espetacular, de um plano, de uma doutrina... É um trabalho diário, constante. [A secretária de Estado] Hillary Clinton fez dezenas de telefonemas.

O mesmo vale para Honduras. É um acordo importante (fechado em 30 de outubro entre os golpistas e o presidente deposto). Pela primeira vez neste hemisfério, um país cujo governo democrático foi suspenso resolveu a situação sem ter recorrido à força, de uma maneira institucional. Lá também foram necessários meses de trabalho, da parte de vários países, e certamente dos Estados Unidos. Telefonemas diários, negociações, reveses, progressos.

É o que foi necessário, e também o que será necessário no processo de paz no Oriente Médio. As reuniões nem sempre produzem o resultado desejado. É muito frustrante. Mas você está num processo. É uma das características da abordagem de Hillary Clinton e de Barack Obama: eles não se contentam em falar de diplomacia, eles trabalham.

Le Monde: Os palestinos estão decepcionados...
Slaughter:
Não se pode mudar a opinião pública no mundo árabe e muçulmano com palavras. Ações são necessárias. Nós devemos continuar comprometidos com a questão. Devemos fazer tudo que podemos, e estamos tentando.

Le Monde: Os críticos dizem que o balanço da política de "comprometimento" é fraco...
Slaughter:
Você não pode medir os resultados em dez meses! Veja Mianmar, nós anunciamos uma nova política há dois meses, apenas. Houve pequenos sinais. O regime infligiu a Aung San Suu Kyi a pena mais leve. Claro, preferíamos que ela não tivesse sido condenada, nem mesmo acusada. Mas os progressos diplomáticos muitas vezes são medidos em pequenos gestos.

Sobre o Irã, uma proposta foi apresentada. Os iranianos obviamente estão se debatendo com ela. Se essa proposta der certo, isso vai mudar o espaço para outras negociações. Levando em conta todos os acontecimentos produzidos no Irã desde que anunciamos nossa política, não está nada mal.

Le Monde: Como evitar a legitimação de regimes autoritários?
Slaughter:
A resposta está na escolha fundamental da administração. Essa administração é pragmática. Não quer dizer que ela não se preocupe com valores universais. Mas ela quer resultados. E ela não pensa que se obtêm resultados recusando-se a sujar as mãos, ficando à parte, em uma linha "ideologicamente pura".

O simples fato de falar com um outro governo não quer dizer que você aprova tudo que ele faz. Quando Hillary Clinton foi para a China, ela disse: vamos trabalhar na mudança climática e na economia, é imprescindível, não vamos deixar os direitos humanos interferirem nesse esforço. Mas isso não quer dizer que não nos preocupamos com os direitos humanos na China. Tomamos outras iniciativas para passar a mensagem, tanto privadamente como no Conselho dos direitos humanos.

Le Monde: A administração Obama considera o mundo multipolar?
Slaughter:
Não estamos mais no tempo em que o fato de Jacques Chirac falar em mundo multipolar era visto como um desafio para os Estados Unidos. Está claro que o poder se difunde entre atores estatais e não-estatais. Mas não se pode dizer que o mundo é multipolar. Seria preciso que houvesse não somente centros de poder diferentes, mas que cada um desses centros possuísse sua própria esfera de influência, e que estivessem em competição uns com os outros. Não é o mundo atual. E é um mundo que os Estados Unidos querem impedir que se desenvolva. É por isso que Hillary Clinton propôs um mundo de multiparcerias, em vez de um mundo multipolar.

Le Monde: Como a senhora vê o papel dos Estados Unidos?
Slaughter:
Na condição de líder global, nós devemos levar essas múltiplas potências a trabalharem juntas para solucionar os problemas coletivos. E não devemos temer que outros países tomem a direção das operações. Os problemas são grandes demais. Quando a Rússia invadiu a Geórgia, (Nicolas) Sarkozy foi o primeiro a ir até o local, na condição de presidente da União Europeia. Foi algo bom. A crise estava no lado da Europa. Nem sempre precisamos sentir que estamos à frente para dirigir.

Sempre tivemos a primeira economia do mundo, e o maior exército, ainda que o fosso entre nós e os outros países tenha diminuído. Mas no século 21, nossa potência está fundada sobre outros elementos. Alguns países não gostam de nós, mas eles detestam ainda mais um outro Estado. Somos vistos como um intermediário mais honesto ou uma potência mais benevolente do que outras que poderiam exercer o papel que exercemos. Também temos uma capacidade extraordinária para reunir, para conectar e para catalisar a ação. O G20 é um bom exemplo. Ou a pirataria no oceano Índico. Nossa potência nos permite estabelecer conexões entre diferentes países, às vezes muito distantes, mas que têm coisas para dar em troca. Enfrentamos ameaças globais: nosso poder reside em nossa capacidade em ajudar a resolver esses problemas, reunindo as outras nações.

Le Monde: Qual é o lugar da Europa?
Slaughter:
O leque de possibilidades de parcerias é enorme. Estamos alinhados muito estreitamente em nossos objetivos. Mas cabe à "Europa pós-Lisboa" colocar sua casa em ordem, de uma maneira que nos permita sermos parceiros eficazes. Nos próximos meses, as escolhas que a Europa fizer serão muito importantes.

Tradução: Lana Lim

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