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20/11/2009

"Gênero fascista" nos antigos arquivos franceses

Le Monde
Thomas Wieder
Nunca se está livre de uma surpresa quando se vasculham antigos documentos. Isabelle Neuschwander, diretora dos Arquivos Nacionais, que o diga. Até há algumas semanas, ela ignorava que o famoso "armário de ferro", um cofre situado no coração do bairro de Marais, em Paris, onde estão guardados alguns dos documentos mais preciosos da história da França, escondia também um pedaço de cartolina desbotada cuja presença ninguém imaginaria em tal lugar: a ficha redigida pelos serviços de inteligência francesa, em 1924, a respeito de um certo Adolf Hitler...

Adolf, ou melhor, "Adolphe Jacob": na verdade é sob esse nome composto que está registrado aquele que os serviços de espionagem classificaram como "jornalista", em virtude de sua atividade no "Völkischer Beobachter", um jornal de Munique comprado pelos nazistas em 1920. Jacob, um nome aparentemente atribuído por engano, mas que sugere que talvez os "serviços" não fossem insensíveis ao rumor em voga na época - e desmentido desde então pelos historiadores - segundo o qual o futuro líder do 3º Reich teria origens judaicas.

Mas esse erro não era o único da ficha. De acordo com seu redator, Hitler teria nascido em 1880 - o que o envelheceria em nove anos . Uma outra inexatidão diz respeito ao seu local de nascimento: Passau, diz o documento, uma cidade da Baviera onde os Hitler de fato se instalaram, mas somente três anos depois da vinda ao mundo do pequeno Adolf, que na verdade nascera a cerca de 50 quilômetros de lá, em Braunauam-Inn, um vilarejo austríaco situado na fronteira com a Alemanha. Detalhe importante quando se sabe que a anexação ao 3º Reich de seu país natal - a Anschluss - seria, desde sua chegada ao poder, em 1933, uma das prioridades de sua política externa.

Pouco rigorosos quanto às origens daquele que eles apresentaram como o "Mussolini alemão", e cuja presença à frente de grupos paramilitares de "gênero fascista" eles denunciaram, os agentes encarregados de redigir sua ficha não se privaram de acrescentar aos dados factuais alguns julgamentos de valor. Revela-se, por exemplo, que Hitler "não é um imbecil, mas (...) um demagogo muito esperto". O que não quer dizer, entretanto, que sua capacidade de causar danos fosse considerada alarmante.

Evocando sua "tentativa de golpe de Estado em 8 de novembro de 1923 contra o governo bávaro", o oficial francês lembrou que esta "fracassou lamentavelmente". Além disso, o dirigente do partido nazista não passaria, segundo ele, de "um instrumento de potências superiores": um julgamento que hoje sabemos ser errôneo, mas que corresponde à vulgata da época, que costumava fazer de Hitler a marionete do general Ludendorff, ex-número 2 das forças armadas alemãs durante a Primeira Guerra Mundial, e de quem o futuro chanceler se distanciou após o golpe fracassado de 1923.

Por que essa ficha, do tamanho de meia folha A4, foi guardada no armário de ferro? Desde quando ela se juntou ao juramento do Jeu de Paume, à placa de cobre que serviu para imprimir a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, à última carta de Maria Antonieta, ao testamento de Napoleão Bonaparte, às diferentes Constituições da França, ou ainda ao diário de Luís 16, no qual o rei rabiscou a palavra "Nada" no dia 14 de julho de 1789?

A direção dos Arquivos Nacionais não parece conseguir responder essas questões. A ficha de Hitler aterrissou ali há dez, vinte anos? As hipóteses variam de acordo com os interlocutores. Além disso, ainda que às vezes ela seja mostrada aos raros visitantes que têm o privilégio de ver aberto esse sarcófago metálico de 2 metros de altura, construído em 1791 e escondido atrás de pesadas portas de madeira nesse lugar de impressionante majestade que são os "grandes depósitos" dos Arquivos Nacionais, sua presença aqui não é muito divulgada.

O belo livro editado em 2008 pela instituição, na ocasião de seu bicentenário, não faz referência a ela, e seu site na internet ( http://www.archivesnationales.culture.gouv.fr/) também não. "Essa ficha não tem vocação para ficar no armário de ferro, que deve continuar sendo um lugar onde só são conservadas peças realmente prestigiosas", afirma Isabelle Neuschwander, que explica que o documento voltará daqui a alguns meses para a coleção à qual pertencia originalmente.

Enquanto 2012 não chega, data na qual os Arquivos Nacionais devem se mudar para Pierrefitte-sur-Seine (Seine-Saint-Denis), é a algumas dezenas de metros do armário de ferro, nos "depósitos" da mansão de Rohan, uma magnífica moradia do século 18 transformada nos anos 1920 em depósito de arquivos, depois de ter abrigado durante décadas a Imprimerie Nationale [gráfica nacional da França], que essa coleção é armazenada.

Dividida entre 6.600 caixas amontoadas sobre mais de 730 metros de prateleiras, essa massa de documentos faz parte dos tesouros desconhecidos dos Arquivos Nacionais. Em processo de inventariado - quatro anos de trabalho no total, realizado em parceria com o Instituto Histórico alemão, e cuja conclusão está prevista para novembro de 2010 - , eles constituem uma mina de informações para os pesquisadores que se interessam pela história da Alemanha e pelas relações franco-alemãs durante o período entre guerras.

É em uma sala estreita e de pé-direito baixo, que não deve ser pintada há tempos, que Michèle Conchon, conservador-chefe da seção do século 20, nos conta a história dessas pilhas de papel empoeiradas. "Trata-se de arquivos da Alta Comissão Interaliada dos Territórios do Reno, o organismo criado no dia seguinte ao Tratado de Versalhes (1919) para administrar a parte da Alemanha ocupada pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial". Composta por belgas, britânicos e franceses, a Alta Comissão foi presidida pela França. O que explica que seus arquivos tenham sido repatriados para Paris assim que foi dissolvida, em 1930.

"Você não imagina o que se pode encontrar aqui", continua Michèle Conchon que, apaixonado pelo assunto, explica que é possível encontrar "histórias de pombos-correios", volumosos dossiês sobre as "grandes questões econômicas", documentos sobre a forma como os ocupantes franceses tentaram se aproximar da população alemã (em especial pela promoção de sua língua e sua cultura), e sobretudo uma "quantidade considerável de papéis" que mostram o estreito trabalho de vigilância efetuado pelo Serviço de Segurança. Nesse ponto, o arquivista é formal: "Fichavam todo mundo!"

Classificadas por ordem alfabética, são milhares de fichas que convivem em caixas forradas de couro. Manuscritas, às vezes acompanhadas de uma foto, elas comportam duas seções distintas: uma dedicada aos dados factuais sobre o indivíduo "a vigiar", a outra composta por marcações indecifráveis por um leigo, mas que na verdade remete a questões mais importantes.

De Hitler a Goering, "procurado pelas autoridades alemãs por cumplicidade de alta traição", passando por Goebbels, designado como "membro influente do Partido Nazista", ou Himmler, classificado simplesmente como "racista", a maior parte dos futuros poderosos do 3º Reich era merecedora de seus dossiês. Um mergulho nessas pastas amareladas dá uma ideia do que preocupava as autoridades da ocupação.

Ali encontra-se, por exemplo, um certo Dr. Niessen, "domiciliado em Colônia" e suspeito de "se entregar abertamente a uma propaganda nacionalista pela distribuição gratuita ou pela venda de fotografias de Hitler e de poesias assinadas em seu nome"- as quais foram cuidadosamente traduzidas para o francês. Descobre-se também, em uma carta destinada a "Sua Excelência Édouard Herriot, presidente do conselho e ministro das Relações Exteriores", como a França tentou se infiltrar no movimento nazista. Em julho de 1924, o alto-comissário Paul Tirard detalhou as "interessantes descobertas" feitas por seus serviços a respeito de uma "escola de treinamento militar" situada em Darmstadt. Ali se pode ler, entre outras coisas, que "um dos alunos que foi identificado de forma precisa pela Segurança declarou que existia na escola da organização de Hitler (...) um grande estoque de uniformes, de revólveres novos e alguns fuzis", e que "cada aluno possuía dois ou três cassetetes de borracha".

Ainda que os nazistas fossem objeto de vigilância contínua, o que mostram o grande número de excertos de jornais traduzidos para o francês e relatórios que descrevem a "falsa agitação que (o partido) se esforça para manter", sua "hostilidade resoluta por nós", ou seu envolvimento nas "incontáveis lutas muitas vezes sangrentas ", os partidários de Hitler estavam longe de ser os únicos a preocuparem as autoridades francesas. Tanto à direita como à esquerda, parece, na verdade, que nenhum movimento político escapou da vigilância dos oficiais franceses.

Uma ficha especialmente divertida, nesse sentido, é a de Konrad Adenauer. Na época, prefeito de Colônia, esse "centrista amigo da ordem (e) protetor da classe média" foi alvo de comentários pouco amenos. Ainda que os serviços tenham entendido que seus apelos por uma autonomia da Renânia não faziam dele um "separatista", o futuro chanceler da Alemanha federal foi considerado "suspeito do ponto de vista de seus sentimentos". "Caráter frio", "falso modesto (...) se passando por homem simples", "competente, mas de espírito subalterno": é difícil imaginar, lendo esse retrato, que esse homem descrito em meados dos anos 1920 como "muito hostil à França", seria, trinta anos mais tarde, um dos arquitetos da reconciliação franco-alemã.

Tradução: Lana Lim

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