UOL Notícias Internacional
 

04/12/2009

Propinas e vídeo: no Brasil, um escândalo de corrupção constrange a oposição

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro

Entenda o esquema de corrupção no DF

São vídeos incriminadores, gravados por uma câmera escondida. Um deles mostra o governador do Distrito Federal de Brasília, José Roberto Arruda, (partido democrata, DEM, oposição de direita), recebendo gordos maços de cédulas.

Em outro, Leonardo Prudente, presidente da Câmara Legislativa local, membro do mesmo partido, esconde maços de dinheiro em seus bolsos e suas meias. Este último é novamente visto em um terceiro vídeo. Com dois cúmplices de alto escalão, eles se seguram pelos ombros, com a cabeça abaixada, e rezam, agradecendo a Deus por sua boa fortuna, no sentido mais próprio do termo: "Pai Nosso, sabemos que somos imperfeitos. Que teu sangue nos purifique..."

Esses vídeos e alguns outros, igualmente explícitos, são as provas mais impressionantes do último escândalo de corrupção a atingir o Brasil, revelado pela polícia federal, no fim da operação chamada Caixa de Pandora.

A polícia acusa o governador Arruda, pivô do caso, de ter montado durante anos uma rede de corrupção envolvendo membros de seu governo, parlamentares locais e empresas privadas beneficiárias de contratos públicos. Todos os meses, o governador recebia até R$ 650 mil que provinham dos caixas dois dessas empresas. Ele ficava com 40%, e o resto era dividido entre o vice-governador, Paulo Octávio, e diversos outros colaboradores.

Uma parte desse dinheiro era redistribuída entre deputados que pertenciam ao Partido Democrata e aos partidos "aliados", majoritários no governo e na Câmara do Distrito Federal, o "Estado" de Brasília.

Até agora, a polícia indiciou 16 pessoas. Em sua investigação, ela recebeu a ajuda decisiva de um dos braços-direitos do governador, seu secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa. Esse maníaco por vídeo tinha o costume de gravar secretamente em seu escritório, por precaução, as entregas de dinheiro. Uma vez desmascarado, ele aceitou, em troca de uma promessa de indulgência da polícia, lhe dar seus vídeos, dos quais alguns remontam a 2006 - na época da campanha eleitoral do futuro governador -, e bancar o espião, gravando outras cenas, para poder "acusar" melhor os culpados.

O governador levou três dias para reagir, negando os fatos e se dizendo "vítima de mentiras de um colaborador". A respeito de uma das manipulações de dinheiro gravadas, ele garante que se tratava de uma "doação" para comprar "panetones" destinados a famílias carentes. Uma explicação que não engana ninguém.

Lula magnânimo
O caso constrange a oposição. Único governador membro do Partido Democrata, Arruda, já manchado por um escândalo em 2001, antes de ser eleito governador em 2006, tinha boas chances de ser reeleito.

O PSDB, principal partido da oposição, e aliado do DEM em nível nacional, não quer ser contaminado pelo escândalo. José Serra, governador de São Paulo e provável candidato do PSDB à eleição presidencial de 2010, tratou de se distanciar de seu colega de Brasília, julgando "gravíssimas" as revelações da polícia.

A coalizão governamental saboreia discretamente o escândalo. O presidente Lula, entretanto, em viagem pela Europa, se mostrou magnânimo ao declarar que os famosos vídeos "não falavam por si mesmos" e que seria preciso esperar que a Justiça se pronunciasse. Em 2005, um escândalo de corrupção ainda mais grave abalou seu partido e quase derrubou seu governo.

Tradução: Lana Lim



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