UOL Notícias Internacional
 

05/12/2009

Ana Maria Romero, candidata da abertura do presidente boliviano Evo Morales

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
Enviado especial a La Paz (Bolívia)
No terceiro andar de sua casa, em um bairro residencial de La Paz, Ana Maria Romero aceitou nos explicar por que, aos 66 anos, ela está saindo de sua "aposentadoria". A pedido do presidente Evo Morales, essa morena de sorriso enérgico, que foi uma figura da luta pela democracia na Bolívia, se juntou a sua maioria de esquerda e se prepara para enfrentar o julgamento das urnas, neste domingo, dia das eleições presidenciais e legislativas. Ela disputa uma vaga no Senado, no departamento de La Paz.

Reservada, ela não fala da grave doença que pode fazer de sua adesão um gesto final. E, diante de uma xícara de chá, as lembranças de seu movimentado passado tendem a suplantar as considerações políticas.

Efêmera ministra do governo nacionalista de Walter Guevara, ela se viu na linha de frente da resistência ao golpe de Estado de 1979. Ela conta, com certa avidez, sobre como desligou o telefone na cara do embaixador norte-americano. A Bolívia havia voltado à democracia, e ela dirigia a redação do diário católico "Presencia", por muito tempo o jornal de referência. "O 'Presencia' recusa a interferência dos EUA", era a manchete que ela daria no dia seguinte.

A Igreja boliviana, próxima da "teologia da libertação", lhe transmitiu "a opção preferencial pelos pobres". No fim dos anos 1960, ela frequentou o primeiro curso de jornalismo da Universidade Católica, sob orientação do jesuíta Luís Espinal, assassinado em seguida por uma das ditaduras militares que ensanguentaram a Bolívia. "Nunca fui uma militante, mas sempre fui de centro-esquerda", conta.

"Ana Mar", o apelido dado pelos seus colegas, se tornou seu pseudônimo. Agora ele figura nos cartazes eleitorais, ao lado do nome de Evo Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia. O presidente e sua aliada se conheceram quando Romero exerceu, pela primeira vez na Bolívia, a função de Defensora do Povo (1998-2003), inspirada no ombudsman nórdico e no mediador da República. Ela assumiu a defesa dos "cocaleros" (cultivadores de folhas de coca) de Chapare.

Em outubro de 2003, Ana Mar iniciou, junto com outros intelectuais, uma greve de fome para protestar contra a repressão que fez 60 mortos em El Alto (a cidade acima de La Paz). O presidente Gonzalo Sanches de Lozada foi obrigado a ceder o lugar a seu vice-presidente Carlos Mesa.

E hoje, qual será seu papel? Romero acredita que o chefe de Estado mudará a orientação de seu governo para o centro e mostrará "moderação", após um primeiro mandato caracterizado pela "radicalização". Com a certeza de ser reeleito logo no primeiro turno, segundo pesquisas que lhe dão entre 52% e 54% dos votos, Evo Morales contaria com ela para "estabelecer pontes até a classe média e setores da oposição". Além disso, diplomatas europeus de serviço em La Paz veem em Ana Maria Romero uma "candidata da abertura".

E se Ana Mar evoca todas essas lembranças, é para garantir que ela nunca será uma senadora submissa. Morales "cometeu erros", ela admite. Sua má avaliação do sentimento autonomista que ele subestimou, por exemplo, nos departamentos do leste e do sul, controlados pela oposição, levou a graves consequências. "Faltou diálogo e consenso no decorrer do primeiro mandato de Evo Morales, mas é preciso tomar a medida da mudança", explica. "A antiga elite foi deslocada em benefício de uma hegemonia dos indígenas. A classe média perdeu muitos postos de trabalho. Entretanto, o país deve ser construído por todos e não somente pelos indígenas."

Agora, Evo Morales aspira a se tornar o presidente de todos os bolivianos, garante Romero. Segundo ela, Luiz Inácio Lula da Silva o "influenciou" nesse sentido. Entretanto, ao contrário do presidente brasileiro, Morales recusou qualquer debate televisionado com outros candidatos. O centrista Samuel Doria Medina, candidato às eleições presidenciais, continua lhe pedindo que ceda a esse exercício democrático. Ana Mar lamenta que esse tradicional debate organizado pela associação dos jornalistas bolivianos não tenha acontecido. Mais severo, o analista Alfonso Gumucio Dagron estima que "somente os políticos autoritários ou aqueles que não têm confiança recusam o debate".

Ana Mar só precisa atravessar a rua para chegar a uma reunião em uma universidade particular. A candidata da esquerda e a da direita se beijam, elas se conhecem há muito tempo. Na entrada, estudantes distribuem um folheto que resume as propostas dos candidatos. Os jovens, na Bolívia, não se contentam mais com símbolos, eles precisam de provas.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host