UOL Notícias Internacional
 

09/11/2009

Um muro depois do outro

Le Monde
Caroline Fourest
O entusiasmo em torno da comemoração da queda do Muro de Berlim poderia transmitir a ideia de uma certa unanimidade. Essa ilusão mascara divisões profundas, políticas e geracionais.

Aqueles que se engajaram quando o Muro ainda estava de pé não pensavam que o veriam cair. Eles escreveram para denunciar a tendência totalitária do regime soviético, sem saber se seriam vitoriosos. Mesmo enfrentando a raiva dos companheiros de estrada, donos de um fanatismo disfarçado de progresso: "traidores sociais!", "inimigos do povo!", "aliados da América!".

Críticas de intenção e críticas de Moscou dividiram os pesquisadores, os escritores, os intelectuais... O debate público ainda leva os estigmas disso. Cada posição continua sendo vista em relação a essa guerra de trincheiras, ganha por uns, perdida por outros. A comemoração da queda do Muro celebra os vencedores, como todas as comemorações. Os perdedores se calam. Por quanto tempo?

A unanimidade pode se desintegrar. Agora, alguns já tentam explicar em voz baixa que a versão dos vencedores não corresponde à realidade, necessariamente mais complexa. A vida era tão ruim na RDA: a educação era garantida para todos, as calçadas eram limpas, as pessoas não eram obcecadas pela busca do lucro. Ah, é claro, a educação era apenas propaganda, as ruas estavam cheias de gente que só pensava em fugir, os esportistas se dopavam para ganhar, e todos só pensávamos em produzir... Mas o que dizer do mundo que nos foi proposto pelos "amigos da América" depois da queda do Muro? Um mundo livre, é claro, mas selvagem: obcecado pelo dinheiro, financiarizado até a medula, onde o interesse geral foi sacrificado no altar do interesse privado. É este o horizonte radiante esperado?

Claro que não. Essa versão da história comporta uma fraude: fazer crer que o antitotalitarismo conduz obrigatoriamente ao ultraliberalismo, ao passo que os dois podem e devem ser dissociados. Nos próximos anos, o objetivo dos "revisionistas" da Guerra Fria será continuar a propagar esta amálgama. Os que viveram e sofreram os danos do stalinismo não se arriscam a cair nessa, mas o que será das gerações seguintes?

Os militantes de amanhã se engajaram depois da queda do Muro. Esta geração só conhece o mundo dos vencedores: um mundo livre, onde os direitos civis e políticos são muito avançados, mas onde persistem desigualdades extraordinárias. Eles aprendem a se formar reagindo à queda de outro muro: o muro de ilusão mantido pelos ultraliberais. A mão invisível do mercado deveria nos trazer a paz e a prosperidade...

Essa geração abre os olhos para um mundo em guerra e em crise. Ela não compreende necessariamente o excesso de celebrações em torno do dia 9 de novembro. Ela poderia até mesmo se irritar com o triunfalismo imperante, ao ponto de dar ouvidos à versão dos vencidos. E crer, por sua vez, que o progresso supõe resistir aos antitotalitaristas... uma vez que eles são, sem dúvida, liberais abomináveis!

Portanto, as duas frentes estão hoje bem dissociadas. Uma diz respeito ao risco totalitário e seu ressurgimento sob uma forma teocrática. Especialmente no Irã, onde os democratas continuam a desafiar todos os dias um poder cercado de certezas. A outra diz respeito à crise da ilusão ultraliberal.

Acreditar que a crítica ao totalitarismo está necessariamente ligada ao ultraliberalismo, leva a recusar a solidariedade aos democratas iranianos por conta de uma postura anticapitalista. Por outro lado, o medo de um progressismo complacente em relação ao novo perigo totalitário que é o islamismo não deve servir de pretexto: nem para colocar todos os altermundialistas no mesmo saco nem para negar os danos do ultraliberalismo. Longe de uma guerra de trincheiras estéril, a urgência é de combater ao mesmo tempo o totalitarismo de uns e a selvageria de outros.


Tradução: Eloise De Vylder

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