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28/11/2009

Ineficácia das políticas públicas mantém o México na crise

Le Monde
Na Cidade do México
Em um cruzamento da Cidade do México, Juan Barrera, 34, lava o para-brisas dos carros. "Preciso comer", suspira esse pedreiro desempregado que ganha menos de 150 pesos (R$ 20) por dia. Assim como ele, 900 mil mexicanos perderam o emprego em 2009 no país da América Latina mais atingido pela crise. Votado na segunda-feira (16), será o orçamento de 2010 suficiente para recuperar o país? Os especialistas duvidam.

Em 2009, o crescimento mexicano deverá ter uma queda de 7,3%, contra uma baixa de 2,5% em média nas outras nações da América Latina e do Caribe, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). "O México é dependente demais do mercado americano, que concentra 80% de suas exportações. O país também é vitima de políticas públicas desajustadas que o fizeram perder seu potencial de líder latino frente ao Brasil", ressalta Bernardo Bolmedo, professor de economia da Universidade Autônoma do México (UNAM).

A produção petroleira, que representa 40% dos recursos do Estado, não para de cair, levando a perdas fiscais de 14 bilhões de euros (cerca de R$ 36 bilhões) em 2009. Mesmo colapso do lado das transferências de fundos dos imigrantes. A segunda maior fonte de divisas do país deverá ter uma queda anual de 13%, segundo o Banco Mundial.

Quanto ao setor turístico, ele deverá sofrer uma queda de 15,3% em 2009, segundo a Confederação Nacional do Turismo. "O México deve investir mais em matéria de infraestrutura, mas também em tecnologia, em educação e em pesquisa", declarou o Prêmio Nobel de Economia 2001, Joseph Stiglitz, em visita à Cidade do México.

O México só dedica 4% de seu produto interno bruto (PIB) à educação pública, ainda que o país tenha 6 milhões de analfabetos. Em comparação, em 2006 o Brasil e a Argentina destinaram, respectivamente, 4,87% e 5,07% de seu PIB a esse setor. O Chile, por sua vez, conseguiu erradicar o analfabetismo com um orçamento para a educação de somente 3,6% do PIB, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

Subnutrição
A situação é pior para as ciências e tecnologias. A elas o México só dedica 0,4% de seu PIB, contra 3% no Brasil e no Chile, segundo estudo do Senado mexicano. Consequência: de acordo com o último boletim do FMI, a 12ª maior economia mundial ocupa somente o 60º lugar em termos de competitividade, atrás do Brasil (56), da Costa Rica (55) e do Chile (30).

"A vulnerabilidade do México é reflexo de um Estado instável que, em quinze anos, desperdiçou seus recursos com políticas perversas que abandonam a economia do conhecimento", critica Saul Arellano, diretor de pesquisa do Centro de Estudos em Desenvolvimento e Assistência Social (Ceidas). De quem é a culpa? "Da ausência de Estado", ele responde.

Jean-François Prud'homme, cientista político do Colegio de México, explica que "a chegada em 2000 do Partido de Ação Nacional (PAN, direita) à liderança do país fragmentou o poder e mergulhou o México no imobilismo para satisfazer interesses eleitorais a curto prazo".

A entrada no pluralismo político, após 71 anos de poder do Partido Revolucionário Institucional (PRI), bloqueou reformas fiscais e energéticas. "Os deputados da oposição impediram que a companhia petroleira pública, Pemex,se associasse com empresas privadas para permitir a exploração em águas profundas. Hoje, o país vê suas reservas se esvaírem por falta de meios, enquanto o Brasil aumenta sua produção", explica o cientista político Jorge Martinez.

Metade da população ativa mexicana trabalha no setor informal. Entre os 43,3 milhões de ativos, 5,6% recebem menos que um salário mínimo (R$ 6,8 por dia). A inflação sobre os produtos de base chegou a 12,5% em 2009, ao passo que o aumento dos salários se limitou a 4%. Consequentemente, 6 milhões de pessoas passaram a viver abaixo da linha de pobreza em um país onde quase um em cada cinco habitantes é agora vítima de subnutrição.

Para 2010, o Estado conta com um orçamento de 163,1 bilhões de euros (cerca de R$ 425 bilhões), com fundos suplementares alocados à educação pública e agricultura. O presidente Felipe Calderón anunciou um plano de investimentos em infraestrutura de 32,4 bilhões de euros (R$ 85 bilhões) para sustentar o crescimento de 3,3% previsto pelo FMI. Será o suficiente? Para Saul Arellano, essas medidas não resolvem os problemas fundamentais: "Isso equivale a dar uma aspirina a um paciente com câncer", ele diz.

Tradução: Lana Lim

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