UOL Notícias Internacional
 

03/12/2009

Juventude basca ainda impregnada de uma cultura de violência política

Le Monde
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a San Sebastián, Bilbao
Naquela noite de 24 de novembro, entre os jovens sentados nos balcões da cidade velha de San Sebastián para degustar os tradicionais pintxos, com um copo de crianza na mão, falava-se de futebol. Às vezes se exaltavam falando sobre o Barcelona-Inter de Milão ou o clássico (Real Madrid-FC Barcelona), mas não se ouvia nenhuma palavra sobre a operação policial que, durante a manhã, havia levado à detenção de 34 jovens militantes supostamente da Segi, a organização clandestina considerada como o principal foco do ETA.

  • Alvaro Barrientos/AP - 31.dez.2008

    Polícia sobrevoa prédio parcialmente destruído pelo ETA, após atentado em Bilbao, Esapnha, em 2008

  • Manu Mielniezuk/AP - 30.jul.2009

    Destroços do carro que explodiu em frente a quartel da Guarda Civil em Calvià, ilhas Baleares (Espanha), matando dois policiais em julho de 2009. Ação é atribuída ao grupo separatista ETA

  • Miguel Toa/EFE - 19.jun.2009

    Automóveis destruídos em explosão, na Rua Santa Isabel, em Arrigorriada, em Viscaya; no atentado, morreu o inspetor da Brigada de Informação de Bilbao, Eduardo Antonio Puelles García, 49. Embora nenhum grupo tenha assumido a autoria do atentado, o presidente regional basco, Patxi López, atribuiu o ataque ai grupo separatista ETA

Correu o rumor de uma manifestação de protesto, mas na praça da Constituição, onde foi marcado o encontro, havia somente uns poucos diante de uma viatura da Guarda Civil. Em Andoain, grande município a cerca de 15 quilômetros de San Sebastián, do qual um jovem cidadão fazia parte das pessoas detidas, a prefeitura havia fechado sua pesada porta de madeira no meio da tarde por medo de represálias: lá também a "concentração" anunciada não aconteceu. As ações de "kalle borroka" (destruição de caixas automáticos, quebra de vitrines e vandalismo em geral, incêndio de latas de lixo) só aconteceram no dia seguinte em diversos pontos do País Basco. Deve-se deduzir a partir daí, assim como fazem muitos observadores, que o apoio social aos separatistas violentos está em constante recuo, e que sua capacidade de mobilização se reduziu ao ritmo dos golpes dados pela polícia francesa e espanhola na organização terrorista?

No sábado, milhares de pessoas fizeram uma passeata pacífica para protestar contra a detenção dos 34 membros da Segi, dos quais 32 foram encarcerados pelo juiz Fernando Grande Malaska. Nenhuma faixa fazia alusão à ETA, nenhuma foto de prisioneiro era brandida pelos manifestantes, conforme a nova legislação em vigor no País Basco sobre a apologia ao terrorismo, mas a multidão apoiou ruidosamente a Segi, um movimento que o juiz Malaska descreve como "a antecâmara do ETA, uma autêntica academia do terrorismo".

O recurso à violência continua profundamente enraizado entre os jovens bascos. É essa a conclusão a que se chega com um estudo sobre "A transmissão de valores aos menores" que o mediador do País Basco, Inigo Lamarca, apresentou em 25 de novembro, durante sua audiência perante a comissão de direitos humanos do Parlamento basco. Realizada junto a 1.829 estudantes de 12 a 16 anos, a pesquisa mostra que quase 30% deles não condenam o terrorismo; 15% o consideram "justificado" e 14,8% são "indiferentes" a ele. Segundo 12%, as ações do ETA são "boas para a Euskadi [País Basco]".

O mediador explica que, para 90% dos jovens entrevistados, é a família que tem mais influência, bem à frente da escola. Autor de um estudo semelhante em meados dos anos 1990 (30% dos jovens legitimavam a violência), o sociólogo Javier Elzo escrevia: "O radicalismo dos jovens está entre os adultos e, em muitos casos, entre seus próprios pais". Hoje, ele observa que "as meninas são um pouco mais nacionalistas que os rapazes, pois no seio da família, os valores são transmitidos pela mãe". Após a captura dos jovens radicais, o acadêmico está menos otimista do que o ministro do Interior, Alfredo Perez Rubalcaba: "Ele (o ministro) sem dúvida tem razão ao dizer que ele decapitou a Segi atual, mas o foco certamente não".

Para Ramon Gomez, do Partido Popular (PP, direita), os resultados do estudo do mediador demonstram "um fracasso social que pode condicionar a qualidade futura da democracia em Euskadi". O novo presidente do País Basco, Patxi Lopez, socialista no poder há seis meses após 30 anos de governo nacionalista, também tem essa preocupação: "Nós estabelecemos uma política de tolerância zero contra a propaganda e a apologia ao terrorismo, mas é responsabilidade de todos, da educação, da família, das parecerias sociais e da política", ele declara ao "Le Monde". "Nós devemos impedir qualquer conivência com esse mundo para 'deslegitimar' a violência".

Seu governo apresentou, no início de novembro, as linhas gerais de sua reforma dos programas escolares. Segundo Isabel Cella, a "ministra" da educação, haverá "correções importantes". Os futuros decretos sobre os conteúdos eliminarão "a doutrinação nacionalista", e o tratamento do terrorismo será feito "do ponto de vista da empatia com as vítimas". Pela primeira vez, representantes das famílias de vítimas poderão ir até as escolas para dar seus depoimentos.

Tradução: Lana Lim

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