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07/11/2009

"Em 1989, a história desembestou", diz Mikhail Gorbachev

Le Monde
Entrevista concedida a Daniel Vernet
Aos 78 anos, Mikhail Gorbachev continua a percorrer o mundo por causa de sua fundação, que tem sede em Moscou, na Rússia. Ele também é presidente da World Political Forum, uma organização com base em Turim e mantida por coletividades locais italianas. No ex-presidente soviético há uma mistura de orgulho por ter sido responsável pelas reformas que abalaram a Europa, e de lamentação pelo fim da URSS, que ele teve de ratificar em 25 de dezembro de 1991.

Ele continua certo de que dois objetivos contraditórios - o restabelecimento da soberania dos povos e a preservação da URSS - eram compatíveis. Entretanto ele pensa que, nos tumultos que marcaram o fim da guerra fria, o positivo prevaleceu sobre o negativo.

Le Monde - Quando o senhor pensa no ano de 1989, quais são as imagens, as lembranças, que lhe vêm espontaneamente à cabeça?
Mikhail Gorbachev -
Para mim foi o início da realização de meu projeto mais importante, a reforma política. O Congresso de Deputados havia sido eleito no mês de maio sobre novas bases. Era a primeira vez que havia eleições livres na Rússia. Somente esse fato marcava o início da primavera política. Em seguida, tivemos de constituir o Parlamento e o novo governo. Era um verdadeiro teatro político, aberto diante do povo, e ninguém mais podia voltar atrás. Para mim era o resultado da parte triunfal da Perestroika. Depois, em 1990, começou a parte mais dramática.

Le Monde - Falemos sobre a situação internacional, na Europa em particular, e a queda do muro de Berlim...
Gorbachev -
Evidentemente, vivíamos transformações formidáveis. Em junho de 1989, eu estava em visita oficial na Alemanha Ocidental. Fui recebido de maneira muito calorosa, entusiasmada. Então, começaram a me fazer a pergunta abertamente: para quando é a reunificação da Alemanha? O chanceler Helmut Kohl e eu estávamos preparados para dizer que era evidente que esse problema deveria ser resolvido um dia, mas que não era da atualidade. Era mais um problema para o século 21. Nesse ponto, Helmut e eu estávamos de acordo.

Le Monde - Nesse ponto, o senhor também estava de acordo com François Mitterrand?
Gorbachev -
Sim. E devo lhe dizer que todos meus amigos políticos, todos meus parceiros, eram partidários de um processo mais longo. François Mitterrand era favorável a uma espécie de confederação que poderia se fundar sobre dois pilares, a Comunidade Europeia no Oeste, e a Europa Oriental, reformada pela perestroika. Ele estava de acordo comigo para dizer que a Europa devia respirar com seus dois pulmões. Então cada um de nós fazia, à sua maneira, tentativas de prever a História. E todos nós nos enganamos.

Le Monde - A História saiu dos trilhos?
Gorbachev -
Totalmente. A História desembestou. Em 9 de novembro, foi o Muro que se abriu, e depois, foi um turbilhão incontrolável. A História transbordou. Tínhamos consciência de que nossa política, a política em geral, era incapaz de acompanhar o processo histórico. Ao mesmo tempo, o outono de 1989 viu acontecerem as "revoluções de veludo" na Europa Oriental. Um processo ao mesmo tempo muito promissor e que continha perigos inéditos. De qualquer forma, era a natureza da História. Porque as mudanças na Europa Oriental e a redescoberta da soberania total por esses países levaram a mudanças importantes para o conjunto da Europa. Para mim, era o momento em que era preciso recomeçar a refletir sobre a construção da casa comum europeia.

Isso não funcionou porque, acredito, a Europa Ocidental e os americanos consideraram que era preciso interpretar todos esses acontecimentos como a falência do comunismo e a derrota da Rússia na Guerra Fria. Que era o triunfo dos valores do mundo ocidental. Para mim, é isso que explica o comportamento de meus amigos ocidentais, que eu classificaria como imprudente. Isso provocou a derrapagem de todo o processo, e foram necessários tempo e esforços para sair desse caos. Esse foi o ano de 1989. Esse ano definiu as bases do que veio a seguir.

Le Monde - A respeito da reunificação alemã: em que momento o senhor teve certeza de que a reunificação era inevitável?
Gorbachev -
Já em outubro de 1989, no momento do 40º aniversário da RDA [República Democrática da Alemanha]. Uma grande manifestação havia sido organizada para esse aniversário. Em Berlim Oriental houve um desfile impressionante no qual estavam representadas todas as regiões da RDA. E eu via que os participantes procuravam se dirigir diretamente a mim: "Ajude-nos, ajude-nos!"

Le Monde - Um historiador americano escreveu que o senhor foi o primeiro e único dirigente soviético a ser popular tanto em Bonn quanto em Berlim Oriental, e também em Pequim, durante as manifestações estudantis da primavera de 1989...
Gorbachev:
Sim, é verdade.

Le Monde - Mais popular, de qualquer forma, do que o governo da Alemanha Oriental...
Gorbachev -
Para o 40º aniversário da RDA, Mieczyslaw Rakovski, o premiê polonês, estava na tribuna com o general Jaruzelski, bem atrás de mim. Ele falou em meu ouvido: "Mikhail Serguêievitch, você entende alemão? - O suficiente para entender o que os manifestantes proferem", eu disse. Rakovski: "Você entende que é o fim?" Pronto, foi assim. Em compensação, Erich Honecker (chefe do partido alemão-oriental) se comportava como se não entendesse mais nada. Ele cantava, estava disposto a dividir conosco esse entusiasmo artificial. Eu até tinha boas relações com ele. Mas toda vez ele me explicava que, talvez para a União Soviética a perestroika fosse algo de necessário, ao passo que na RDA as reformas já haviam sido feitas. Não eram necessárias mais mudanças. Quando encontrei toda a direção alemã-oriental, eu disse: aquele que chega tarde demais é punido pela vida. É verdade que para confirmá-lo eu me servia de meus próprios exemplos, do exemplo da URSS. Em seguida, evidentemente, entendi que a frase havia sido retirada de seu contexto, e que eu anunciava o fim da RDA.

No que diz respeito à reunificação, considerávamos fórmulas diferentes, por exemplo, a união monetária, uma confederação, etc. Em meados de dezembro de 1989, o novo chefe do governo da Alemanha Oriental, Hans Modrow, me ligou para dizer: não há mais outras variantes, só nos resta a unificação.

Eu tinha contatos regulares com os alemães ocidentais, com Hans Dietrich Genscher, o ministro das Relações Exteriores. Esses contatos eram essenciais. Uma vez passadas as festas de fim de ano, viam-se por toda a Alemanha manifestações em massa. Para mim, era o sinal de que era imprescindível mudar de política. Em 26 de janeiro de 1990, organizei uma espécie de seminário da direção da URSS para examinar as informações e os relatórios sobre todos os aspectos da questão alemã e da situação na RDA. Chegamos à conclusão de que era o momento de mudar de política e de levar em consideração as aspirações alemãs para a reunificação.

Le Monde - O senhor pode contar como se desenrolou o encontro de Kiev com François Mitterrand, em dezembro de 1989?
Gorbachev -
Os acontecimentos na Alemanha preocupavam bastante François Mitterrand. Ele queria me sondar a respeito de minha avaliação da situação. Ele estava incerto quanto à sequência dos acontecimentos, mas pensava que não estavam indo bem. A atitude de François Mitterrand podia ser resumida com a famosa frase (atribuída ao escritor François Mauriac): "gostamos tanto da Alemanha que preferimos ter duas dela". Era ainda mais evidente para (a primeira-ministra britânica) Margaret Thatcher: na época, ela era agressivamente hostil à unificação da Alemanha. Mas, apesar de tudo, François Mitterrand e Margaret Thatcher deviam levar em conta as realidades e o fato de que o processo de reunificação estava em andamento. Eu sabia que Helmut Kohl estava em contato permanente com George Bush.

Finalmente, a solução encontrada para acompanhar esse processo era a fórmula "2+4": os dois Estados alemães e as quatro potências vitoriosas do Reich em 1945. Apresentamos claramente nossa posição: os alemães são livres para escolher eles mesmos as modalidades de seus acordos entre si. Mas no que diz respeito aos aspectos exteriores da reunificação, estes devem ser integrados em um acordo internacional. As questões territoriais, as fronteiras, tudo isso devia ser resolvido antes que a Alemanha se tornasse totalmente soberana.

Le Monde - O senhor fez alusão aos contatos estreitos entre o chanceler alemão e o presidente americano. O senhor tem a impressão de ter sido enganado por Helmut Kohl?
Gorbachev -
Eu diria que ele tinha uma atitude ambígua. Tinha a impressão de que estávamos de acordo em cada etapa, de que havíamos nos entendido para não impedir os alemães de entrarem em acordo entre si, ao passo que o conjunto dos aspectos exteriores devia ser tratado nos consultando.

Mas nem tudo se passou assim. Não se pode esquecer que deveriam acontecer eleições na Alemanha Oriental. Helmut Kohl, depois de ver as grandes manifestações em Berlim Oriental e nas outras cidades alemães orientais, se esqueceu um pouco de seus comprometimentos. Ele soltou seu plano de dez pontos, sem nem consultar seu ministro de Relações Exteriores. Kohl agia em função dos interesses de seu próprio partido para garantir sucesso político para si. Mas, como um todo, os alemães se comportaram de maneira correta. Sobretudo no que diz respeito ao exército soviético, que permanecia na RDA. Eles cumpriram todas suas promessas, inclusive o abandono das armas de destruição em massa por parte da Alemanha. Todas as promessas, com exceção de uma: quando começou o processo de desintegração do pacto de Varsóvia, os ocidentais se puseram a estender a Otan para o Leste. Sob Clinton e Ieltsin.

Le Monde - No que diz respeito à entrada da Alemanha reunificada na Otan, o senhor havia entrado em acordo com Helmut Kohl, durante sua visita ao Cáucaso, em julho de 1990.
Gorbachev -
Eu já havia dito a Bush que a Alemanha reunificada tinha o direito de escolher suas alianças. "Por que você tem tanto medo da Alemanha?", me perguntou o presidente americano. Eu lhe respondi que era ele que tinha medo, e que era por isso que eles preferiam tê-lo dentro da Otan. Segundo a famosa frase sobre o papel da Aliança Atlântica: "To keep the Russians out, the Americans in and the Germans down" ("Manter os russos fora, os americanos dentro, e os alemães por baixo").

Le Monde - O senhor acreditava que era melhor ter a Alemanha em uma aliança, mesmo a Aliança Atlântica, do que vê-la oscilando para o centro da Europa?
Gorbachev -
Não, minha posição não era essa. Havíamos dado nosso consentimento para que a Alemanha reunificada decidisse por si mesma, uma vez recuperada sua soberania. Mas eu diria que, no final, havia uma espécie de cumplicidade entre Kohl e Bush.

Le Monde - No conjunto, que balanço o senhor faria desse ano de 1989? A Europa se libertou, muros caíram...
Gorbachev -
Eu não falaria em acontecimentos positivos, mas sim de grandes acontecimentos. Eu colocaria em primeiro lugar as primeiras eleições livres na União Soviética. Depois, as "revoluções de veludo" nos Estados da Europa Oriental. Elas têm uma importância capital. Foi isso que encorajou os alemães para o caminho da unificação e que, portanto, levou à queda do Muro e à reunificação alemã. O próximo passo mais lógico é que durante nosso encontro em Malta (em dezembro de 1989) dissemos para Bush: não somos mais inimigos, a guerra fria terminou.

Le Monde - Uma declaração um pouco prematura?
Gorbachev -
Evidentemente. Talvez devêssemos ter evitado começar a Guerra Fria, ou tê-la terminado mais cedo. Mas imagine o que teria acontecido se tivéssemos mantido sem mudança nossa política em relação à Alemanha, se tivéssemos continuado a manter uma certa desconfiança em relação à nação alemã? Em uma Europa liberta, não tínhamos nenhuma razão para continuar uma política de discriminação em relação à Alemanha. Eu diria que o fio condutor de todos esses acontecimentos foi o restabelecimento da soberania dos povos.

Le Monde - E o aspecto negativo?
Gorbachev -
O negativo não está associado ao ano de 1989, mas sim ao que veio na sequência. É verdade que houve acontecimentos que poderíamos considerar negativos, mas eles eram secundários. Mesmo quando uma cozinheira prepara o bortsch, o prato nacional russo, ela pode se enganar na dose do tempero.

Tradução: Lana Lim

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