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25/11/2009

O patrão mais estúpido do mundo?

Le Monde
Sylvain Cypel
Thomas (Tom) Donohue está prestes a se tornar um dos homens mais odiados pelos partidários da "mudança" nos Estados Unidos. Esse norte-americano de origem irlandesa de 71 anos, que fez carreira em sindicatos patronais, preside a Câmara de Comércio dos Estados Unidos. Ele é o novo "Mister No!" dos EUA, como era chamado em sua época Jesse Helms, o eterno senador ultraconservador da Carolina do Norte. Antes de se tornar chefe autoproclamado do patronato norte-americano - autoproclamado, pois sua organização provém mais do grupo de pressão do que do sindicato - , Donohue presidiu por quatorze anos a American Trucking Associations [associação norte-americana das transportadoras por caminhões]. Uma organização que se tornou célebre, mais de meio século atrás, pelos confrontos selvagens que a opuseram aos "Teamsters", os caminhoneiros, e a seu famoso sindicato. Por muito tempo, os dois lados apelaram para os métodos rápidos de clãs mafiosos, um tentando se impor sobre o outro. Em 1975, o líder dos Teamsters, Jimmy Hoffa, aparentemente terminou em um tanque de cimento no fundo do oceano...

Estamos divagando? Na verdade, não. Empresários e sindicalistas norte-americanos só se enfrentam no cinema agora, mas Donohue continua sendo o digno herdeiro desses inflexíveis empregadores que Don Passos e vários outros descreveram. O homem é teimoso, até agressivo, além de decidido, organizado e empreendedor. Em doze anos de presidência, ele transformou uma venerável associação que sobrevivia fragilmente - ela acaba de comemorar seus 75 anos - em uma máquina de defender "o direito dos ricos de enriquecerem ainda mais sem entraves", como descreve a publicação bimestral "Mother Jones".

Já havíamos mencionado, em artigo anterior, o papel dessa Câmara Americana de Comércio, mas sem apresentar seu presidente. Depois, o "The New York Times" dedicou uma página inteira à publicação de seu perfil. Para esboçar o personagem de Tom Donohue, o redator começou por uma anedota: nos anos 1990, quando ele era presidente da American Trucking Associations, um de seus subordinados questionou o uso do jato particular posto à sua disposição. Donohue perguntou a seu chefe de gabinete: quantos lugares tinha seu avião? Oito, respondeu este último. Então, Donohue disse: "Amanhã de manhã, quero que você providencie um avião de 12 lugares". Comentário do jornal: "O assunto nunca mais foi mencionado. E na Câmara de Comércio Donohue também dispõe de um jato particular, além de US$ 3 milhões anuais".

Um homem de seu calibre merece suas remunerações, acreditam seus partidários. Em pouco mais de uma década, ele dobrou o número de empresas que aderiram à Câmara (ele afirma serem 300 mil) e quadruplicou seu orçamento. Ele só dispunha de dois lobistas em tempo integral, e agora eles são 98, além de uma centena de colaboradores ocasionais. O custo total de lobbying passou de US$ 20 milhões para US$ 90 milhões em 2008. Com as questões legislativas abertas pela eleição de Barack Obama, ele teria disparado em 2009. Agora, os representantes de eminentes empresas estão em seu quadro: AT&T, Xerox, Dow Chemical, Fedex, Pfizer... Suas obsessões são compartilhadas por muitos de seus seguidores. Não à cobertura de saúde universal, que constituiria "uma pistola anticonstitucional e antiamericana" apontada para o coração do país, proclama um de seus partidários. Não à lei sobre a luta contra o aquecimento global, considerada um atentado contra a "segurança energética" dos Estados Unidos, "um pesadelo que prejudicará os lucros das empresas. Não à nova política fiscal, não à regulação financeira, não às leis de proteção dos consumidores.

Mas Donohue irrita um número crescente de empresários e políticos republicanos que gostariam de se afastar da imagem arcaica que ele dá aos empregadores norte-americanos. Seus adversários o censuram por ser cegamente obstinado pela adesão a uma ideologia hoje refutada. Suas declarações ultrajantes e suas posições sistematicamente hostis a qualquer mudança sobre questões sociais com fortes implicações econômicas "marginalizam" a Câmara e são nefastas para os interesses a longo prazo das empresas, eles acreditam.

Além disso, alguns membros de considerável contribuição acabaram debandando. Primeiro a Nike, no fim de setembro. E depois a Apple, a Levi Strauss, mas também as empresas de produção de energia como a Exelon, a Pacific Gas & Electric e a PNM Resources, ou a grande fabricante de papel Mohawk, etc.

O que é pior, setores de sua própria organização lhe dão as costas. A última registrada: a Câmara de Comércio californiana. Em 15 de novembro, ela cortou os laços com a matriz. Donohue "ficou no século 20. Devemos jogar essa Câmara de Comércio no lixo", disse Danny Kennedy, cofundador de uma firma local de energia solar. "Eles não me representam", declarou pouco antes Mark Jaffe, diretor da Câmara de Comércio da Grande Nova York, mencionando uma direção nacional "para os interesses da região". Donohue considera essas deserções "insignificantes". Na revista online "Slate", o ex-governador democrata do Estado de Nova York, Eliot Spitzer - que, acusado de hábitos libertinos, teve de abandonar seu posto em março de 2008 e hoje volta aos poucos à mídia - pede para barrar o caminho do presidente da "câmara dos horrores".

Tradução: Lana Lim

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