UOL Notícias Internacional
 

11/11/2009

Na Venezuela, a ausência de investimentos na infraestrutura agrava a estagnação

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
Apesar da recuperação do preço do barril de petróleo, a crise na Venezuela volta a se agravar. O PIB (Produto Interno Bruto) registrou um recuo de 2,4% no segundo trimestre, após seis anos de crescimento. Além do aumento da insegurança, os venezuelanos agora sofrem com os cortes de energia, com a falta de água e com a falência da saúde pública.

Para o presidente Hugo Chávez, no poder há onze anos, a estratégia que consiste em jogar a responsabilidade sobre os governos anteriores não é mais sustentável. Então o chefe do Estado voltou a seu argumento preferido, as desigualdades sociais. Segundo ele, a água que falta nos bairros pobres de Caracas "enche as piscinas dos ricos". E os grandes centros comerciais ganhariam com o preço da eletricidade, congelado por razões sociais, em vez de produzir sua própria energia.

  • AFP - 9.nov.2009

    Chávez diz que um banho de três minutos é suficiente; país sofre com falta de energia



Chávez reagiu criando mais um ministério para cuidar da energia, e esbanjando conselhos contra o desperdício para a população. Em sua opinião, três minutos bastam para a ducha: "Eu mesmo contei, três minutos, e não cheiro mal", ele explicou durante uma de suas prestações diárias na televisão. Norberto Bausson, presidente do Instituto Municipal de Águas de Sucre, em Caracas, conquistado pela oposição em 2008, ressalta "o abandono da infraestrutura" e "a ausência de investimentos na rede de distribuição, que não foi adaptada ao aumento da população". Quanto às empresas de energia, elas foram pegas no turbilhão das nacionalizações de Chávez, que acabam de atingir o Hotel Hilton de Isla Margarita e o café, sem que os serviços ou o abastecimento melhorem.

Estado de emergência
Quando o programa de primeiros-socorros dispensado por cubanos estava no centro da política social de Chávez em 2003, o governo foi obrigado a decretar "estado de emergência" na saúde pública. Ele mesmo admite que 2.000 unidades de tratamentos do programa Barrio Adentro foram abandonadas, por falta de manutenção. Um novo contingente de 1.000 cubanos foi chamado em socorro para reavivar o sistema de cuidados.

O jornal "Ultimas Notícias", favorável ao governo, continua a apontar o dedo para os hospitais públicos que não têm condições de tratar ou operar os doentes, ou até mesmo de realizar um parto. "Nossos hospitais estão em mau estado, os serviços de emergência são deficientes e faltam recursos", admitiu o deputado "chavista" Tirso Silva, ex-presidente da subcomissão de saúde na Assembleia Nacional.

O investimento "não corresponde" ao orçamento alocado à reabilitação dos hospitais, observa o Dr. Silva. Os créditos "se evaporam" sem resultados tangíveis após dois ou três anos. Aparentemente os desfalques ganham com "cumplicidades", diz o deputado.

As restrições de energia e de água e as insuficiências em matéria de saúde estão minando a confiança no governo Chávez. As eleições legislativas de setembro de 2010 poderão refletir a inversão da opinião pública expressa nas pesquisas.

Para estimular a economia, Caracas utiliza as reservas do Banco Central, joga com o regime de câmbio duplo, fonte de especulação e de enriquecimento ilícito, e aumenta a impressão de notas. Segundo Domingo Maza Zavala, ex-diretor do Banco Central, a inflação poderá atingir os 35% em 2010.

Tradução: Lana Lim

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