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01/12/2009

El Paso e Ciudad Juarez: guerra e paz dos dois lados do Rio Grande

Le Monde
Nicolas Bourcier Em Ciudad Juarez (México) e El Paso (EUA)
Ela saca seu batom, com um gesto lento e suave daqueles que aprenderam a saborear cada segundo de existência. A fila de carros alinhados diante de seu pequeno Honda na direção de El Paso, no Texas, ainda é longa, mas a jovem se diz aliviada, até calma. Em menos de uma hora, Ahide Flores terá atravessado a fronteira dos Estados Unidos e deixará para trás, pelo tempo de um dia de trabalho, sua cidade mexicana de Ciudad Juarez, suas favelas, suas fábricas de montagem a baixo custo e sua fúria assassina.

"De um lado, nem se consegue mais encontrar as palavras para descrever o que acontece lá", ela suspira. Garçonete incansável em um restaurante de cozinha mexicana do centro de El Paso por US$ 8,5 a hora (cerca de R$ 15), ela diz ter medo, "essa angústia agora permanente de morrer baleada por traficantes". E uma vez do outro lado, "as pessoas passam a imagem de uma vida de paz, como se nada tivesse acontecido".
  • Alejandro Bringas/Reuters - 31.ago.2009

    Guerra Médicos forenses inspecionam o corpo de um homem assassinado em Ciudad Juarez

Ciudad Juarez e El Paso: duas cidades frente a frente em uma mesma fronteira, ligadas por quatro pontes, mas atravessadas por um alto muro vigiado como uma fortaleza banhada pelas águas negras do Rio Grande. Aqui, valentemente espalhadas neste vale de areia e arbustos espinhosos, tudo separa essas duas metrópoles que no entanto pertencem a um mesmo mundo. Jamais, até onde se lembra, o contraste da violência entre as duas cidades atingira tal pico.

Enquanto El Paso, com seus 600 mil habitantes - hispânicos, em sua maioria - se orgulha de ser a terceira cidade mais segura dos Estados Unidos, com menos de 20 homicídios por ano, Ciudad Juarez detém o título de capital do crime do continente norte-americano, se não do mundo. Mais de 2.200 pessoas foram mortas desde janeiro nas ruas desta cidade de 1,3 milhão de habitantes, bem mais que os 1.653 de 2008, que já constituíam um recorde.

A cada dia Juarez, como é chamada, se embrenha um pouco mais em um clima de guerra civil, desde que dois dos mais poderosos cartéis mexicanos e seus matadores decidiram, no fim de 2007, se confrontar pelo controle do tráfico das drogas destinadas aos Estados Unidos.

Os 8.500 soldados e 1.500 agentes federais mobilizados na cidade se revelaram incapazes de conter a espiral mortífera. Nenhuma prisão de envergadura e nenhuma queda na violência foram registradas. Pior: segundo os militantes dos direitos humanos, sua presença só atiçou as tensões.

Não se contam mais as cabeças cortadas encontradas à beira das estradas, as covas descobertas, os cadáveres anônimos que nenhuma família ousa reclamar por medo de represálias. Na primavera, foi o chefe da polícia que renunciou, sob ameaça dos traficantes. Estes pretendiam matar um agente das forças de ordem a cada 48 horas caso ele não deixasse seu cargo. Até o prefeito de Juarez, Reyes Ferriz, se resignou a mudar para El Paso.

Sentada sozinha em seu escritório, Andreas Simmons dá as costas para a janela que oferece uma vista sobre Juarez. "A violência lá atingiu um patamar sem precedentes", diz esta agente do FBI estabelecida na cidade texana há alguns anos. Assim como seus colegas que atuam na região, ela afirma passar a maior parte de seu tempo tentando impedir que o fenômeno ultrapasse a fronteira. "Claro, há indivíduos envolvidos no tráfico de drogas que vêm aqui", ela ressalta, "mas os mortos por enquanto ficam do outro lado".

Sinal do paradoxo: neste verão, um indivíduo foi sequestrado na parte leste de El Paso, e foi encontrado assassinado de forma selvagem, alguns dias mais tarde, em Ciudad Juarez. Um ato interpretado pelas autoridades como um aviso dos traficantes.

"Os cartéis são muito bem organizados", explica Xavier Sombrano, inspetor de polícia no quartel-general de El Paso. "Eles são pacientes e preferem fazer o trabalho sujo do outro lado. Eles sabem que uma explosão de violência aqui lhes custaria seu negócio, e levaria ao fechamento da fronteira".

Segundo o serviço de inteligência americano, quase 40% das drogas encaminhadas aos Estados Unidos passariam pelo eixo Juarez-El Paso. Todos os dias, cerca de 150 mil pessoas, carros e caminhões atravessam o setor. Um fluxo contínuo quase impossível de controlar, na opinião dos próprios agentes federais.

Uma plácida, quase gelada, e a outra em fogo e à deriva, as duas cidades que estão a uma mesma distância do Pacífico e do golfo do México, com o Texas, o Novo México e o Arizona nas proximidades, se impõem à sua maneira como postos de observação para o controle das redes de distribuição de drogas nas cidades americanas. Uma situação que permite não somente lavar, em um piscar de olhos, os lucros do tráfico nos bancos americanos, mas também abastecer os cartéis de armas sem muita dificuldade, graças às lojas especializadas e pouco cuidadosas situadas ao longo da fronteira, do lado norte.
  • Yasmin Aboytes/El Paso Times/AP - 07.dez.2002

    Paz Mexicanos formam fila na fronteira para
    entrar em El Paso, a terceira cidade mais segura dos EUA, com menos de 20 homicídios por ano



Além disso, Juarez também é o reino da corrupção e de seu corolário, a impunidade. Com crimes não resolvidos, investigações mal feitas, a cidade, que tem menos de 2% de elucidação dos homicídios, segundo diferentes fontes, é uma dádiva para os traficantes. Em El Paso, quase 90% das investigações envolvendo um assassinato são resolvidas. "Veja o quadro", diz o inspetor de El Paso, "um traficante sabe que por aqui tem poucas chances de escapar se cometer um delito".

Depois de passar pelo cruzamento das estradas, não longe do deserto centro da cidade, Howard Campbell me recebe em um refeitório "nouvelle cuisine". Antropólogo e autor de uma obra sobre a fronteira e os cartéis mexicanos (Drug War Zone), ele lembra que a calma aparente de El Paso se deve em grande parte a seus imigrantes, jovens e em grande número, "decididos a se encaixar, a evitar os problemas e a respeitar as autoridades".

Segundo ele, o contraste entre as duas cidades vizinhas também se explica pela proximidade de Fort Bliss, uma das maiores bases militares americanas, e pela presença maciça de agentes de polícia e do serviço de informações "que fazem de El Paso um espaço muito vigiado, com essa impressão de que tudo está sob controle, ainda que se saiba que aqui também há corrupção dentro da polícia... Mas disso, se fala menos".

Tony Payan mede ainda menos suas palavras. Professor de ciências políticas na Universidade do Texas em El Paso, ele denuncia uma vontade deliberada de tapar o sol com a peneira. "A fronteira está pegando fogo e a única preocupação da cidade", ele diz, "é saber que ela está segura, que ela continua a prosperar, apesar da crise, investir nas fábricas de Juarez evitando lembrar que ela mesma é o principal ponto de referência da droga no país".

Em janeiro, o conselho municipal de El Paso votou uma lei, para grande surpresa dos observadores, a fim de abrir um debate público sobre a necessidade da descriminalização da maconha. Único meio possível, segundo Beto O'Rourke, responsável pela iniciativa, de abaixar o nível de violência. "Nosso apetite insaciável por drogas contribui diretamente para o que se passa do outro lado da fronteira", resume o parlamentar. "Cortar os recursos que vêm do tráfico da maconha é enfraquecer os cartéis. Nenhuma solução repressora foi convincente até hoje". A resolução teve um veto do prefeito de El Paso.

Ahide Flores dá de ombros. Sentada durante uma pausa em uma mesa de seu restaurante de El Paso, ela diz não escutar mais as informações. Em algumas horas, ela voltará para a estrada como outros 25 mil habitantes de Juarez que vieram trabalhar em El Paso. Como todos os dias. Até atravessar a ponte. Somente duas cidades, à queima-roupa.

Tradução: Lana Lim

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