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26/11/2009

O caso Shalit abre um debate doloroso em Israel

Le Monde
Laurent Zecchini
Em Jerusalém
Israel teme uma nova decepção: estaria a libertação do soldado Gilat Shalit, que também tem nacionalidade francesa, "muito próxima", como garantiu o ministro israelense do Comércio e da Indústria Binyamin Ben Eliezer, "iminente", como afirmam os jornais árabes, ou deve se falar em "algumas semanas a mais", como corrigiu, nesta terça-feira, o ministro israelense do Interior, Eli Yishai?
  • Reuters

    Negociação O acordo, caso seja aprovado, trocaria o sargento Gilad Shalit (foto), que foi capturado pelo Hamas e outros militantes palestinos em junho de 2006, por centenas de palestinos que se encontram em prisões israelenses, incluindo muitos condenados pela organização de atentados a bomba suicidas



Os israelenses aguardam: desde 25 de junho de 2006, dia da captura do soldado Shalit (hoje com 23 anos) na fronteira da Faixa de Gaza, por combatentes do Hamas infiltrados em território israelense, já se perdeu a conta das vezes em que o anúncio da libertação daquele que se tornou um ícone nacional fez nascer esperanças frustradas.

É difícil, fora de Israel, medir a amplitude de tal fenômeno: "salve o soldado Shalit" se tornou o grito de guerra de toda uma nação. Uma tenda foi erguida diante da residência do primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, os rostos de Noam e Aviva Shalit, seus pais, são conhecidos de todos, e são inúmeras as manifestações de apoio.

Essa pressão popular explica por que o primeiro-ministro israelense se prepara para concluir uma negociação cujos termos seriam considerados inaceitáveis na maior parte do país: a libertação de um único soldado israelense em troca da soltura de 1.200 ou 1.400 prisioneiros palestinos, entre os quais vários responsáveis pelos piores ataques terroristas perpetrados sobre solo israelense.

Netanyahu enfrenta uma das decisões mais difíceis de sua carreira, "um enorme dilema", reconheceu. "Por um lado, quero salvar uma vida; por outro, devo evitar novos sequestros pelos terroristas." Enquanto nada estiver garantido, o primeiro-ministro se mantém prudente: "Não há conclusão, decisão ou acordo", insistiu na terça-feira à noite. Mas a máquina midiática trabalha, as indiscrições aumentam, e já se sabe quase tudo da negociação, exceto o essencial: sua conclusão.

Uma delegação do Hamas, conduzida por Mahmoud Zahar, deixou o Cairo na terça-feira em direção a Damasco, onde dará informações sobre a negociação com os intermediários egípcios e alemães para a direção do Hamas em exílio. Israel teria aceitado libertar um primeiro grupo de 450 prisioneiros palestinos, assim que Gilat Shalit tiver sido transferido da Faixa de Gaza para o Egito.

Em seguida, 500 outros prisioneiros serão libertados. Por fim, mais tarde, um outro grupo de centenas de prisioneiros será solto. Estes últimos provavelmente serão membros do Fatah, o movimento que controla a Autoridade Palestina presidida por Mahmoud Abbas. Trataria-se de um "gesto" na direção de Abbas, cuja autoridade será ainda mais enfraquecida com essa "vitória" do Hamas. As autoridades israelenses sabem que passarão por um mau momento político com as manifestações de triunfo que acontecerão em Gaza assim que a troca for efetuada.
  • Rina Castelnuovo/The New York Times

    Israelenses mantêm uma vigília pela libertação do sargento Gilad Shalit em frente à residência do premiê Benjamin Netanyahu, em Jerusalém. Shalit foi capturado pelo Hamas em 2006

A lista de prisioneiros é a questão mais delicada a resolver. Pelo menos seis deles, que ganharam fama na luta armada, constituem um problema: o mais conhecido é Marwan Barghouti, líder do Fatah, condenado à prisão perpétua em Israel. Figura carismática, sua possível libertação deve ser pesada em uma balança: Marwan Barghouti representa um grande desafio político para Mahmoud Abbas, mas é provavelmente o único no Fatah capaz de iniciar uma reconciliação com o Hamas.

A perspectiva dessas libertações alimenta um amargo e às vezes doloroso debate em Israel: é preciso libertar terroristas? Deve-se ceder diante do terrorismo? Não se encoraja, dessa forma, outras tomadas de reféns?

A essas questões, o Estado israelense já respondeu parcialmente: em 1985, 1.150 prisioneiros palestinos foram libertados em troca da libertação de três soldados. O primeiro-ministro garantiu que os membros do governo e da Knesset (o Parlamento) poderão se pronunciar. O debate passa por todas as camadas da sociedade israelense: os pais das vítimas de atentados suicidas são acompanhados em sua oposição pelos rabinos de extrema direita e pelo... cunhado de Netanyahu, que ordena que o primeiro-ministro renuncie, em vez de "estimular o terrorismo".

O dilema de Binyamin Netanyahu não é pequeno: a libertação do "soldado Shalit" deverá reforçar sua popularidade; a de centenas de prisioneiros palestinos terá o efeito inverso.

Tradução: Lana Lim

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