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25/11/2009

Aspirações de grandeza do Brasil na diplomacia mundial justificam visita de Ahmadinejad

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro
Grande potência política em evolução e candidato a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil aspira a exercer um papel de primeiro plano no cenário internacional.

Foi em nome dessa ambição que seu presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, promotor de uma diplomacia abrangente, recebeu na segunda-feira (23), em visita oficial, seu colega iraniano Mahmoud Ahmadinejad, durante a primeira etapa de uma viagem sul-americana que em seguida o levará à Venezuela e à Bolívia.

As polêmicas de Mahmoud Ahmadinejad

  • AP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã.

    Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil.

    Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos, em parte devido a sanções internacionais.

    Ahmadinejad, 52, casado, pai de três filhos, ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas.

    Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos.

    Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.

Essa vontade brasileira de exibir uma política externa sem exclusividades chega na hora certa para o Irã. A única visita de Ahmadinejad ao Brasil, a primeira de um presidente iraniano desde a vinda do xá em 1965, alguns dias após a do presidente do Estado de Israel, Shimon Peres, é um sucesso para a República islâmica, que por sua vez receberá Lula no primeiro semestre de 2010.

Que o chefe do Estado iraniano visite seu aliado venezuelano, Hugo Chávez, e boliviano, Evo Morales, é algo lógico. Que ele tenha sido recebido, ainda que somente por um dia, no mais influente país da América Latina e tenha conversado, na segunda-feira, durante três horas com um dos dirigentes mais populares e mais respeitados do mundo, constitui uma boa operação para o regime de Teerã, diplomaticamente isolado na questão nuclear e em busca de legitimidade junto aos países do Sul.

Favorável ao diálogo entre o Irã e o Ocidente, e convencido de que tudo o que visa isolar Teerã é contraproducente, Lula mostrou prudência na segunda-feira. Ele encorajou seu convidado a "continuar os contatos com os países interessados (as grandes potências) para uma solução justa e equilibrada da questão nuclear".

Ele reafirmou o direito do Irã de desenvolver "a energia nuclear com fins pacíficos, em respeito total aos acordos internacionais", mas, constatando que "a não-proliferação e o desarmamento nucleares devem acompanhar", ele disse sonhar "com um Oriente Médio sem armas nucleares, como é o caso na América Latina".

Ahmadinejad se mostrou moderado na forma, evitando qualquer comoção, mas sem nada ceder no conteúdo. O Irã, ele disse, continua interessado na aquisição de urânio enriquecido ou em um intercâmbio sob o controle da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) - segundo o acordo que esta lhe propôs - mas, ele ressaltou, não sob quaisquer condições.

"A compra de combustível enriquecido é livre, nós podemos comprá-lo, mas eles estão definindo as condições políticas e técnicas, e isso não é correto", observou Ahmadinejad, antes de acrescentar ainda ter esperança, "mesmo que não tenhamos muito mais tempo" para chegar a um acordo.

Alguns dias atrás, Ahmadinejad exprimia o desejo de que Brasília apoiasse o Irã frente à "polêmica injusta" da qual é objeto. Lula tomou o cuidado de não manifestar tal apoio. Mas seu convidado não tem do que reclamar. Durante sua controversa reeleição em junho de 2009, Lula apoiou o regime de Teerã sem hesitar.

Desprezando um princípio que lhe é caro - a não-ingerência - , ele considerou "impossível" que tenha havido fraudes em massa no decorrer da eleição, e lamentou que "a oposição não tenha aceito o resultado da votação". Ele comparou a batalha eleitoral entre Ahmadinejad e seus adversários a uma "rivalidade entre o Flamengo e o Vasco", dois clubes de futebol do Rio de Janeiro.

Essa visita não agradou a todos os brasileiros. Cerca de mil pessoas se manifestaram contra, no domingo, no Rio de Janeiro. O principal opositor de Lula, e governador do Estado de São Paulo, José Serra, escreveu na segunda-feira em um artigo de jornal: "Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes".

Tradução: Lana Lim

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