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29/11/2009

No Irã, a repressão não conseguiu calar a contestação

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Le Monde
Por enquanto é uma batalha de palavras, talvez prelúdio para novos confrontos. Na perspectiva do 7 de dezembro, "dia dos estudantes" durante o qual o Irã comemora a morte, entre outros, de dois deles, durante o golpe de Estado de 1953 patrocinado pela CIA contra o primeiro-ministro Mossadegh, a polícia multiplicou as advertências:

"Todo extravasamento será gravemente punido". Florescem as inscrições nos muros de Teerã e nas salas de aula: "Encontro em 7 de dezembro, todos novamente unidos".

Daqui a alguns dias, em 12 de dezembro, fará seis meses que se realizou no Irã a reeleição muito contestada do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Seis meses de um esquema repressivo no qual o governo fundamentalista, apoiado pelo "guia supremo", Ali Khamenei, oficialmente refreou toda veleidade de protesto: mais de 4 mil detenções, dezenas de mortos, "confissões" forçadas na televisão estatal, processos arbitrários e cinco condenações à morte até agora.

No entanto, apesar de uma repressão persistente, uma verdadeira "nebulosa" de contestação persiste. Quem ela reúne? Políticos reformadores, grandes figuras religiosas, tecnocratas, estudantes, mulheres. Um movimento difuso, cada vez menos estruturado e aparente, mas que se estende a todos os extratos da sociedade civil.

E o primeiro paradoxo dessa oposição para ainda conseguir se exprimir é de ter-se literalmente "enquistado" nos esquemas e nas práticas do poder, para melhor revertê-las em seu benefício.

Exemplos? Os dois mais significativos foram, em 18 de setembro, a jornada Al-Qods (Jerusalém) decretada pelo fundador, aiatolá Khomeini, quando todo ano a multidão se manifesta a favor da Palestina; e em 4 de novembro, aniversário da tomada da embaixada americana em Teerã em 1979, quando se insulta os EUA.

Ora, nessas duas ocasiões, apesar das advertências da polícia que vasculhava as ruas, os manifestantes de oposição - fala-se em 500 mil pessoas em Teerã - de alguma forma "vampirizaram" os desfiles oficiais para fazer ouvir seus próprios slogans.

Aos partidários de Ahmadinejad que lançavam o rotineiro "Morte à América, morte a Israel", ele substituíram "Morte aos ditadores!" Entre as palavras de ordem havia uma que ganhava cada vez mais amplidão, "Morte à Rússia", como para confrontar o principal aliado do regime, uma rejeição da diplomacia "musculosa" que isolou o Irã.

Enfim, como para melhor desacreditar o sentido dessa jornada simbólica que o aiatolá Khomeini qualificou de "segunda revolução", seu antigo delfim, o aiatolá Montazeri, demitido porque na época foi contra a execução em massa de adversários, declarou que a tomada da embaixada foi um "grave erro".

Compreende-se que o governo hesite em manter a manifestação oficial de 7 de dezembro, de medo, mais uma vez, de vê-la "deturpada".

Em outros termos, as autoridades iranianas ganharam a batalha da segurança na rua, mas perderam a da mobilização. E é importante para um regime como este da República Islâmica que desde a revolução há 30 anos só conseguiu mobilizar o conjunto do país em uma tática bem conhecida de "alerta nacional".

Primeiro contra os EUA, o Iraque de Saddam Hussein, durante os oito anos de guerra (1980-1988) com Israel, ou ainda o Ocidente, em coalizão para impedir o Irã de desenvolver um programa nuclear suspeito de ter fins militares.

Então o que querem esses contestadores iranianos, que se identificam, à falta de melhor, pela braçadeira verde herdada da campanha do candidato Mir Hossein Mousavi, o ex-primeiro ministro apoiado pelos reformistas na presidencial de 12 de junho, que denunciou uma fraude maciça? Difícil dizer, além do respeito básico aos direitos elementares de qualquer cidadão.

A única certeza é que estamos longe da simples contestação eleitoral, e a cor verde é mais um símbolo de reconhecimento que um sinal de identidade. Aliás, onde estão os verdadeiros líderes desse movimento? Mousavi?

"Ele vai lutar até o fim", dizem, mas esse homem tranquilo atropelado por um movimento que o utilizou para se lançar não está ultrapassado, ele que só voltou à política "porque sentia a república em perigo"? Assim como Mehdi Karoubi, esse outro candidato reformista, também do mesmo círculo, que com coragem denunciou torturas e violações na prisão?

"Nós nos contamos na rua, pagamos um preço alto demais para parar. Mas nosso movimento não atingiu a maturidade", confiou uma manifestante na noite de 18 de setembro.

Ao prender aqueles que ele considera serem os líderes - os chefes reformistas -, o próprio governo deu a prova de que esse movimento não tem estrutura nem cabeça, e não pode ser controlado. Os partidos políticos, os sindicatos, os intelectuais, os jornais estão decapitados, mas persistem.

Uma vantagem que também é uma fraqueza, pois a falta de coerência fragiliza a contestação. "O grande problema é o ritmo interno dessa reivindicação", explicou por telefone um analista iraniano. "Há os estudantes apressados que se fazem prender nas faculdades e algumas minorias sempre prontas a se rebelar.

Mas o conjunto prefere avançar a passos miúdos para apostar na durabilidade, e não fazer o jogo da repressão do regime. Alguns dizem, quase em voz baixa, que diante da fuga para a frente de Ahmadinejad e do guia na direção do que parece um poder islâmico, eles visam pelo menos uma república iraniana e não um poder islâmico iraniano."

E nessas reivindicações, impensáveis há alguns meses, a imagem do Guia desacreditado por ter-se isolado da população ao apoiar a facção fundamentalista pesou muito.

Como erradicar essa contestação "sem face"? O guia Khamenei convocou para quinta-feira, 26 de novembro, os chefes da milícia Bassidj, que se tornou a ponta de lança da repressão.

Segundo testemunhas, ele lhes disse em substância que depois de terem sido "heróis" na guerra "dura" contra o Iraque, onde esses milicianos voluntários são mortos aos milhares, eles enfrentavam agora uma guerra "mole", "difusa" e "muito mais perigosa".

Daí, paralelamente à tática atual de intimidação (processos em massa, execuções em série - 120 desde junho -, fianças exorbitantes que arruínam os acusados, etc.), o regime quer implementar uma espécie de "guerra cultural preventiva" para afirmar seus valores.

A presença dos bassidjis é reforçada até nas escolas , enquanto os Guardas da Revolução, o exército ideológico, que já controlam uma grande parte das telecomunicações, querem criar uma agência de notícias. "É conhecendo melhor o inimigo que podemos combatê-lo", escreve o jornal conservador "Kayhan", na defensiva.

Mas os sinais enviados por essa nebulosa contestadora são paradoxais. Assim, os reformadores que sempre pediram que o Irã se abrisse ao diálogo criticaram Ahmadinejad, que tentou nos últimos dias reagir favoravelmente à proposta dos ocidentais sobre a questão nuclear.

Por quê? Porque eles foram desacreditados durante anos por Ahmadinejad, que os criticava por "terem traído" ao assinar em 2003 os acordos de Saadabad, que levaram a uma suspensão do enriquecimento de urânio, e eles não querem vê-lo embolsar os benefícios de uma distensão que ele sempre combateu.

O outro motivo é que diante das dificuldades na região os opositores temem pagar o preço de uma "política realista" de aproximação entre Washington e Teerã, que os abandonaria à repressão. Em 4 de novembro, slogans já interpelavam Obama: "Ou você está com os assassinos, ou está conosco".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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