UOL Notícias Internacional
 

05/12/2009

Irã: a esperança democrática

Le Monde
Michel Taubmann
"É uma revolta? - Não, senhor, é uma revolução!" Esse célebre diálogo entre Luís 16 e o duque de Rochefoucauld, no dia seguinte ao 14 de julho de 1789 nos vem à mente diante das imagens surpreendentes transmitidas no dia 28 de outubro pela televisão iraniana. Nesse dia, o aiatolá Khamenei, líder supremo há vinte anos da República Islâmica, encontrava estudantes iranianos selecionados entre "a elite universitária" do país. Para espanto geral, um deles, Mahmoud Vahidnia, da prestigiosa universidade Sharif, o equivalente da Politécnica, e campeão nacional das Olimpíadas de Matemática, se pôs a fazer um ataque implacável contra o regime. Denunciando a censura, a violência policial, a ausência de liberdade, ele falou durante cerca de vinte minutos até que a televisão interrompeu bruscamente a transmissão. O mais extraordinário é que esse estudante, afirmando agir por iniciativa própria, se dirigiu diretamente ao aiatolá Khamenei, quebrando assim um tabu na República Islâmica onde o líder supremo deve exercer seu poder de... Deus.

Frente a esse ataque, impensável algumas semanas antes, o Líder supremo, totalmente desconcertado, mostrou sua fragilidade, respondendo simplesmente: "A crítica é bem-vinda. Sou criticado regularmente. Nós aceitamos a crítica e nós a compreendemos".

O cara a cara de 28 de outubro entre o estudante de traços joviais e o velho aiatolá, marcado pela doença, simboliza o conflito irredutível que opõe os dois Irãs: de um lado, o país real, cuja metade da população é composta por menores de 30 anos, cultos, dinâmicos, abertos para o mundo, ávidos por liberdade, e de outro, o grupo dirigente, esgotado, dividido, voltado para si mesmo, que encarna aquele que não se ousa mais chamar de "país legal".

Pois em 12 de junho, ao se recusar a ratificar a vitória do candidato Moussavi nas eleições presidenciais, que foram organizadas em condições pouco democráticas, o líder supremo violou a própria legalidade da República Islâmica que deveria defender.

Milhões de iranianos saíram às ruas para expor sua indignação. Após algumas semanas, várias dezenas de mortos e centenas, ou até milhares de prisões, o movimento de protesto ficou menos espetacular.

Mesmo com o muro de silêncio que se estabeleceu sobre o país após a expulsão da maioria dos jornalistas ocidentais, tornando-o pouco visível no exterior, esse movimento se enraizou profundamente na sociedade iraniana.
  • Evaristo SA/AFP

    O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, cumprimenta o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, durante reunião no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF), em novembro último


Desde o fim do verão, os iranianos aproveitam as cerimônias oficiais organizadas pelo regime para saírem às ruas, às centenas de milhares, conduzidos por jovens e mulheres.

Em 18 de setembro, eles deturparam o sentido do dia de Al-Qods, oficialmente dedicado à propaganda para a reconquista de Jerusalém, gritando: "Nem Gaza, nem Líbano, dou minha vida pelo Irã!" ou ainda: "Esqueçam a Palestina! Pensem um pouco em nós!" Em 4 de novembro, mostraram capacidade impressionante de mobilização durante o 30º aniversário da ocupação da embaixada norte-americana em Teerã, acontecimento fundador da República Islâmica. Naquele dia, pela primeira vez, em alguns lugares, manifestantes, ainda que desarmados, não recuaram diante dos ataques dos bassidjis, os milicianos de moto e de cassetete. Agora, o medo é menor do que a raiva. Diante das mirradas tropas de partidários do regime, bradavam o eterno: "Morte à China! Morte à Rússia!", lançando assim um aviso aos amigos do regime no exterior, ao mesmo tempo em que pedem ao presidente norte-americano que escolha seu campo: "Obama, Obama, ou você está com eles (os dirigentes iranianos) ou você está conosco (o povo)!".

Certamente encorajados pelo exemplo do estudante Mahmoud Vahidnia, manifestantes cada vez mais numerosos denunciavam diretamente não só a pessoa do líder supremo, Khamenei, mas também o próprio princípio do Velayat Faqi, que instaura a subordinação do temporal ao religioso, fundamento do regime islâmico. Esses manifestantes não estão sozinhos. Conduzida pelo aiatolá Montazari, mais alta autoridade religiosa do país, outrora sucessor designado de Khomeini e que caiu em desgraça há mais de vinte anos, uma parte crescente do clero classifica abertamente o atual regime de... contrário ao islamismo. A história das revoluções está repleta de acontecimentos como o de 28 de outubro em Teerã: Luís 16, disfarçado de criado e detido em Varennes, Ceausescu vaiado pela multidão durante seu último discurso em dezembro de 1989, ou mesmo no próprio Irã, no fim de 1978, quando o xá, com o rosto lívido e a voz monótona, prestou homenagem à revolução que o derrubava. Quando o rei está nu, quando ele revela sua fraqueza, o fim do regime não está longe.

O que se passa no Irã diz respeito a todos nós. É a esperança de ver, em um grande país muçulmano, emergir uma democracia que conte com a separação do Estado e da religião. Um acontecimento tão inesperado quanto a queda do Muro de Berlim. No Irã, a revolução democrática está em andamento. Sua vitória não é garantida. A dupla Ahmadinejad-Khamenei fará de tudo para impedi-la, até atirando o país em uma guerra. Mas o verde que os manifestantes iranianos carregam é exatamente o da esperança democrática.

*Michel Taubmann é redator-chefe da revista "Le Meilleur des Mondes". Ele é coautor, junto com Ramin Parham, de "Histoire secrète de la révolution iranienne" ["História secreta da revolução iraniana", ed. Denoël].

Tradução: Lana Lim

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