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01/12/2009

Na República de Mari El, entre os últimos animistas da Europa

Le Monde
Alexandre Billette Mari-Türek (República de Mari El)
A 800 quilômetros ao leste de Moscou, o povo mari, de origem fino-ugriana, perpetua suas tradições religiosas pagãs apesar da pressão da Igreja Ortodoxa e das autoridades locais. No fim da precária estrada que serpenteia pela República de Mari El, o pequeno vilarejo de Mari-Türek não se distingue em nada das milhares de cidadezinhas esquecidas pelo tempo na Rússia. Sem indústrias, a região adormece afastada dos grandes eixos de circulação do distrito federal do Volga.

As intermináveis planícies desse lugar recuado escondem, entretanto, centenas de lugares de culto, invisíveis aos olhos do viajante apressado. Pois na religião tradicional do povo mari, nada de igrejas: o culto é praticado nos "rosha", pequenos bosques isolados que às vezes se vê da estrada. A República de Mari El possui mais de 400 rosha sagrados, às vezes minúsculos, às vezes grandes como pequenas florestas.
  • Evgeniy Gorbunov/Le Monde

    Tradições pagãs Na religião tradicional do povo mari, nada de igrejas: o culto é praticado nos "rosha", pequenos bosques isolados que às vezes se vê da estrada. A República de Mari El possui mais de 400 rosha sagrados, às vezes minúsculos, às vezes grandes como pequenas florestas



Neste sábado de outono, é justamente a véspera de uma grande cerimônia religiosa. No final de um caminho de terra, na beira da floresta, Albert Rukavishnikov supervisiona os últimos preparativos. Barbado e usando um chapéu branco alto e botas enormes, o pequeno homem parece um gnomo saído do bosque. Com cerca de sessenta anos, é um dos "karta", os sacerdotes da religião tradicional mari. Ele limpa, com a ajuda de uma dezena de homens, uma ampla clareira, coloca grandes tachos em torno desta e corta alguns galhos, antes de salmodiar uma curta prece nessa estranha língua gutural de origem fino-ugriana, "para implorar aos Deuses que poupem a cerimônia de amanhã do mau tempo".

Pois a religião praticada pelos Maris possui dezenas de divindades, ligadas à natureza e dominadas por Yuma, que corresponde ao Deus supremo. Esse pequeno povo de 700 mil habitantes, dos quais 300 mil vivem na República de Mari El, manteve suas tradições religiosas apesar das pressões exercidas pela Rússia czarista, pelo regime soviético e pelas atuais autoridades da Igreja Ortodoxa. Linguisticamente próximos dos estonianos e dos finlandeses, os Maris formam pouco menos de 50% da população de sua República. Segundo as organizações culturais maris, cerca de metade dos Maris praticam hoje o culto tradicional, às vezes paralelamente com a religião ortodoxa emprestada do povo russo, que constitui a outra metade da República de Mari El.

Neste domingo, são centenas deles que se dirigem para a floresta de Mari-Türek logo nas primeiras horas do dia. Eles vêm de todas as partes, às vezes até mesmo da diáspora mari, como mostram as placas dos carros que às vezes vêm da longínqua República de Khanty-Mansiisk, a 1.500 quilômetros ao nordeste, uma viagem de dois dias.

A lenta cerimônia começa a avançar. Os fieis entram na floresta por um pórtico improvisado, coberto por um tecido branco. A maioria das famílias arrasta um saco que emite sons estranhos: "são os gansos que serão sacrificados para os Deuses", explica um fiel com sua bolsa de juta agitada. "A alma dos animais sacrificados partirá e, depois da refeição, será preciso queimar os restos de carne, para que esses animais se rematerializem no céu". Além dos gansos, um novilho e um carneiro também serão sacrificados.

Hoje, três karta zelam pelo bom desenrolar desta cerimônia. Durante o sacrifício, entrecortado de litanias e de conjurações, são eles que poderão testemunhar a partida da alma dos animais. Os homens em seguida desmembram as carnes, que são cozidas em um caldo claro. As mulheres juntam sobre as mesas pilhas de grossas panquecas que constituem o outro prato sagrado da cerimônia. Um quarto karta senta-se no meio da clareira. Seu papel é importante: ele distribui "kvas", uma bebida de cereais ligeiramente fermentada, benzendo os fieis em troca de algumas notas que financiarão a compra dos animais sacrificados.

Várias horas passarão antes que a verdadeira cerimônia comece. Por volta do meio-dia, em um canto da clareira, um dos três karta improvisa uma longa série de salmos rítmicos, cercado por seus fieis ajoelhados. O segundo karta começa a prece, e depois o terceiro, afastados uns dos outros por algumas dezenas de metros. Uma vez terminado o sortilégio, todos se reúnem em torno das mesas para tomar a sopa e uma quantidade impressionante de pão e panquecas.

"Os Maris vivem em comunhão com a natureza: esses rituais nos permitem agradecer aos deuses por esta comunhão", explica Mikhail Aiglov, um homem em seus quarenta anos de olhar risonho e bigode proeminente. Apesar de ser um pouco jovem para ser karta, ele é considerado "respeitável", o que lhe permite organizar a cerimônia ao lado dos anciões. "Até a menor molécula sobre a terra partiu da natureza, e tudo que é natureza é divino. Quando nos reunimos em grande número como hoje, isso permite gerar uma potente energia cósmica", explica Misha, que fora dali é guarda de segurança.

Ainda hoje, a religião tradicional mari é vista com maus olhos pela poderosa Igreja Ortodoxa Russa, apoiada pelas autoridades locais. Vitali Tanakov sabe bem disso. Ele mesmo um karta, quis publicar em 2006 uma obra religiosa, sobre a "energia cósmica" e "três aspectos da alma". Não foi uma ideia feliz: seu livro não pôde ser editado, tendo sido considerado "literatura extremista", uma condenação judicial muito utilizada na Rússia contra oponentes políticos. Importunado durante um tempo pelo FSB (ex-KGB), Tanakov não se acalma: "Não estamos pedindo nada, não queremos dinheiro; queremos somente que nos deixem em paz".

Em Yoshkar-Ola, nos escritórios da eparquia, o centro administrativo ortodoxo da República de Mari El, o Padre Vladimir trabalha em textos litúrgicos traduzidos para o idioma mari no início do século 20, que a Igreja quer reescrever em mari contemporâneo. Para ele, a religião mari não existe: "São crenças de avós, é quase inexistente hoje". Segundo o Padre Vladimir, "80% da população da república é ortodoxa". E os outros? "São tártaros, muçulmanos..."

Tradução: Lana Lim

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