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10/11/2009

Iêmen: a guerra na fronteira saudita se intensifica

Le Monde
Gilles Paris Enviado especial a Sanaa (Iêmen)
Raros retratos de soldados, shahides (mártires) mortos em combate, afixados na traseira dos carros, breves rugidos dos MIG-21 de partida para as posições dos rebeldes, alguns pontos de controle militares instalados na noite que cai sobre os principais eixos da cidade, a guerra do Norte se faz discreta em Sanaa. As portas fechadas impostas pelas autoridades iemenitas, que proíbem em nome da segurança o acesso às províncias montanhosas fronteiriças da Arábia Saudita que ela tem como palco, continuam a fazer seu papel.

Quatro anos após seu início na região de Saada, essa guerra entrecortada de tréguas só se intensifica. Ela ameaça gangrenar um Estado cuja população, armada em massa por tradição, consta entre as mais pobres do mundo, e onde um poderoso sistema tribal continua a desafiar o poder central encarnado pelo presidente Ali Abdallah Saleh.

Em 4 de novembro, os combates reiniciados em meados de agosto se estenderam, pela primeira vez, para território saudita. Acusados de terem atacado uma patrulha e matado um soldado no decorrer de uma incursão para além da fronteira, os fiéis do chefe rebelde Abdel Malik al-Huti foram alvo de uma ofensiva do exército do poderoso vizinho. Uma escalada que só oficializa o apoio da Arábia Saudita ao presidente Saleh. A rebelião hutie denuncia há muito tempo a autorização cedida aos caça-bombardeiros iemenitas para utilizarem o espaço aéreo do reino na tentativa de atacá-la de surpresa.

No sábado (7), o presidente iemenita, adepto das frases curtas e grossas, se comprometeu a acabar com os rebeldes o mais rápido possível, afirmando que as operações militares conduzidas no decorrer das cinco fases precedentes não passavam de um "aquecimento".

"Cercar os rebeldes"
Enérgico e sóbrio, o vice-premiê encarregado do setor estratégico da segurança, Rashad al-Aleimi, em seu austero gabinete no centro da capital iemenita, se mostra mais prudente. "Precisaremos de tempo, o objetivo é cercar os rebeldes, impedir seu reabastecimento der armas, enfraquecê-los a ponto de serem obrigados a parar", ele garante. "Nós queremos a paz, mas eles sempre recusaram a conciliação". Para o vice-premiê, não há dúvidas de que a rebelião hutie "tem uma agenda iraniana". "O que ela quer", ele diz, "é conseguir para si um território entre os sauditas e nós, com acesso ao mar, exatamente como o Hezbollah libanês", em uma zona particularmente estratégica que permitiria estender a influência iraniana no Oriente Médio.

Uma forte minoria xiita

Zaidismo: Escola de pensamento xiita adotada por cerca de 30% dos iemenitas, e que originou os huties. Não são todos os zaiditas que apóiam o movimento hutie, a começar pelo presidente Ali Abdallah Saleh.

Shafismo: Escola de jurisprudência sunita historicamente majoritária
no Iêmen, que compete com
um surto fundamentalista salafista.

Jaafarismo ou xiismo duodecimano: Principal
corrente do xiismo (majoritário
no Irã e no Iraque).



Ainda que as autoridades tenham dado grande importância, em 26 de outubro, à inspeção no mar Vermelho de um navio iraniano carregado de armas destinadas aos rebeldes, segundo elas, Aleimi garante não dispor de elementos que permitam acusar Teerã diretamente. Em compensação, nos círculos do poder, alguns afirmam ter certeza da presença de huties nos campos de treinamento do Hezbollah, em especial durante a guerra contra Israel no verão de 2006.

Entretanto, não se tratava nem de Riad nem de Teerã em 2005, quando houve a tentativa de prisão de um ex-deputado influente, Hussein al-Huti, que desencadeou a guerra de Saada. Este último era então acusado de alimentar tensões confessionais entre a comunidade zaidita de onde era originário (uma forma particular do xiismo) e uma corrente salafista que ele considerava agressiva e encorajada pelo governo. O presidente Saleh também estava cansado dos bordões hostis aos Estados Unidos e a Israel entoados pelos huties.

Um alto dirigente iemenita, saído de uma grande família do país e que fala sob anonimato, considera justificada a tese segundo a qual Hussein Al-Huti visava a restauração de um poder ao mesmo tempo político e espiritual milenar, o imamato, derrubado nos anos 1960 com a instauração da república no Iêmen do Norte. Após a morte em combate de Hussein, em 2005, a tocha foi passada para seu irmão Abdel Malik, e a guerra do Norte foi enquistada.

A perpetuação de combates cada vez mais destrutivos e sua extensão às províncias próximas das de Saada fazem com que a guerra pareça agora alimentada por sua própria dinâmica, nutrida por uma soma de interesses convergentes. Para começar, as dissensões entre duas grandes confederações tribais, os Bakil e os Hashid, esses últimos sendo tradicionalmente próximos do governo. Depois, a escalada de uma economia de guerra, com uma dimensão às vezes estranha, uma vez que um dos mais importantes dos inúmeros comerciantes de armas do Iêmen, Fares Manna, figura entre as personalidades encarregadas das mediações entre os huties e as autoridades.

Alto dirigente de um partido zaidita, o Partido do Direito, Hassan Zeid, em seu mafraj (sala) no centro da antiga cidade de Sanaa, considera afinal que se os huties "lutam para se defender porque é seu único meio de sobrevivência", a guerra permite consequentemente ao presidente que enfraqueça o dirigente militar da região Norte, o poderoso Ali Mohsen al-Ahmar, em benefício de seu próprio filho Ali Ahmad, chefe das forças especiais e da guarda republicana, a quem promete um futuro brilhante.

Para o professor de ciências políticas Mohammed Abdel Malek al-Moutawakil, militante de direitos humanos próximo da oposição, a guerra do Norte é antes de tudo um sintoma, o da deriva de "uma cultura autoritária concentrada na pessoa do presidente". Um sentimento compartilhado por alguns dignitários, entretanto muito hostis à rebelião hutie, que se preocupam tanto com as tensões registradas há meses no sul do país, ex-bastião socialista, quanto com o anúncio da reestruturação no Iêmen, no início do ano, pela organização "Al-Qaeda na Península Arábica".

Tradução: Lana Lim

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