UOL Notícias Internacional
 

12/11/2009

Israel usa o celular para recrutar colaboradores palestinos em Gaza

Le Monde
Benjamin Barthe
Enviado especial a Gaza
Quando um habitante da Faixa de Gaza recebe uma chamada com a menção "número desconhecido" escrita na tela de seu celular, a prudência manda que ele não atenda. Há mais de um ano, o Shin Beth, serviço de inteligência israelense, conduz uma operação de recrutamento de colaboradores por meio de uma campanha maciça de chamadas telefônicas.

Quase todos os moradores de Gaza têm um amigo, um parente ou um colega que tenha sido alvo de telefonemas mais ou menos explícitos, em um árabe mais ou menos refinado. "É a nova técnica de abordagem dos israelenses", diz Fadi Hussein, pseudônimo de um ex-policial do Fatah que passou a atuar no tráfico de armas. "Eles ligam para todos os lugares porque o bloqueio de Gaza os priva de um contato direto com os palestinos".

Alguns meses atrás, Fadi recebeu uma oferta de serviços de um certo "Nidal". A princípio pensou tratar-se de um trote. Mas, quando ele ouviu seu interlocutor dedilhar em um teclado, e depois recitar os nomes de suas seis filhas e três filhos, Fadi ficou paralisado de medo. E entendeu. Com sua implantação no bairro de Shujaya, uma das fortalezas do Hamas situada à beira da fronteira, e seu conhecimento das gangues militares mafiosas de Gaza, ele é um alvo seleto para os especialistas do Shin Beth.

Mas Fadi é esperto. Após dois ou três telefonemas falsamente brincalhões, no fim dos quais "Nidal" lhe deu seu número de celular, ele desligou, trocou de chip e pediu a todos seus amigos que inundassem o agente não tão secreto com telefonemas. "Eles se puseram a insultá-lo ou a lhe propor que colaborasse com o braço armado do Hamas", conta Fadi. "Depois de alguns dias, ele desligou seu celular".

Com Abu Rashid, o Shin Beth teve mais sorte. No início de 2008, esse homem de trinta e poucos anos trabalhava durante o dia como aprendiz de dentista e à noite como miliciano da Jihad islâmica. Um dia, ele recebeu um telefonema de um certo "Abu Brahim". O homem explicou em um árabe perfeito que estava ligando "do outro lado" e conhecia as atividades clandestinas de seu interlocutor. Para tirar qualquer dúvida, ele recitou o organograma militar da Jihad e forneceu o número da carteira de identidade de Abu Rashid. Então ele lhe propôs que colaborasse. "Eu logo avisei a direção da Jihad islâmica, mas meus chefes me pediram para continuar, para saber mais sobre as técnicas do Shin Beth", jura Abu Rashid.

Após a terceira conversa, seguindo as indicações de seu recrutador israelense, ele resgatou um envelope contendo 1.000 shekels (cerca de R$ 514), escondido no banheiro de uma mesquita. "Eu o passei para meus chefes e pouco depois, de acordo com suas instruções", ele continua, "destruí o chip de meu telefone".

Abu Rashid é um agente duplo? A polícia do Hamas, autoridade da Faixa de Gaza, não acreditou nessa versão. Condenado a dez anos de prisão em setembro deste ano, o dentista-miliciano apodrece hoje em uma penitenciária construída pelos islamitas sobre as ruínas de uma antiga base militar do Fatah.

Na delegacia central de Gaza, Abu Omar, chefe de relações públicas, escuta esses relatos com um ar de quem conhece bem a situação. "Antes, os israelenses tinham muitas opções de colaboradores", ele diz. "Eles podiam chantagear os palestinos que quisessem uma permissão de trabalho em Israel, ou que precisassem fazer algum tratamento médico no exterior. Eles podiam também organizar reuniões discretas nas colônias. E os serviços de segurança do Fatah não hesitavam em lhes passar informações. Com o bloqueio e a tomada de poder do Hamas, esses contatos se romperam. É por isso que o Shin Beth aposta tanto no telefone e na internet".

É claro, as antigas organizações de recrutamento ainda funcionam, mesmo em ritmo lento. As ONGs israelenses de defesa dos direitos humanos dispõem de testemunhos de doentes a quem o Shin Beth prometeu uma hospitalização em Israel ou na Cisjordânia em troca de um pouco de "boa vontade".

Israel sempre negou recorrer a tais chantagens. Estudantes que foram admitidos em uma universidade estrangeira desistiram de viajar após descobrirem que teriam de se submeter a uma "entrevista" no terminal de Erez, o ponto de passagem para Israel. Foi o caso de dois bolsistas do ministério francês das Relações Exteriores, que finalmente puderam deixar Gaza passando por Rafah, a fronteira com o Egito.

Em reação a essa ameaça, o Hamas desenvolveu uma campanha de prevenção. Um panfleto, intitulado "A armadilha de Satã", é distribuído nas universidades e nas escolas. Já o site de busca pró-islâmico Al-Majd alerta, com base em testemunhos, contra os perigos das redes sociais como o Facebook e a influência desses correspondentes telefônicos amigáveis demais para serem honestos.

Uma das provas favoritas dos islamitas é a gravação de uma conversa entre um agente israelense e Abu Said, sobrenome de um chefe dos Comitês de Resistência Popular, um dos grupos envolvidos na captura do soldado franco-israelense Gilad Shalit.

A faixa de áudio, disponível no site do braço militar do Hamas, foi um dos "hits" da internet de Gaza. "O israelense falava árabe melhor do que eu", conta Abu Said, em Rafah. "Ele citava nomes e histórias para provar que controlava minha vida. Mas de que serve isso? Eles conseguiram libertar Shalit e derrubar o Hamas com suas informações secretas?"

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host