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26/11/2009

Andando pelo Rio de Janeiro

Le Monde
Jean-Pierre Langellier No Rio de Janeiro
Sempre que ele nos vê na esquina, esse apaixonado pela França nos presenteia com "La Vie en Rose". Bochechas infladas, olhos semi-cerrados, ele sopra com vontade em seu instrumento. "É um clarim", faz questão de explicar, chamado por todos de "Joca do Trompete".

De ralos cabelos grisalhos, olhar risonho, fala jovial, Joca, de 76 anos, toca clarim nas calçadas de Ipanema e do Leblon, dois bairros chiques do Rio de Janeiro. Sempre por volta do meio-dia, de terça a sábado. O velho músico faz parte da paisagem carioca, com sua cadeira dobrável, sua estante de partituras e, sobretudo, sua black box ("o inglês é melhor para os turistas"), um cofrinho de madeira preta que recolhe, da parte dos passantes generosos, o equivalente diário a cerca de R$ 50. Um pequeno pé-de-meia que ele dá a seus dois netos.

Durante trinta anos, trabalhou em um grande banco, ao mesmo tempo em que continuava a soprar nesse instrumento de som bem "redondo". Desde que se aposentou, tocou em várias orquestras de bairro, fez propaganda musical para lojas de eletrodomésticos, animou alguns carnavais, escreveu e compôs um pouco.

Os poemas que ele nos mostra demonstram que teve seu período hippie pacifista - "Ah, se os trombones e as clarinetas pudessem substituir os fuzis e as escopetas!" - e seus momentos de triste cólera: "Chora, pobre Brasil, que fizeste de teus cinco séculos de existência?"

Hoje, os estrangeiros lhe pedem melodias de samba, mas ele prefere oferecer clássicos da música mundial, estilo Edith Piaf ou Sinatra.

Seus poemas, diz, o ajudaram a conquistar sua mulher, 27 anos mais nova que ele. Tocará clarim "até o último sopro", pois não imagina ver seu instrumento "sozinho e silencioso", abandonado em cima de um armário.

Em torno de Joca, neste sábado, a calçada está coberta de cascas de ovos, jogados em sua direção de uma janela vizinha. "Que posso fazer? Mesmo no Rio nem todos gostam de música", filosofa, antes de atacar o refrão de "My Way".

A 10 minutos de caminhada, o Rio oferece um de seus mais belos pontos, sua lagoa. Um canal estreito liga ao oceano esse soberbo lago em forma de coração, sob o célebre Cristo Redentor, símbolo da cidade. Nesse cenário de cartão postal, local de lazer favorito dos cariocas, Maria de Pena da Silva, de 37 anos, passa seus fins de semana. Trabalhando, dez horas seguidas.

Maria é a salvação dos sedentos. Essa simpática mulher, vestida à moda local - camiseta, bermuda e chinelo - tem um pequeno quiosque e uma geladeira, alugados pela prefeitura, cheios de cocos frescos, que ela abre com dois talhos antes de colocar um canudinho. Entre os clientes que param e sentam aqui para bebericar, há simples passantes, ciclistas e esportistas que acabam de terminar a corrida dos oito quilômetros de circuito da lagoa.

Maria aponta com o dedo, na outra margem, para uma fileira de altos prédios modernos. É em um deles que ela trabalha como empregada faz-tudo, de segunda a sexta-feira, a serviço de duas gerações de uma mesma família. Toda noite, depois de uma hora de ônibus, volta para sua casa, no norte do Rio.

Para Maria, o complemento salarial do fim de semana, cerca de R$ 210, é bem-vindo. Seu único inimigo é o céu, em uma cidade onde chove com frequência. Nesse caso é inútil se levantar de madrugada para ir até a lagoa, sem seus frequentadores. Esse repouso forçado lhe permite pelo menos passar mais tempo com sua filha de 7 anos, que ela cria sozinha.

Olga, de 28 anos, também tem uma filha pequena, nascida há alguns meses. De figura troncuda, rosto redondo e voz suave, é uma índia do Peru, da região de Nazca, onde ganhou fama uma grande civilização pré-colombiana. Assim como dezenas de milhares de sul-americanos pobres fazem todos os anos, Olga entrou clandestinamente no Brasil, onde vive há seis anos.

A praia é seu campo de ação. Ali ela vende uma variedade de bijuterias artesanais bonitas e baratas - braceletes, colares, brincos - que aprendeu a fabricar sozinha em seu país de origem e que transporta em um mostruário. Quando chove, confecciona outras na favela onde mora, enquanto toma conta de sua filha.

Olga se casou com um brasileiro. Um casamento infeliz. Seu cônjuge, diz, é preguiçoso, irresponsável. Passa muito tempo bebendo com amigos em vez de trabalhar, e não lhe dá dinheiro. Ela o expulsou de casa, e prestou queixa na polícia.

Sua própria instabilidade profissional a preocupa. Ela teme ser vítima da intenção da prefeitura de limitar o número de pequenos vendedores de praia. Recebeu a proposta de se inscrever em uma comunidade "indígena" para obter mais facilmente uma permissão de trabalho, mas com a condição de que se mude, coisa que ela não quer nem pode fazer. Por mais este ano, não realizará seu sonho: passar o Natal com sua família no Peru.

Joca, Maria, Olga: para esses três, assim como para tantos outros do povão, o Rio, ensolarado ou não, pouco tem a ver com a cidade maravilhosa cantada pelos slogans turísticos.

Tradução: Lana Lim

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