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20/11/2009

Homem é condenado à morte na Arábia Saudita por fazer adivinhações no Líbano

Le Monde
Cécile Hennion
Enviada especial a Al-Ain (Vale do Bekaa)
Condenado à morte por "feitiçaria", Ali, cidadão libanês de 46 anos, só tem mais alguns dias de vida no fundo de um presídio distante da Arábia Saudita. No Líbano, sua família entrou em choque diante da sentença, "desmesurada, incompreensível", e tenta desesperadamente encontrar um sentido no quadro apavorante que levou Ali para o pé do cadafalso. Originário de Al-Ain, um vilarejo xiita ao norte do Líbano, Ali Hussein Sbat é casado e pai de quatro filhos.

Ele havia encontrado trabalho em Beirute, em uma pequena rede de televisão a cabo chamada "Sherazade", transmitida no Líbano e na região. Diante da câmera, ele recebia telefonemas de telespectadores a quem ele "previa" o futuro. Trabalho, saúde, amor, os problemas que lhe eram apresentados encontravam uma saída feliz ou uma palavra de incentivo.

Em 2008, a Sherazade fechou suas portas e Ali passou a trabalhar com plantas medicinais. Na primavera do mesmo ano, ele partiu em peregrinação pelos lugares santos xiitas, no Irã, e depois na Arábia Saudita, em direção a Meca. Em 7 de maio de 2008, ele fazia a sesta em um hotel de Madina Al-Munawara, última etapa antes de sua volta ao Líbano, quando a polícia de costumes saudita veio tirá-lo de sua cama. Ali desapareceu por algum tempo, antes de reaparecer na televisão saudita.

"Porque ele é xiita"
Ele foi filmado, com os pés e as mãos amarrados, "confessando" ter praticado "magia". O veredicto da corte de Madina Munawara foi dado em 9 de novembro de 2009. Ali Hussein Sbat foi considerado culpado de "feitiçaria", de "heresia", de insulto ao Islã e de violação da sharia (lei islâmica) por suas atividades televisionadas na Sherazade e condenado à pena de morte.

Como esse cidadão libanês, nunca tendo exercido sua atividade sobre solo saudita, pôde se encontrar em tal situação? "É porque ele se chama Ali", acredita seu irmão Mehdi. "Ele é xiita com um nome xiita e tinha um visto iraniano em seu passaporte". As tensões no Oriente Médio entre comunidades xiitas e sunitas seriam, segundo sua família, uma das explicações. Na Arábia Saudita, a queda-de-braço entre o rei Abdallah e algumas autoridades religiosas poderia ser outra delas. "De qualquer forma, é político", protestam os parentes do condenado.

Al-Ain, o vilarejo de Ali, se situa a 35 quilômetros de Baalbeck no vale de Bekaa. Nos muros, o rosto do aiatolá Khomeini vigia, severo, uma população devota e modesta. Entre montanhas, pequenos pomares e estradas esburacadas, o tempo parece ter parado. Mas, para os parentes e amigos de Ali, ele se transformou em uma contagem regressiva mortal. Eles tinham 30 dias para fazer a apelação do veredicto. Em 19 de novembro, já não restavam mais do que 20. "Olhamos na internet", conta Mehdi, o irmão. "As punições para atos de magia não ultrapassam penas de dez anos de prisão". "Uma mão cortada, talvez...", sugere o pai. Todos se sentem abandonados pelo deputado local que prometeu seu apoio no dia das eleições, em 12 de junho, mas que não se manifestou mais desde então, enquanto o embaixador do Líbano na Arábia Saudita ainda não visitou Ali na prisão.

Consultado, o xeque Abdel Amir Qabalan, mais alta autoridade religiosa xiita do Líbano, disse acreditar que as atividades de Ali constituíam "ajuda psicológica" para pessoas "sem esperança", e não "magia" ou outras atividades contrárias ao islamismo. A advogada libanesa May Khansa, conhecida por aceitar os casos dos mais desprivilegiados, denuncia um "processo sem advogado para um ato que se trata no máximo de fraude", as "torturas infligidas a Ali durante seu interrogatório" e o preço, "US$ 1 milhão, pedido pelos advogados sauditas" para entrar com um processo de apelação.

Esse estranho caso constrange as autoridades libanesas, elas mesmas divididas entre sunitas e xiitas, uma vez que a Arábia Saudita é um "padrinho" muito influente no Líbano. O ministro libanês da Justiça, Ibrahim Najjar, afirma ter feito "o necessário". Opositor declarado da pena de morte, ele explica estar incapacitado de se pronunciar sobre um caso que diz respeito a uma justiça estrangeira. "Respeito a justiça saudita e a sharia", ele ressalta, "mas como jurista, observo que a feitiçaria aqui é só um delito comum. Ninguém no Líbano pensaria em condenar à morte um vidente. Seria considerado ridículo".

Tradução: Lana Lim

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